megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

O que é a vida?


530730_514506141896589_860665633_n.jpg "O que é", este enunciado que principia indagações, não raramente existenciais e profundas, e constantemente banais e ingênuas. Indagações pronunciadas com sinceridade inocente pelas crianças e com angústia aflitiva pelos adultos: O que é a vida? O que é a felicidade? O que é a morte? O que é Deus? O que somos? O que é a arte? Escondem a ânsia que temos pela forma, como modo de compreensão pela identificação das superfícies que a delimitam. Logo, escondem o quanto somos superficiais (ainda que essa superficialidade abrigue profundidades imensuráveis e seja, portanto, ambígua).

Quando indagamos o que é a vida, ansiamos, na verdade, saber qual a sua forma essencial. Procuramos identificar as superfícies que delimitam a sua forma, porque a nossa percepção procura na análise da forma a compreensão daquilo que a forma representa - a vida. Logo, nesse sentido, a forma essencial da vida é o que a própria vida é.

"Tudo é forma, e a própria vida é uma forma" (Balzac) [...] A vida age essencialmente como criadora de formas. A vida é forma, e a forma é o modo de ser da vida [...], afirma Henri Focillon, em A vida das formas. É essa perspectiva que nos induz à buscar para todas as coisas uma forma essencial sob a qual se oculta a sua verdade. A tentativa de encontrar resposta para o que a vida é, é uma tentativa de descobrir na sua forma essencial a sua verdade e de lá encontrar o seu sentido essencial. "A vida não é, a vida acontece" (Luis Serguilha).

Isto também se aplica às demais indagações. Dispomo-nos a pensar o que é a arte, o que é Deus, o que é a morte, o que somos et cetera porque almejamos descobrir as suas verdades interiores e compreender os seus sentidos. Procuramos descobrir e compreender o sentido de todas as coisas - as coisas não tem sentido, elas tem existência (Fernando Pessoa, na pessoa de Alberto Caeiro), e identificar a forma das coisas é o meio pelo qual exercemos essa busca sem fim.

Sim, busca sem fim. Sem fim porque a vida não tem sentido, não tem forma essencial, não tem verdade. A vida é como a água. A vida é líquida. E é desde sempre, e será. Não tem forma. Não pode ser apreendida, nem compreendida. Tentar apreender a vida é como tentar segurar a água na palma da mão. A forma da água se molda pelo seu estado e pelo espaço em que existe, mas é impermanente, mutável, inconstante. E é criadora. Como a vida. A vida é tudo e é nada (tudo, contém nada; e nada, contém tudo; eis a ambiguidade e profundidade expressas).

Como a vida, todas as outras coisas não tem sentido, não tem forma, não tem verdade essenciais. A verdade e a forma das coisas que conhecemos só existem enquanto produtos da cultura (são criações humanas) e só pela cultura se podem expressar. Talvez dirão: mas nós temos forma e conhecemos a nossa forma. Creio, como Saramago, que somos o que há dentro de nós (e que desconhecemos): uma coisa sem nome - sem nome e sem forma.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
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