megalomaníaca

Viver não é preciso. Escrever é preciso.

Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida...

O peso e a leveza


O Grande Ditador, Charlie Chaplin.

Eu vi um amigo chorar com a cena do globo enquanto assistíamos O grande ditador do Charlie Chaplin. E enquanto suas lágrimas escorriam, ele me dizia, ternamente: - Esta cena é a síntese e a verdade do cinema, a mais bela. E ao vê-lo chorar eu compreendi intimamente que, na verdade, esta cena é a razão de ser do cinema. Não porque situa o cinema na história da humanidade, mas porque, pelo contrário, subverte a História, sintetiza-a e a re-significa, transformando-a em poesia. E qual será a verdadeira razão da arte senão transformar tudo em poesia, dar um novo significado a todas as coisas? Qual será a verdadeira razão da arte senão nos reconciliar com a humanidade e com a sua história? Assim como Milan Kundera reconcilia-se com Hitler em A insustentável leveza do ser, talvez Chaplin reconcilia-se com o mesmo Hitler em O grande ditador.

O contraste entre o lúdico e até onírico e o drama, a densidade da música que rege a cena me faz pensar no peso e na leveza. Talvez porque nenhum outro escritor me seja tão íntimo quanto o é Milan Kundera, talvez porque desde que encontrei A insustentável leveza do ser a minha sensibilidade pelas coisas tenha sido transformada pelo meu encontro - o acaso - com Kundera. Aprendi com Kundera - e também com Nietzsche - a não enxergar o bem e o mal senão como peso e leveza. Não há adjetivações quando se enxerga todas as coisas como peso e leveza - o leve e o pesado podem ser tanto bom quanto mal, estão além do bem e do mal.

Assisto à esta cena e a memória me recita passagens de A insustentável leveza do ser: "a história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa como uma coisa que vai desaparecer amanhã". Nesta cena, a história é tão leve quanto uma bola de plástico. O bem e o mau não são evidentes senão como metáforas do peso e da leveza. O mau é banalizado - talvez Hannah Arendt concordasse comigo nisto.

Quem poderá odiar aquele ditador cheio de graça e leveza? Quem pode ver nele o mau? Ali há apenas uma brincadeira, um jogo lúdico, onírico e dramático entre o peso e a leveza, uma cerimônia de esquecimento da História. Não há espaço nesta cena para o bem e para o mau, como não há espaço para a memória nem para o perdão, senão como peso e leveza. E num jogo entre o peso e a leveza, o bem e o mau, a memória (a História) e o perdão (a reconciliação com a História) são representados pelo esquecimento.


Janne Alves de Souza

Uma moça privada de si mesma, mas tão sensível aos encantos discretos das pequenas coisas da vida... .
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/Cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Janne Alves de Souza