meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

A sabedoria das coisas simples

É o clichê mais verdadeiro que existe: Quando as coisas parecem fugir do controle, a resposta está, geralmente, no valor das coisas mais simples. Talvez, então, esteja na hora de cada um de nós, e o mundo como um todo, tomarmos consciência dessa máxima e praticá-la todos os dias.


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Cresci numa cidade pequena e de interior durante quase toda a minha vida. Minha família não tinha muito dinheiro, e durante toda minha infância eu não tive computador, nem vídeo game, nem tv a cabo, nem nada dessas coisas. Então, eu brincava na rua, subia em árvore, jogava bets, queimada, fazia guerra de bexiga d’água, comia jabuticaba do pé, pisava na terra, tomava chá colhido na hora e tantas outras delícias que muitas crianças não puderam experimentar cotidianamente por algum triste motivo criado pelo estilo de vida moderno.

Mesmo com todo esse paraíso a minha disposição, muitas vezes eu ficava em frente à televisão vislumbrada com as maravilhas da cidade grande. Ficava em êxtase sempre que tinha a oportunidade de visitar uma cidade maior. Eu queria morar naqueles prédios, pegar aqueles ônibus, entrar em todas aquelas lojas, ir ao shopping, comer fast food. Criança pensa mesmo cada besteira, né?

Eis que quando completei meus 17 anos eu também passei no vestibular. A essa altura, já tinha provado que algumas das minhas ilusões sobre a cidade grande não eram assim tão maravilhosas, mas por motivos de força maior eu tive que partir na minha jornada até ela. Sozinha.

Não demorou muito para eu compreender que era preciso ter jogo de cintura naquelas bandas. Jogo de cintura e estômago. E pernas fortes para aguentar o balanço do ônibus lotado. E paciência para as filas. E muito saco para as pessoas indelicadas. E foco para a solidão não me fazer sucumbir em meio ao caos de concreto.

Desenvolvi alguns problemas digestivos e insônia antes do término do primeiro ano. Em pouco tempo, eu queria ter cada vez mais coisas para fazer para que eu pudesse manter meu foco distante do caos que acontecia no meu interior. Eu ligava o modo automático e entrava no ônibus lotado de manhãzinha e era nesse estado que eu passava grande parte do meu dia.

Alguma coisa estava errada.

Foi aí que eu comecei a notar que eu estava sendo envolvida por uma espécie de espírito coletivo que domina os hábitos de vida na modernidade. Um espírito apático, preocupado com tudo, temeroso, desatento às pequenas maravilhas, ansioso, estressado, irritável. Eu estava começando a pisar na vida adulta, e quando voltava pra casa e refletia sobre a minha condição, eu concluía com certeza cada vez mais plena que eu não era aquela pessoa, que eu estava me perdendo, e que sentia falta de mim. Alguma coisa estava muito errada.

Me lembrei então do quanto eu gostava de pisar na terra. E de como era bom não fazer nada no quintal, só para olhar as formigas carregando as folhas. Para além disso, como era bom respirar. Há quanto tempo eu não notava que respirava?

Sucumbi, tranquei a faculdade, voltei para a casa dos meus pais.

Era tempo de me sentir, novamente, conectada e consciente de mim. Comecei a meditar, a entender o mundo em formas mais conexas, e compreender que esse processo era necessário para ter real noção de quem eu sou e onde eu estou no mundo. Passar a valorizar as coisas simples que me construíram e que edificam meu cotidiano.

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Notei que os noticiários estavam um tanto quanto tomados pelo espírito que me apossava durante aqueles tempos caóticos. Ninguém mais tem consciência do que está fazendo, estão todos se perdendo em seus próprios eus. A água está acabando. Quando eu morava na cidadezinha do interior e estudava numa escolinha de ensino básico qualquer, muitos falavam que esse dia chegaria. Ele chegou.

Certa vez, lá pela segunda série tivemos que fazer um texto sobre o meio ambiente, e lembro-me de ter usado na redação uma palavrinha que deixou a professora orgulhosa: CONSCIENTIZAÇÃO. Eu já sabia que existia um espírito estranho envolvendo o mundo a minha volta, que estávamos conectados mas sem consciência dessa conexão. Para a água não acabar, para o meio ambiente sobreviver, eu sabia quase que intuitivamente, aos sete anos de idade, que era preciso ter CONSCIÊNCIA.

Estamos vivendo um momento em que todos fomos tomados pelo espírito da cidade grande, pelo espírito do “progresso”, do individualismo, do consumismo, e da ilusão de que estamos separados, num nível tão alarmante, tão assombroso, que estamos a ponto de nos destruir. Estamos acabando com o combustível da vida. Com a água, com o ar, com a terra. Propomos mudanças a longo prazo, exigimos medidas efetivas do governo, ficamos atentos com as possibilidades futuras, sem nos deixar notar e tomar a consciência que o mundo está doente, que nós estamos doentes e que a cura precisa vir AGORA.

É tempo de valorizar as coisas simples. Quando for tomar um copo d’água, não apenas beba água, mas BEBA ÁGUA. Saboreie esse instante milagroso, preste atenção no que está fazendo. Eleve-se e leve esta consciência para toda a sua vida.

Respire. Sinta a sua respiração. Você tem noção de onde está no mundo? Tem noção de que, talvez, você seja a única pessoa que você é capaz convencer a mudar alguma coisa? O que você pensa, fala, e como age são determinantes nessa transformação. Ninguém saberá apreciar a vida por você, você não pode obrigar ninguém a enxergar com os seus olhos e ninguém externo poderá te salvar das garras desse espírito inconsciente e desconectado do todo. Só você tem esse poder. A solidão e o medo são consequências desse tempo que temos passado sem ter CONSCIÊNCIA do ser de luz que somos. E de que, acima disso, estamos todos conectados, na mesma energia.

Não tenha vergonha de se amar incondicionalmente, num nível muito mais profundo e intenso que a superficialidade do narcisismo e da arrogância. Pratique todos os dias seu amor próprio. Ame os acontecimentos da sua vida, aceite seus sentimentos, não prenda suas mágoas. Sofra suas dores, chore suas lágrimas, mas acima de tudo, ria suas alegrias, compartilhe sua felicidade, contemple o sorriso das pessoas que ama, aproveite o poder mágico que a apreciação da natureza pode oferecer no processo de renovação de energias, olhe para o céu. Aprecie os pequenos momentos de beleza, e os grandes também!

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Ame o mundo que te circula, ame cada ser em evolução nesse planeta e não deseje o mal para ninguém! Deseje a si mesmo o melhor, que desejará aos outros o melhor, automaticamente. Confie em si mesmo, e não precisará viver refém do medo. Assuma suas fraquezas, seus limites, conheça sua humanidade, mas não se julgue, e não ouse se vitimizar. Tome consciência de si e se fortaleça. Não tenha medo da jornada. Não tenha medo do seu caminho. Pense o bem, queira o bem, viva pelo amor, e nada mais! Só assim a felicidade pode se tornar palpável na sua vida.

Não espere o milagre, não espere algo externo que venha te salvar dos seus monstros. Sinta seu corpo, aquiete sua mente e limpe seu espírito, pensando, falando e fazendo o bem SEMPRE!

Valorize-se e valorize seu entorno. Talvez você não precise de ter mais coisas. Talvez você possa demorar menos no banho. Talvez você precise pisar na terra, meditar, subir em árvore, comer jabuticaba do pé, observar o trabalho coletivo das formigas, encher os pulmões, apreciar o mundo com novos olhos. Olhos de quem tem consciência e sabe que está aqui nessa existência não apenas para passar por ela, mas para sentir-se parte integrante do todo. Conectado e consciente.


Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
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