meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

Psicodália 2015: uma experiência de alma e lama

É espetacular estar num lugar onde você tem a possibilidade de encontrar um dos seus em qualquer canto. Mais de seis mil pessoas estavam reunidas no Psicodália 2015, e a sensação eminente era que, de alguma forma, todos ali já eram velhos conhecidos que esperaram o ano inteiro para se reencontrar neste carnaval cheio de magia, psicodelia, arte, lama e cor.


Giuliano Gasparetto.jpg Fotografia de Giuliano Gasparetto

Há 18 edições o Psicodália vem construindo esse ambiente de reencontro, magnífico e extasiante, entre todos aqueles que apreciam o contato com a natureza, o amor pela arte e procuram uma alternativa às tradicionais festividades carnavalescas com uma pitada de muito rock’n roll. Na Fazenda Evaristo em Rio Negrinho-SC, fomos todos tomados por um carnaval mágico dentro deste festival surpreendente em todas suas formas. Poder vivenciar há alguns anos a maravilha de estar conectada num lugar assim é realmente gratificante.

Mesmo que existam críticas em relação aos preços que estão ficando cada vez menos acessíveis, ainda assim, a experiência mágica de passar seis dias em conexão com a expressão viva que ocorre nesse lugar é recompensadora em todos os sentidos. São famílias, crianças, senhores e senhoras, loucos de todo tipo, artistas de rua, independentes, gente do teatro, da dança, da música, da poesia, encontrando-se nesse lugar onde a cor e a celebração da vida em suas muitas formas se tornam um ritual sagrado cotidiano.

11054_960039410672851_3415231181119832044_n.jpg Fotografia de Giuliano Gasparetto

Esse festival consegue agregar em sua essência um ar que mistura a delícia da arte com o sentimento de responsabilidade sustentável mútua. A preocupação existe desde a separação do lixo produzido no seu acampamento com os seus amigos, passando pelos banheiros secos que reaproveitam os resíduos naturais da galera, até a preocupação individual com o destino correto para sua bituca de cigarro. É expressivo o quanto todos ali se conectam em busca de uma apreciação mais consciente do ambiente em que estão cercados, mesmo que estejam todos embriagados das delícias de estar vivendo um revival hippie em pleno século XXI, com direito à muita psicodelia, pregação de paz e amor – mas sem esquecer da construção de um ambiente mais sustentável em nome de um mundo melhor para todos.

Mesmo embaixo de chuva e lama, os sorrisos em todo canto mostravam que ali o mais importante era o sentimento de pertencimento que nos agregava sob uma mesma energia. O som, a dança, a chuva, a lama, o amor, todos pareciam estar milimetricamente combinados numa mistura surpreendente e instigante.

Ricardo Laf.jpg Fotografia de Ricardo Laf

As oficinas das mais diversas evidenciavam a quantidade de tribos que marcavam presença no festival. Desde oficinas sobre ervas medicinais e aromaterapia até palestras sobre física e fabricação de instrumentos musicais, de certa forma, todos aqueles saberes pareciam se complementar e traziam a evidencia que mesmo em aparente oposição, toda forma de saber é parte de uma mesma busca pela sabedoria em nome do bem comum.

Os shows de nomes como Ave Sangria, Arnaldo Baptista, Jards Macalé, Baby do Brasil e o memorável Ian Anderson, ex líder do Jethro Tull, nos faziam relembrar que além de todo esse ambiente espetacular que se fazia presente desde as coisas mais simples, o festival é, acima de tudo, uma possibilidade de entrar em contato com ícones que formaram a identidade musical de tanta gente que ali se reúne. Ao final do show do Ian Anderson existia uma aura tão pura e de tanta paz entre aqueles que acompanharam o show, que muitos não seguraram as lágrimas e transbordaram enquanto os auto falantes começaram a tocar Wonderful World na voz de Louis Armstrong... Sublimação: Este era o único sentimento que meu ser podia conceber naquele momento em que eu abraçava meus amigos suados depois daquele show quase místico que nos levou para uma floresta mágica ao som da flauta mais conhecida do mundo do rock.

Giuliano Gasparetto3.jpg Fotografia de Giuliano Gasparetto

Para além do som desses ícones, outros nomes da cena musical contemporânea se fizeram presentes em shows memoráveis como o da banda curitibana Trombone de Frutas, a cítara deliciosa em conjunto com a performance hindu das dançarinas na apresentação do Raga Macaxeira, a essência instrumental da década de 1970 do som do Bombay Groovy, a genialidade excêntrica d’O Terno, o som feito de poesia e ritmo do Metá Metá, que trouxe para o meio do festival a força dos nossos orixás com muita brasilidade e energia, sem deixar de lado a crítica através do pedido de que num próximo festival sejamos contemplados com uma banda só de meninas! - Adendo para a crítica feminista, poxa gente, vamos fazer jus à ideia de uma nova perspectiva total não só no festival mas também em outros veículos culturais! Falta o reconhecimento da mulher na arte, e nós não nos calaremos! - Estes e tantos outros espetáculos aos ouvidos delinearam o cenário principal da música no festival. Entre uma e outra apresentação, movimentos espontâneos de sonoridades diversificadas surgiam em todo canto.

Alline Brancalhão.jpg Fotografia de Alline Brancalhão

Entre danças, performances, rostos pintados, cabelos de todo tipo, pés cheios de lama, palhaços, capas de chuva, corpos suados, risadas e êxtase o Psicodália 2015 trouxe novamente a lembrança de que um universo com outras possibilidades de ser é possível. Desde os shows grandiosos até a movimentação improvisada que começava só no violão e na voz e em poucos instantes agregava todos os tipos de instrumentistas num fluxo de som e energia que pareciam ser de outro mundo, o Psicodália veio me lembrar que aquele universo onde as coisas simples são valorizadas é possível.

Até mesmo nos banhos – muitas vezes gelados - em banheiros coletivos, racionando a água, éramos presenteados com o som da Rádio Kombi, que fez um show à parte no festival, nos prestigiando com música boa de todo tipo, de toda parte do mundo, o tempo inteiro durante o Psicodália, com seus transmissores nos refeitórios, nos banheiros e em qualquer radinho de pilha velho que alguém tivesse por ali.

10960471_10203781871734220_5918999842281400517_o.jpg Fotografia de Barbara Joy

Nesse clima de paz e arte, em todo canto era possível contemplar o espetáculo que a vida é em suas formas mais serenas e simplórias. Poder vivenciar esse momento mágico é de grandiosidade inestimável. O Psicodália 2015 foi, para mim, um momento de recarregar as energias, para lembrar que o amor agrega e que o sorriso sempre alegra. Seja no amor pela arte, ou no pé que pisa a lama, no ato de dividir com o próximo e de cuidar do ambiente que partilhamos. Que essa proposta seja válida para cada um que passou por ali e que possamos transmitir para os nossos, todos os dias fora do festival, o quanto cada uma dessas maneiras de contemplar a vida é necessária na construção de um mundo de mais paz, harmonia, serenidade, cor, arte e amor


Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
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