meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

Manifesto do amor, sem adjetivos

O amor é a expressão concreta da sincronia que pode existir entre corpo, mente e espírito. Que amar seja, então, um ato de libertação, de plenitude para o ser, de contemplação e, também, de transformação das amarras opressoras.


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Te amaria como na poesia, se não houvesse o medo de que um dia você me coagisse. Medo de que, no cruzar das vias, mais tarde ou mais cedo, tua voz ultrapassaria a minha, e na opressão enraizada, nosso amor sucumbiria.

Façamos então que a liberdade seja a fonte inesgotável do nosso conhecimento e o guia de nossos atos. Que juntos, eu, você, e todos os amores que fogem dessas estruturas inibidoras, consigamos enxergar a saída.

Busquemos nosso auto conhecimento, fugindo das relações de pesadelo, que oprimem e fazem manchar aquilo que o amor pinta num sorriso. Que nosso crescimento, nosso amor, e nossa vivência se livre de toda forma de opressão. Por nós mesmos e com os outros, que continuemos lutando, e que no nosso afeto possamos ir além.

E agora eu proclamo, exclamo e canto, letra por letra o manifesto do amor, sem adjetivos! Pela iluminação que busca meu ser, e para que haja, no ato de amar, a libertação de toda forma autoritária de poder!

Não exerceremos no nosso amor qualquer ação que suga, maltrata e esgota a energia alheia. Nenhum abuso de poder será cometido, amaremos conscientes e usufruindo do nosso livre arbítrio.

Lembraremos que todos viemos de um só lugar, e que nosso amar é um ato político, que em si mesmo busca libertar os seres humanos da prisão do medo, e permite que todos possam do amor também gozar, seja como for, sem repressão à todas as maneiras que ele pode se expressar!

Essa liberdade não define quantos amantes queremos, devemos ou podemos ter, ou de que gênero será o alvo de nosso desejo.

A liberdade está inscrita na possibilidade de escolher. Escolher amar um, dois ou três. Uma vez de cada, ou todos de uma vez. E que esse amor não seja apenas comido até o caroço, pra depois ser jogado aos destroços de uma memória infeliz, onde nega-se o antigo amado, pois somos todos universos em eterna pulsação, estamos indo e vindo num movimento eterno, os amores, a vida e nosso próprio coração.

Que te amar seja suculento, que expanda a mente, e alimente a alma!

Que quem ama entenda que, é na expressão do amor, que as energias trocadas anunciam o universo que em cada um inflama, expande, e no encontro com o outro, transcende pela carne, pelo coração e pela mente!

Que nosso amor não seja podado pelos poderes e pudores inscritos no sistema, na estrutura e no Estado!

Que a liberdade de amar-nos esteja para além dos rótulos que nos são dados, que seja inspirada e apreendida no presente, no agora - e mesmo que não seja una, que ela nos seja vívida e que aja sem demora!

Que amar seja um exercício eterno.

Que ninguém se consuma, se use como objeto, que ninguém utilize o outro como produto, e que isso seja um decreto! Para as relações homo, bi e héteros! Pros monogâmicos, poliâmicos e incertos!

Que o amor seja nossa substância, o combustível que, em contato com o outro, revela-nos a nós mesmos e nos liberta das amarras.

Que o amor seja, para nós, o fim, o início e o meio. Que nossas relações não sejam nulas, vazias, superficiais. Que saibamos aquecer o outro, afetar-nos pelo outro - através dos versos, do toque, da dança, do riso e do carinho.

Que o amar seja um ato transcendente, relacional, de amadurecimento e de fortalecimento individual e coletivo.

Que amar não esteja preso na superficialidade dos impulsos do fetichismo, no silêncio, no absoluto individualismo e no ato desenfreado de amar só para poder contabilizar mais um amor, descartado depois num total abismo.

Que amar também não seja perpétuo, regrado, meticulosamente forjado para ser exatamente isso ou aquilo.

Que amar seja além! Personifique a libertação e o empoderamento de uma humanidade consciente e cheia de discernimento!

Enfim, que amemos! Que não desistamos de amar. Umas às outras. Uns aos outros. Umas à outros. Outras à uns. Amar não precisa de método preciso, mas tem de ser cuidadoso, porque é arma poderosa, tanto para oprimir, quanto para libertar!

Que as mulheres se permitam experimentar o amor próprio, todas nós! Que nos amemos em coletivo! Tantas formas de amor nos foram roubadas... Experimentemos o gosto de estarmos com nós mesmas, de nos amarmos em toda nossa natureza! Que nossos corpos não sejam vítimas de fardos que não podemos carregar, chamados por todos os lados de nomes tenebrosos, e que não achemos que merecer amor depende da maneira em que se desenham nossos corpos! Que não odiemos umas às outras pelas formas que optamos nos expressar!

Amor em liberdade significa um amar pleno, não determinista, que tange à humanidade em todos os aspectos e nos desvincula de especulações e estigmas.

Que nosso amar seja mais que mero reflexo do consumismo, e instrumentação para tantas formas de opressão. Que o amor seja o mais agradável prazer das experimentações do ser, que seja nosso destino e que possamos ter a graça de perceber que é para amar que mantêm-se o corpo vivo!


Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
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