meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

O absurdo de ser humano

A natureza do bicho homem parece ser indecifrável. Uma fantástica hipérbole de tudo, ou então uma grande perturbação. Onde a natureza das coisas passa a ser transmutada para o absurdo que a humanidade faz das coisas?


Thumbnail image for the-therapeutist-1937(1).jpg O terapeuta, 1941 por René Magritte

A humanidade é absurda. Uma das maiores questões filosóficas e antropológicas existentes é justamente a que indaga sobre o entendimento de onde se dá o limite entre a natureza e a cultura - que pode ser lida como o ato de pintar tudo que é natural na tonalidade hiperbólica de absurdo à qual o homem é tão apegado.

Onde a natureza das coisas passa a ser transmutada para o absurdo que a humanidade faz das coisas?

A natureza das coisas é fluente, sem encanações, sem entraves, sem comparações. Ela simplesmente flui em sua essência. Mesmo as mortes apenas fluem na natureza. Uma estrela findando sua vida, uma supernova, vulcões em erupção, explosões estrelares não passam por nenhum júri antes de acontecerem. Quando acontecem são sempre parte de um processo maior, e ninguém lhes aponta dizendo se isso é bom ou ruim. Não há o dedo de um Deus julgador na natureza, o Deus da natureza apenas flui com ela. Fluidez que essa característica intrínseca do homem parece não conseguir admitir e tomar para si.

Criamos teias imensas de complexidades e entrelinhas para conseguir tirar conclusões tão simples quanto o fato das folhas caírem no outono. Nos desesperamos quando percebemos a impermanência das coisas, quando notamos o quanto a única linearidade que parece existir é a não linearidade de tudo, que transita numa dança infinita de um polo para o outro. Não conseguimos apenas aceitar, apenas contemplar. Queremos criar estratégias para fugir do ritmo natural do universo.

Ser humano, as vezes só parece ser humano pela sua capacidade de encafifar as coisas na cabeça, de se apegar aos significados absurdos que só fazem sentido para a vida da nossa espécie, de passar pela experiência de existir nessa forma orgânica ensimesmado, preso nos próprios delírios da mente e daquilo que chamamos de “razão”.

A mente e a racionalidade são uma ferramenta essencial para auxiliar essa caminhada em busca de pura contemplação. Mas ela também pode criar armadilhas nela mesma, que nos colocam em estado de paranoia, pânico e confusão. Porque as vezes querer ser capaz de entender tudo antes de se jogar para a experiência pura de existir pode ser a maior auto sabotagem de todas.

Estamos desorientados por um sistema de valores muito pouco sincronizado com todo o resto da existência. Há muito mais a ser contemplado do que aquilo que se encaixa dentro das nossas percepções falhas e maniqueístas. O bem e o mal são construções nossas, só nossas, de ninguém mais. Nós os criamos, e os obedecemos, tanto no plano coletivo da ética, quanto no plano político dos indivíduos.

Thumbnail image for Magritte_1933_La condition humaine.jpg A condição humana, 1933 por René Magritte

Há muito mais no universo que o sistema de bem e mal que nós criamos e seguimos. Há muito a ser aprendido através de ferramentas que saem um bocado dos limites da cognição lógica e racional – também presa nesse sistema tão falho e tão nosso de perceber e interpretar o mundo. Há muito mais ligação entre as coisas todas que existem em todo lugar da vida e do universo (e tudo mais) do que nossa percepção lógica é capaz de conceber e interpretar.

É por isso que devemos estar cientes das armadilhas da nossa mente. Quando nos comparamos, ou comparamos os outros estamos nos esquecendo que nosso sistema de valores não é tudo. Quando julgamos alguém por aquilo que ele aparenta ser – dentro dos limites das nossas concepções individuais sobre o que é cada tipo de indivíduo – estamos diminuindo nosso potencial de ter uma consciência maior e mais plena das coisas.

Quando só conseguimos alocar nosso pensamento em polos extremos, quando nos incomodamos com o fato de alguém ser nosso exato oposto em qualquer aspecto, quando não conseguimos aceitar com plenitude a existência da morte, do sofrimento, das perdas, quando nos apegamos demais em nossas próprias encanações, quando confundimos ter auto estima com egocentrismo, quando nos auto depreciamos e quando depreciamos o mundo, estamos justamente negando nossa potencialidade de ser um pouco mais simples e um pouco menos complexos do que meros humanos. Do que apenas humanos, demasiadamente humanos.

Quando temos a capacidade de olhar para dentro de nós e encontrar o mundo, e olhar para o mundo e encontrar em tudo um pedaço de nós, experimentamos um certo gosto de divindade. Não a do Deus humano julgador, mas do Deus que flui da natureza. Da consciência que existe e interliga tudo que há.

Quando temos essa capacidade tão simples de apenas contemplar entramos, enfim, um pouco mais na sintonia do universo – mesmo que jamais deixemos de cair nos poços abismais da existência de sermos humanos demais.

humano-demasiado-humano1.jpg Humano demasiado humano por Alex Evan Dovas


Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
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