meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

Sense8 e a desmitificação da falácia do indivíduo

A nova série do Netflix, lançada mês passado, talvez não seja a trama mais fácil de ser compreendida da face da terra. Mas, é justamente aí mora seu fascínio: passando por mergulhos existenciais sobre a condição humana, à crítica dos moldes consagrados do sistema patriarcal (tudo com uma boa dose de ficção científica) Sense 8 desperta em quem assiste a sensação de que algo está muito errado no mundo em que vivemos, mas que talvez a chave para reconfigurar nossa existência esteja dentro de nós e na nossa capacidade de conexão uns com os outros.


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Dirigida pelos irmãos Wachowski – consagrados no mundo da ficção científica com os filmes da triologia Matrix – Sense 8 é a nova série do Netflix. Tendo seu lançamento um tanto quanto abafado pela estreia quase simultânea da terceira temporada de Orange Is The New Black, aos poucos a internet começa a respirar a aura dessa série que nos transporta para um universo de estranhamento tão grande, que quando notamos, estamos nos vendo refletidos na série com todas nossas peculiaridades.

A trama conta a história de oito pessoas espalhadas pelo mundo, nascidas da mesma fonte sensitiva (talvez um anjo, talvez um deles) e unidos por uma mutação genética extremamente sutil que os permite ver, sentir, experimentar, conversar, trocar, lutar e até amar em conexão uns com os outros. Eles são chamados “sensates” – daí a genialidade do trocadilho no título “Sense8” que se pronuncia da mesma forma em inglês.

Dispondo de uma fotografia extasiante, que capta a paisagem e a essência dos países de cada um dos sensates - Quênia, Índia, Alemanha, Islândia, Coréia do Sul, Londres, E.U.A e México – e de uma trilha sonora que complementa a quase utópica experiência áudio visual da série, Sense8, além de muito bem produzida, nos traduz inquietações humanas de muitas formas.

Os sensates, que ao longo da vida sempre se sentiram um tanto quanto “deslocados” daquilo que deveriam representar no mundo em que viviam – todos marcados por experiências pessoais de magnitude existencial impactante – sentem, a partir do momento em que começam a entrar em conexão, que eles não estarão mais sozinhos.

Mesmo sendo perseguidos por disporem dessa habilidade - que, como o mostrado na série, impactaria drasticamente no estilo de vida consumista compulsório, engrenado pela violência, pela vingança, pelo dinheiro e pelo ódio a tudo aquilo que teima em fugir à regra – os personagens passam a encontrar uns nos outros, através de viagens psíquicas, o conforto de saber que existem pessoas como eles no mundo. Que eles todos têm essa capacidade de sentir o que o outro sente. Que estão conectados e que são maiores do que a noção moderna pífia de que o indivíduo é um ser totalmente autônomo e independente, que está deslocado de todo o resto. Aquele indivíduo moderno, sozinho, naufragando-se em achar que suas decisões só impactam à sua própria vida, e que sua vida só é impactada pelas decisões tomadas por ele mesmo.

Com o desenrolar da série, passamos a nos sentir também um pouco parte dos sensates. Todos nós que nos incomodamos com o distanciamento entre os homens, todos nós que nos incomodamos com os valores que pregam nossa desconexão uns com os outros. Todos nós que percebemos – como Bauman fala em Modernidade Líquida – que a falácia do indivíduo de jure só tem serventia para a manutenção de um sistema falho de “justiça social” e de direito – engrenado pelo poder e a dominação – e que, então engana a percepção humana, dando a ilusão de que somos indivíduos de facto, totalmente responsáveis por qualquer ocorrência em nossas vidas (e só nas NOSSAS vidas individuais e de ninguém mais), fazendo-nos sentir desconectados de todas as outras formas de vida que existem, inclusive a dos outros seres humanos ao nosso redor.

Um enredo surpreendente, que instiga a mente pela capacidade imaginativa da ficção científica, os olhos pela fotografia e cenas de ação (que não poderiam ficar de fora da obra dos irmãos Wachowski), os ouvidos pela trilha sonora espetacular são apenas detalhes perto da maneira que a série atinge nossas emoções e sentidos pelo conteúdo penetrante presente em cada singularidade nas histórias individuais dos sensates, que ao entrar em contato criam uma rede de pessoas que lutam umas pelas outras, protegem umas às outras, amam umas às outras. Pessoas que sabem que são diferentes do resto do mundo e serão perseguidas, mas se unem para protegerem-se. Pessoas que sentem a dor do outro, que sentem amor pelo outro. Que sabem que se um de nós está doente ou sofrendo, todos nós adoecemos e sofremos juntos.

Dos diversos temas que essa primeira temporada de 12 capítulos percorre, chama atenção quando citam o DMT, a molécula presente em todos os seres vivos, que nos conecta à todas as formas de vida e que dorme na mente humana. Além disso, durante as experiências extracorpóreas psicodélicas entre os personagens, nós somos elevados para um universo que, mesmo fictício, nos coloca em questionamento constante sobre nós mesmos, nossas capacidades psíquicas, o poder da empatia, de sentir-se conectado... Questionamentos estes que nos encaminham para outros ainda mais complexos e essenciais: Quem nós somos? O que estamos fazendo aqui? Porque só nossa espécie age dessa forma bizarra? E porque só alguns dentro da nossa espécie tem a capacidade de notar o quão estranha é a forma com a qual o homem lida com a experiência de simplesmente existir nesse mundo?

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Tendo na trama personagens de todo cenário LGBT (incluindo uma mulher trans lésbica) e personagens inseridos em panoramas culturais completamente diversificados, que sofreram situações de abuso, de preconceito e de pobreza ao longo da vida, o expectador é levado a perceber que também há na série um cunho político de crítica social ferrenha.

São questionados padrões de gênero, o preconceito racial, os relacionamentos abusivos, os limites entre a satisfação de viver do que trabalha ou viver do que ama, o medo imposto pela sociedade àqueles que são diferentes e não podem ser o que realmente são, entre tantas outras dificuldades impostas à condição da nossa espécie.

Os sensates se unem como um grupo que precisa se conectar para se proteger por estarem projetados para fora daquilo que é consagrado como “padrão normativo” da sociedade. São perseguidos por ter essa “doença” de sentir demais, por ter um poder de conexão uns com os outros que levaria todo sistema atual, baseado consumo e poder à falência, pois este se embasa totalmente no egocentrismo, apatia e frieza entre os seres humanos e todo ambiente ao seu redor.

Talvez essa seja uma dica dos diretores para todos nós que escapamos à regra, que não nos conformamos com a desigualdade social, nem com a dor do outro, que não abaixamos a cabeça para a violência e o preconceito em nenhuma forma, e que seremos perseguidos por isso.

Talvez seja uma mensagem para nos lembrar que precisamos nos unir e reconhecer que todos viemos do mesmo lugar, da mesma fonte, e devemos lutar juntos para sobrevivermos e disseminarmos essa capacidade de enxergar um pouco além da mesquinharia usual do mundo dos homens.

Talvez sejamos todos sensates e tenhamos adormecido dentro de nós essa potencialidade depois de tanta propagação sistemática da falácia do indivíduo e do fetichismo pelo estilo de vida atual, regado por ódio, discriminação, falta de consciência política, desconexão dos homens uns com os outros e com a natureza. Realidade que nos tona fadados à uma existência onde todos os nossos vazios existênciais tentam ser supridos pelo consumo e não pela reconexão com o todo que tanto nos faz falta.

Num mundo em que a vida humana vale menos que a posse material, talvez aqueles que apareçam sentindo uma conexão maior com as vidas alheias sejam considerados loucos, esquizofrênicos, fora de órbita, uns esquisitões. Esquisitões que sentem demais, que tem empatia demais, que amam demais, que prezam por sentir suas dores, amores, prazeres, angústias. Pessoas normais que não querem passar por cima da sua potencialidade de captação sensitiva e se dedicam para buscar na reconexão com o todo, ouvir sua intuição e seu coração, mudando um pouquinho a hierarquia da mente e da racionalidade sobre todas as outras formas de compreensão que podemos atingir.

Para quem procura uma viagem mental, de sentidos, emoções, e ousaria dizer que até espiritual, Sense8 é a melhor opção. Talvez o seriado mais completo que eu já tenha visto, mais denso de sensibilidade e profundidade, numa mistura de tantas sensações extraordinárias que não tem como assistir só um episódio por vez. Quem sabe ao longo da trama você também não coloque para dormir sua noção de eu individualista e desperte o sensate que existe adormecido dentro de você?

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Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
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