meio desconexo

Divagações, devaneios, desabafos e deleites.

Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo.

A vida na modernidade líquida: consuma ou descarte

Sob a perspectiva de Bauman, tendo como base suas obras "Modernidade líquida", "Vidas desperdiçadas" e "Vida para consumo", proponho uma reflexão sobre a precarização e desvalorização da vida humana, tanto no contexto global quanto na realidade brasileira.


1@1356496985920e3ba1476b13b.jpg

Em "Vidas desperdiçadas" e "Vida para consumo", Bauman dá vazão à sua teoria sobre a sociedade contemporânea, complementando suas noções e conceitos sobre os efeitos da modernidade líquida na vida social e na mentalidade das pessoas na contemporaneidade.

Sempre apontando como oposição à era da modernidade líquida, a modernidade sólida que imperava até a década de 1950, Bauman delineia em Vida para o consumo a maneira pela qual os indivíduos são hoje, acima de qualquer coisa, consumidores – e não apenas de bens materiais – mas de relações humanas, e de si próprios. A humanidade, na modernidade líquida, ganha tons de mercadoria, onde cada pessoa é incumbida da tarefa de se auto promover, se vender e ganhar algum posto de destaque que valorize essa intensa busca dos indivíduos pelo consumo rápido de todas as coisas.

Em Vidas desperdiçadas, à partir do mesmo esquema comparativo em relação à modernidade sólida, Bauman evidencia o lixo como componente primordial da lógica pela qual os seres humanos estruturam as suas vidas na atualidade. Muito mais preocupante que a maneira como comprar novas coisas, na mentalidade atual, está a importância de poder descartar o mais rapidamente possível aquilo que consumimos, para que se abra espaço para essa incessante e insatisfatória busca por aquilo que é novo.

Dentro dessa lógica nasce a concepção de que a vida humana tem sua validade e seu valor na medida em que o indivíduo é capaz de consumir e movimentar essa gigante máquina do capitalismo parasitário, compactuando em todos os níveis com sua lógica segregacionista, individualista e que pauta toda a existência na noção de que poder consumir e satisfazer hedonisticamente seus impulsos é aquilo que dá sentido à existência. Aqueles incapazes de adentrar essa lógica passam por uma angustiante pressão psicológica, já que essa mentalidade tomou impulso de maneira drástica num período muito curto de tempo, além, é claro, de que este alicerce ideológico dá as bases para a noção de que as vidas incapazes de consumir, ou que consomem insuficientemente, são o pior tipo de empecilho ao funcionamento desse grande mecanismo, e, portanto, são completamente desprovidas de qualquer tipo de valoração –são as vidas desperdiçadas que dão nome à uma de suas obras.

A clareza e linguagem simplificada com a qual Bauman discorre sua análise nos permite fazer ligações óbvias com o cotidiano a todo momento. A atualidade de sua discussão é imensa e assistimos os efeitos dessa modernidade líquida tanto nas esferas da vida cotidiana, quando nos mecanismos mais estruturais, macro e complexos da sociedade como um todo.

As vidas que não se dedicam inteiramente ao consumo se tornam vidas descartáveis, desprovidas de amparo legislativo qualquer, são jogadas ao caos e sofrem diretamente intensas tentativas de exterminação. Ao exemplo dessa lógica, podemos tentar compreender a situação das pessoas da Síria e de outros países do oriente médio que buscam refúgio na Europa. A guerra no oriente médio é incisiva por uma questão simples de interesse ideológico: eles permanecem à margem da sociedade capitalista reforçando seus padrões culturais e tentando a todo momento se livrar das mãos de ferro do poder global. Não baixar a cabeça é compreendido como um ataque à lógica do mundo globalizado e capitalista onde vivemos, e assim todos aqueles que estão sob um Estado que se recusa a baixar a cabeça, sofrem as consequências terríveis de ataques violentos, diplomaticamente justificados de maneira cínica e maquiada. Aqueles que tentam sair da situação de guerra para adentrar a Europa, com toda sua vida já desestruturada, são tratados como o lixo da sociedade. Aqueles que não se encaixam, que não fazem diferença e podem ser exterminados.

Na realidade, não é preciso fazer um deslocamento geográfico muito grande para compreender a maneira que age essa lógica da modernidade líquida em relação às vidas que estão fora do circuito de consumo. Basta olhar a situação das periferias brasileiras, o extermínio da juventude negra e pobre buscando se legitimar a todo momento nas esferas legislativas. O descaso do Estado de maneira geral com as populações em situação de vulnerabilidade tem todo apoio das classes médias, que sentem que a esmola dada pelo governo àqueles que vivem abaixo da linha da pobreza faz um rombo econômico que os prejudica.

A máscara ideológica que vela o real motivo pelo qual a economia sofre intensa instabilidade não permite que as classes médias tenham esclarecimento o que leva à esse ambiente caótico. Toda essa flutuação causada pela economia especulativa, e todo dinheiro que o país não retorna para a população sai dos bolsos do país diretamente para o capital financeiro e tecnológico, que mantém seus devedores sob punhos de aço a favor de seus interesses no lucro e na dominação. Essa máscara ideológica que culpabiliza as populações mais vulneráveis por sua condição de pobreza e pela desgraça de todo país, ao mesmo tempo em que compactua com a individualização almejada por esse sistema, esconde a cerne principal dos problemas sociais que enfrentamos e legitima o extermínio das populações que mais sofrem a exclusão, a segregação e a violência, tanto simbólica quanto material, cotidianamente.

A vida almejada pelos indivíduos bem instruídos e direcionados pela modernidade líquida é aquela onde se pode mostrar ao mundo, tanto através das mídias sociais, quanto através da sua própria postura cotidiana, o quanto o indivíduo tem poder de consumo – falsamente entendido como poder de escolha – o quanto o indivíduo consome relacionamentos perfeitos, amores perfeitos, vidas perfeitas, coisas perfeitas, casas bonitas, viagens impactantes, carros do ano, roupas caras.

Não estar incluso nesse esquema de reconhecimento demanda ao ser humano um terrível sentimento de deslocamento e desencaixe. Num mundo onde as perspectivas e planos futuros não passam de abstrações flutuantes que podem ser engolidas a qualquer momento pela maré cheia da modernidade líquida, o único amparo para a existência se dá nessa forma de reconhecimento obtida através da auto afirmação incessante dos indivíduos sobre o quanto suas vidas são espetaculares, intensas, o quanto ele é capaz de viver o presente, ser desapegado, usar coisas novas, conhecer lugares novos. Não obter esse reconhecimento afeta diretamente a auto estima dos indivíduos – principalmente dos jovens que se encontram cada vez menos amparados por certezas acerca do futuro e cada vez mais rodeados por um mundo onde o que mais importa sobre a vida é o que ela parece ser, e não o que ela realmente é.

A consequência dessa baixa auto estima se reflete, por exemplo, no aumento de casos de depressão, abuso de drogas e suicídio entre os mais jovens, que também adentram, então, esse montante de vidas desperdiçadas, vidas que não conseguem e não podem consumir. Mentes sobrecarregadas de informação por todos os lados, sem conseguir enxergar um direcionamento claro para as perspectivas de futuro.

O exemplo de como é retratada a cracolândia em São Paulo demonstra muito claramente o que essas vidas representam para esse sistema: a sujeira, o caos, o lixo que deve ser limpado. O extermínio dessas pessoas não é sequer comentado, e retira-las dessa situação de vulnerabilidade exige muito mais do que os preceitos que essa cruel mentalidade individualista crescente consegue oferecer.

cracolandia_NELSON ANTOINE_FOTOARENA_AE_TL.jpg

Toda essa mentalidade está muito alicerçada culturalmente, tanto na população brasileira, que nunca foi capaz de constituir um Estado que atendesse as demandas populacionais, quanto àqueles países onde alguns anseios democráticos, de justiça e bem-estar social da modernidade foram alcançados, mas que hoje já pendem ao desmoronamento, como fica claro na análise de Bauman ambientada no contexto europeu.

Encaixar-se ao estilo de vida demandado pela modernidade líquida exige que os seres humanos vendem os olhos em relação às condições precárias de existência de outros seres humanos, e atribua a eles próprios a razão de viverem à margem. Para estar apto a não morrer afogado nas flutuações das correntes dessa vida líquida, instável, volátil e imediatista, exige-se que os indivíduos se reconheçam cada vez menos como cidadãos e cada vez mais como indivíduos, que saibam que o valor das coisas está na rapidez com o qual elas podem ser consumidas, para que outra coisa possa ser devorada logo em seguida, de forma drástica e compulsória.

Não poder ter essa maleabilidade, esse gosto pelo risco, pela instabilidade, pela aventura, deixar-se apegar ou comover, não aderir às novas modas e tendências, segrega o indivíduo para o limbo das vidas que não fazem sentido para esse mundo e que podem ser exterminadas sem nenhum tipo de consideração.

A parte mais desoladora dessa condição, como explicita Bauman, é o fato de que a possibilidade saídas ou alternativas desse capitalismo parasitário e individualista, de formulação de plano coletivo, ou ação política capaz de inverter essa lógica efetivamente é quase nula.

Na modernidade líquida, ou se nada pelas veias do poder global, do capitalismo e do consumo ou torna-se uma vida desperdiçada, morta à beira da praia como o menino sírio.

size_810_16_9_menino-sirio.jpg


Natália J. Vilas Boas

Natália Vilas Boas, um amontoado orgânico se aventurando pelos fluxos dessa tal experiência de estar vivo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Natália J. Vilas Boas
Site Meter