Luccas Eduardo Maldonado

Um desejo, ou melhor, um ranço que almejo em minhas linhas: o peso. Gostaria de ser detentor de uma pena de fardo.

Sobre a própria escrita e os dias

Uma quimera de vários pensamento


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Nesses últimos dias ando pensando muito a respeito de um problema que está insistentemente me perseguindo. Oh! Odiada dificuldade de redigir. Sim, estou nos meus raros/constantes bloqueios de redação...

Uma espécie de fantasma... Sou uma pessoa extremamente cética, tenho certeza absoluta que lençóis de ectoplasma não existem. Ao caro leitor que me vier afirmar: “ausência de indícios não é prova de inexistência”. Faço o convite a desenvolver um raciocínio nos parágrafos seguintes!

Inicialmente, sou “quase formado em teologia” – qualquer dia conto esta anedota de maneira mais adequada, mas, resumidamente, cursei as matérias e não peguei o bacharel – e graduando em história. Logo, assim sendo, venho desenvolvendo nos últimos tempos a compreensão da ciência lógica – disciplina a qual não se resume a preposições matemáticas, a problematização e construção discursiva coerentes dos discursos também estão nos seu nicho.

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Dai, então, o que tem haver lógica, neste caso retórica, com fantasmas. Eu digo que tudo, pois o entrelaçamento é intenso, estamos falando de coerência de fala. Quando uma pessoa afirma a existência de assombrações sem nenhuma prova concreta/verificável no real, ou seja, como simples afirmação própria da razão respectiva, ela acaba por cometer uma falácia chamada falsa tautologia/tautologia arbitrária.

Que resumidamente pode ser caracterizada como inversão de ordem de postulado, a tautologia é uma frase/fórmula que se mostra coerente por si ao se fundamentar no concreto-real para tirar conclusões verificáveis no próprio discurso a respeito da existência. A clássica frase de Platão/Sócrates representa bem: “todos os homens são mortais”. Diga-me, há algum homem que não está submetido à morte? Portanto, uma tautologia, conhecimento que se torna observável/fundado no próprio discurso.

Agora analisando a falsa tautologia a situação é um pouco diferente. O raciocínio falacioso pressupõe afirmações arbitrárias. Os valores pessoais – construídos a partir do respectivo background – em geral são tomados como universais (inatos em todas as existências, a questão é quem os negam são os pecadores) e a lógica da fundamentação no real como pressuposto não é nem considerada (uma inversão ou total ignorância para a tautologia), logo, assim, o impossível torna-se possível.

Por que é tão difícil falar com religiosos? A situação é simples, todo o raciocínio – não importa qual – está submetido a uma pseudo-ordem determinada, portanto, expressão de um discurso de verdade absoluta.

Contudo, chega de divagações. Retornarei agora ao me tormento. Estava falando da escrita, ou melhor, a minha incapacidade de tecer linhas.

Questiono-me: Machado de Assis ou Érico Veríssimo sofriam de bloqueios? Sei que são exemplos dos maiores expoentes da literatura brasileira, mas, ainda assim, são dotados da fatalidade de ser humanos. Os gênios ainda são homens, ou até demais...

Sempre sonhei em ter uma pena pesada, uma escrita arrasadora que envolvesse de amaneira agressiva os detalhes mais sórdidos e perturbadores de uma sociedade falida como a nossa. Sim, meu grande desejo/devaneio é ser capaz de colocar em cheque a mediocridade humana. Pena que não alcancei tal habilidade.

Vivemos em um momento de extrema vigilância moral. É uma expressão policialesca dos atos e atitude. Não importa muito se as escolhas de vida são destinadas ao libido pessoal, ações extremamente individuais fruto de nossos desejo são taxadas como imorais, simplesmente para afago consciência deturpada do outro.

Juntamente com a ordem de caça da moral civilizatória vem o devaneio/sonho/alienação da vontade de se apresentar, talvez um sonho de acreditar que não está sozinho nesse mundo. Redes de manifestação, simulacros mal acabados de amigos, oh era de informática que oferece a possibilidade de tantos diálogos vazios, desinformação. A pura expressão da desinformação e desserviço.

É certo que nascemos quase ou totalmente – há um debate muito interessante que estou parcialmente por dentro – sem memórias e conhecimento. Contudo, o interessante é como a grande maioria se fixa nesse patamar. Nunca, jamais, de maneira nenhuma, tentará expandir suas fronteiras. Permanecer morto uma vida toda.

Por isso demasiadamente humano me coloco nesse problema de escrita e aceitação. De um lado o espectro da inexpressão – não alço meus objetivos – e de outro de inacato, o não admitir e se agradar com a manutenção de valores tão torpes.

Se escrever é um ato pessoal. Uma pessoa deposita sobre as palavras e as articula a partir de sua própria vivência, suas relações com o outro e com o tempo gasto em leitura fornecem as reflexões que serão a base para a elaboração de suas linhas.

Por isso me coloco em dúvida, o que estou vivendo? Um grande devaneio de ideias que me mostra a dificuldade de articulação do próprio pensamento junto com a frustração (social e cultural). Felicidade que a memória é seletiva, não são todos os momentos que lembramos. Contudo, ainda há a preocupação e o fantasma – retorno esse tema -, mas não como figura representativo, a qual é inexistente, mas como espectro que nos atormente em determinados tempos.


Luccas Eduardo Maldonado

Um desejo, ou melhor, um ranço que almejo em minhas linhas: o peso. Gostaria de ser detentor de uma pena de fardo. .
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