memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

as virtudes da desadequação

Com apenas dois álbuns publicados, 'Sigh no More' e 'Babel', os Mumford & Sons tornaram-se uma das bandas indie mais importantes dos últimos anos. A sua música, ao reclamar a simplicidade de forma poética e intensa parece uma reacção acérrima às tendências de uma geração que valoriza o artifício.


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1.

Uma das séries de televisão mais icónicas de sempre, que continuou a ser mostrada muito depois do seu final em 1971, será 'Green Acres'. A série retrata um advogado incarnado por Eddie Albert, e a sua cosmopolita e frívola mulher, brilhantemente interpretada por Eva Gabor, que deixam a sua vida confortável em New York para se retirarem para uma quinta numa comunidade rural. Ao longo dos 170 episódios da série, entre os quais se contam algumas sátiras muitíssimo conseguidas, há sempre denominadores comuns: por um lado os esforços do advogado por se adaptar à desejada vida no campo e, por outro, a eterna desadequação da sua mulher à ruralidade, que se expressa com humor. E esta desadequação é o ponto de maior interesse da série. Temos a certeza de que Eva Gabor, na sua figura elegante e glamourosa, não teria aquela piada nem aquele charme se a víssemos na sociedade rica nova-iorquina, onde estaria como peixe na água.

Não faltam, em arte, exemplos de como a desadequação é uma forma de fugir ao previsível, uma forma de marcar uma posição pessoal que se demarca do colectivo. Nesse sentido, o desencaixe representa um triunfo do indivíduo em relação ao grupo, é uma prova da convicção do eu que recusa a submissão.

A partir do momento em que a desadequação se afirma como forma de insurreição, prevê automaticamente um preço, que muitos pagaram ou no seu trabalho ou na sua vida. Eckhart Von Hoccheim foi condenado em Bula Papal pelas suas ideias que hoje admiramos amplamente. Baruch Spinoza foi rejeitado pelos judeus da Amesterdão do século XVII, e morreu sem ver publicada a sua obra-prima, a 'Ética', hoje tratado incontornável para qualquer conhecedor de filosofia. Sade viu-se encarcerado na prisão e, depois, num asilo psiquiátrico, pela excentricidade da sua obra. As últimas Elegias de Friedrich Holderlin foram consideradas sintomáticas de loucura, ainda que hoje reconheçamos que são de grande modernidade. Van Gogh morreu na miséria e o seu trabalho, que hoje olhamos com admiração, não conheceu sucesso. Fernando Pessoa morreu convencido, com razão, que o reconhecimento do seu trabalho seria póstumo.

A actualidade é mais complacente para aqueles que se demarcam, e o preço paga-se mais a nível de mercado do que na vida mesma. Mas sabemos hoje, também, que a História se escreveu principalmente daqueles que foram insurrectos. E só muito superficialmente poderemos dizer que as suas ideias só têm importância ao nível da cultura ou do pensamento: porque a cultura e o pensamento acabam por definir as épocas com bastante clareza, e se quisermos acreditar na distinção entre cultura popular e cultura de elite, veremos que há valores comuns a ambas e que o que difere mais é a expressão desses valores.

2.

Quando se começaram a ouvir as primeiras canções dos Mumford & Sons não era muito provável que algo os viesse a destacar da cena musical.

É verdade que, em 2008, quando a banda lançou os seus dois primeiros EPs, 'Mumford & Sons' e 'Love Your Ground', não se fez ouvir particularmente. Os dois EPs pareciam, acima de tudo, abrir caminho para o surgir de 'Sigh No More', em Outubro de 2009, altura em que canções como Little Lion Man, The Cave ou Winter Winds chamaram a atenção. O que significa que quando os Mumford & Sons começam verdadeiramente a conquistar reconhecimento, estávamos já depois dos primeiros sucessos de Lady Gaga.

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3.

Lady Gaga será sempre uma das mais importantes artistas do princípio do século XXI. Em termos de cultura musical, ela marca o fim do valor argumentativo da música (tão bem compreendido por músicos tão díspares como Marilyn Manson, Madonna, Nine Inch Nails, Janis Joplin ou Rufus Wainwright), ao mesmo tempo que marca a forma mais calculista e oportunista de produzir música para grandes públicos.

Uma vez que a música de Gaga, e talvez toda a música pop a ser produzida neste momento, é produzida tendo sempre em vista um público-alvo, é impossível dissociar a música e o músico do público, fundidos a um nível quase molecular, apesar das consideráveis diferenças.

É inegável que Gaga é muitíssimo mais inteligente que o seu público. Quem é este público? Trata-se de um largo conjunto de (principalmente) jovens que cresce perante a televisão ou perante o ecrã do computador mas que, paradoxalmente, foi incapaz de assimilar qualquer noção de cultura pop ou qualquer outra; e, nas palavras de Camille Paglia (2010) Generation Gaga doesn’t identify with powerful vocal styles because their own voices have atrophied: they communicate mutely via a constant stream of atomised, telegraphic text messages. Gaga’s flat affect doesn’t bother them because they’re not attuned to facial expressions. Gaga's fans are marooned in a global technocracy of fancy gadgets but emotional poverty.

A tecnologia sabotou, começamos agora a percebê-lo, o modo de estar da sociedade. A geração das revoluções dos anos 70, do Woodstock, do Flower-Power não asseguraram a subsistência dos valores que defendiam: o yuppie surge da rápida conversão às promessas do capital dessas comunidades histéricas que não procuravam mudar a sociedade, apenas fazer uma birra perante os pais. Se há geração verdadeiramente digna de desprezo, é a dos hippies do Woodstock, precisamente aquela que não incutiu nos seus descendentes senão o oposto daquilo que haviam defendido para si.

Daí a frieza cultural e ideológica do público de Gaga. Quando ouvem aquela figura teatral, artificial, estilizada e aberrativa, sentem-se a exercer uma espécie de liberdade de expressão. Que ela tenha dado voz a tanta gente só mostra como as revoluções dos anos 70 trouxeram tudo menos liberdade e pluralidade. É precisa uma pop-star forçada e idiótica mas astuta para que alguém possa assumir-se diferente e enfrentar as consequências de ser diferente. Ou seja, não só esse público é inculto e ignorante, como, o que é mais grave, profundamente inseguro.

O que distingue Gaga do seu público não é senão esse sentido de oportunidade: ela percebeu a crise de consciências que marca a actualidade e soube aproveitar-se dele para granjear sucesso. Essa é a sua importância para a música.

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3.

O primeiro videoclip dos Mumford & Sons, Little Lion Man, mostra a banda numa sala vazia, tocando um cima dum pequeno palco, iluminados por lâmpadas simples que criam uma luz difusa. A encenação é mínima, neste videoclip, as coisas são o que são - e isso tem um valor considerável, se sabemos que um vídeo é sempre um espaço onde se cria uma imagem para a música e para o músico.

Mas em praticamente todos os videoclips dos Mumford & Sons a imagem criada é a mesma: trata-se de uma banda a tocar ou a cantar uma canção, e mesmo quando parece que um pendor narrativo se insinua, ele acaba por ser desperdiçado (como acontece em Winter Winds) ou por revelar-se tão simples que não chega a ter uma presença decisiva (caso de The Cave). O que fica de qualquer dos videoclips desta banda não é mais do que quatro rapazes a cantar, por norma com um filtro de luz bastante acentuado, com um tipo de roupa bastante específico mas que, reduzido ao essencial, nos deixa pouco mais que a música.

Para a banda de Marcus Mumford, Ben Lovett, Winston Marshall e Ted Dwane, tudo parte e regressa à música. Esta atitude não seria de estranhar numa banda de rock, como são aliás os Mumford & Sons.

Tecer uma comparação entre uma banda rock e referentes pop pode parecer inusitado. No entanto, facetas diferentes da cultura comunicam-se frequentemente, razão pela qual essa compração pode ter algum sentido. Mais ainda, a questão do género musical não pode ser limitativa quando observamos a sua recepção por parte do público. Perante o mercado, os géneros musicais não são importantes, porque vendas são vendas e dinheiro é dinheiro. O que, para aqui, não é directamente significativo. O que é significativo é o facto da música representar uma forma de pensar, uma forma de estar no mundo, com a qual o público se identificará.

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4.

No caso de Lady Gaga, cada videoclip e cada espectáculo são formas de reinventar uma imagem sempre artificiosa e excessivamente plástica. A música parece ser um pretexto para as figuras personificadas pela cantora, e não um fim em si. Esta atitude favorece uma fabricação duma persona, que conhece em Lady Gaga um nível quase doentio: uma repulsão extrema do eu, que força a busca por uma persona sempre diferente, e sempre insatisfatória, porque seguida de outra e ainda outra e outra.

Gaga é acima de tudo uma serviçal do falso e do forçado, o que em si não é importante. Importante é constatar que o público parece responder perante esta atitude em massa, o que nos faz perguntar até que ponto não é a Geração Gaga uma geração de pessoas que excedem a baixa auto-estima e se enquadram mais num cenário de ódio por si mesmas. O facto de se vestirem imitando a sua artista preferida não é um sintoma de recuperação ou de aceitação do eu, mas sim um sintoma do agravamento do problema. Em vez de enfrentarem o espelho, assumem personas alternativas que as distancia de si mesmas e as mergulha num atordoamento festivo, num espectáculo neurótico de auto-negação e de auto-agressão.

Outros artistas (penso em Björk, em Nick Cave, em Madonna, em Tori Amos, em Rufus Wainwright) apostaram fortemente na imagem como aliada da música, teatralizaram, por assim dizer, a música, de forma a criar projectos mais amplos. Mas aquilo que nesses artistas actuou directamente sobre a música e enquanto forma de criar uma persona que fortalecesse o eu; no caso de Gaga é o oposto que acontece. A imagem sobrepõe-se à música, e nega redondamente o eu. Mesmo nas entrevistas, Gaga faz questão de ser contraditória, vaga, evasiva e automática.

Na última entrega de prémios da MTV, a actuação de Lady Gaga (com Applause, uma das suas canções mais aborrecidas) passou, na imprensa, para segundo plano, em grande parte por causa do escândalo da actuação de Miley Cyrus. Isto mostra-nos que a chama do sucesso já não brilha tão intensamente como brilhava há algum tempo. No entanto, é ainda indiscutível que um projecto como o de Gaga conhece ainda uma aceitação a nível virtualmente global e portanto não podemos ter dúvidas em relação a uma coisa: a maioria está com ela, ou seja, pensa como ela, ''sente'' como ela, deseja viver como ela.

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5.

O primeiro álbum dos Mumford & Sons abria com a música que lhe dava título, Sigh no More. Na letra, encontramos os seguintes versos: Love it will not betray you/ dismay or enslave you, it will set you free/ to be more like the man you were made to be. Ainda que a canção funcione como uma introdução ao álbum, estas frases parecem, de certa forma, lançar uma proposta. Se retomarmos a ideia da autora de ''Sexual Personae'', sobre a pobreza emocional da Geração Gaga (os Monsters, como se fazem chamar), aquela mensagem da banda de Marcus Mumford ganha uma importância outra. A ideia de be more like the man you were made to be move-se na direcção diametralmente oposta à seguida pelos Monsters de Gaga.

O sucesso dos Mumford & Sons, sendo muito maior do que seria de esperar, é infinitamente menor do que o de Gaga. Mas ele é significativo. E no contexto musical (e entendendo a música não só por si mesma mas pelo que ela tem também de representativo) os Mumford & Sons assumem-se perfeitamente desadequados ao ambiente em que existem.

A sua música é simples, semiacústica e concentrada, na era dos sintetizadores e das batidas bélicas; a voz de Marcus Mumford é grave e quase bíblica quando a moda são as ginásticas vocais exibicionistas e o sentimentalismo forçado; as letras são elaboradas, poéticas e profundas quando o costume são as letras vagas e cheias de lugares-comuns; a sinceridade com que se expressam está fora de época, como estão fora de época as roupas com que se vestem nos videoclips ou nos concertos.

No entanto, tanto 'Sigh no More' como o seu sucessor 'Babel' (2012) foram bem-sucedidos, arrecadaram prémios, com concertos lotados, etc.

Os temas das canções desta banda são os mais frequentes: o amor, as relações mal resolvidas, o ódio, a procura de um lugar no mundo. Mas as letras de Marcus Mumford, um tanto desesperadas e apocalípticas, são de uma poética pesada e densa que por vezes se torna sufocante. Não são raras as referências directas a uma religião abandonada (particularmente no primeiro álbum) e a outros conceitos à religião associados (pecado, culpa, vergonha) e, por outro lado, encontramos o oposto de tudo isto: um lado festivo e irónico que não se expressa com menos profundidade.

Em casos como Winter Winds, White Blank Page, I Gave You All ou Broken Crown, os ritmos ora lentos ora frenéticos são muitas vezes formas de contrariar os excessos contidos nas letras, e a instrumentação simples (guitarras, bateria, contrabaixo, piano, banjo, bandolim) parece remeter-nos para uma espécie de festa de aldeia, já um pouco antiquada.

E não será ao acaso. Há realmente alguma coisa de telúrico na música e na atmosfera dos Mumford & Sons. Eles criam uma espécie de provincianismo forçado, distanciado, que não imita, apenas recupera alguns aspectos desse provincianismo, ou até da ideia apenas desse provincianismo. O que se recupera é uma ideia de proximidade em relação ao público, que significa uma distância em relação à indústia, é uma espécie de ingenuidade que mantém a pureza da criação de música e é, em última análise, recuperar até o sentido de acontecimento da música em si: como se cada canção ou cada concerto fossem um acontecimento importante (como a festa de província que acontece uma vez por ano) e não apenas uma canção entre muitas, ou um concerto numa longa digressão.

6.

Mesmo nos seus momentos mais festivos, no entanto, a música dos Mumford & Sons tem qualquer coisa de angustiado e de inconformado (ouça-se Lover of the Light). Isso será porque é uma música que vive das saudades de alguma coisa que nunca se teve e que se procura incessantemente (ouça-se isto em Hopeless Wanderer) mas sabendo, de antemão, que não se encontrará na totalidade.

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Talvez aquilo que se procura seja precisamente um tempo em que a sinceridade e a naturalidade que todo o projecto dos Mumford & Sons reclama seja possível.

Mas talvez não o venha a ser muito mais do que é agora. Aliás, que haja, neste momento, tanta gente a ouvir Mumford & Sons já nos mostra algo bastante importante: que esta geração não se resume à Geração Gaga. Que numa era que não ensinou a sentir nem a amar senão o falso, há ainda quem sinta e quem procure a sinceridade, mesmo uma sinceridade desconcertante e até violenta, como consegue ser a dos Mumford & Sons.

Num artigo de Adam W. Kepler (2013) Ben Lovett anunciou que a banda começará um hiato sem fim à vista: There won’t be any Mumford & Sons activities for the foreseeable future. No entanto, o conjunto de dois álbuns e oito EPs que deixam gravados até agora são já suficientes para os tornar numa das bandas mais importantes da actualidade.

E de qualquer forma, no vídeo de The Cave, os Mumford & Sons entregavam os seus instrumentos a uma outra banda e, após uma viagem circular de mota, regressavam para retomarem os seus instrumentos. Resta-nos esperar que com este hiato aconteça o mesmo.

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*PAGLIA, Camille. ''Lady Gaga and the Death of Sex'' in The Sunday Times, 12 de Setembro de 2010

*KEPLER, Adam W. ''Mumford & Sons taking a break'' in The New York Times, 22 de Setembro de 2013


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