memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

A batota inocente de Florbela Espanca

A obra de Florbela Espanca é um retrato contraditório e intenso de uma vida amorosa controversa. As cartas que trocou com o segundo marido, António Guimarães, dão-nos mais pistas para compreender o perfil de uma das escritoras mais populares da literatura portuguesa.


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Acreditar em mulheres/ É coisa que ninguém faz;/ Tudo quanto amor constrói/ A inconstância desfaz.// Hoje amam, amanhã ‘squecem,/ Ora dores, ora alegrias;/ E o seu eternamente/ Dura sempre uns oito dias!...

FLORBELA ESPANCA

Não há nada melhor para gerar uma obra mítica do que um coração perturbado. Não se trata de invulgaridade, nem de seres humanos extraordinários. A perturbação é talvez uma manifestação extrema dos sentimentos comuns, por vezes silenciosos e inomináveis dentro de nós. Ao falar de si, o perturbado põe em evidência aquilo que nós também temos, mesmo que em grau menor, e é por isso que criamos com ele uma empatia tão poderosa e por vezes inconsciente.

Florbela Espanca será provavelmente um dos melhores exemplos desses corações pouco aptos à vida, mas que deixam por escrito um testemunho humano complexo e fascinante, sob uma aparência simples e até possidónia. Dificilmente em Portugal se encontra volume de poesia mais reeditado do que o dos ‘Sonetos’ de Florbela. O que não quer dizer que os contornos da sua árdua personalidade gozem de igual conhecimento público.

Na biografia que dela escreve Agustina Bessa-Luís –que é um denso estudo psicológico sobre Florbela, mais do que um relato ou uma reconstituição linear do seu percurso de vida –a biógrafa é talvez polémica quando comenta da seguinte forma uma carta ao irmão Apeles em que Florbela explica que nunca fora bem tratada senão pelo seu terceiro marido, Mário Lage: É infame essa Florbela. Uma pegazinha, uma cabotina, uma batoteira no jogo dos corações solitários (BESSA-LUÍS: 1979, 86). Polémica talvez, mas não exagerada. Esta caracterização, que Agustina aponta na explicação da neurose de Florbela, descreve muito eficazmente a postura doentia, destrutiva e sadomasoquista de Florbela no amor –o amor que foi tema da grande maioria dos seus escritos.

A vida amorosa de Florbela é sobejamente conhecida: um namoro de juventude, três casamentos, dois divórcios, uma paixão platónica nos últimos anos do terceiro casamento, últimos anos também da sua curta vida. Afirmar que Florbela foi incompreendida pelos homens com quem viveu pode não ser errado, mas é negligenciar precisamente a sua postura complicada e por vezes incomportável na relação com esses homens.

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A correspondência trocada com o segundo marido, António Guimarães, foi editada em 2008. A biografia escrita por Agustina mostra-nos como este casamento foi violento e conturbado. Florbela conhece António Guimarães em 1920, quando está ainda casada com Alberto Moutinho. Casam em 1921, depois de desfeito o primeiro casamento. No final de 1923, Guimarães inicia o processo de divórcio litigioso contra Florbela, que só se resolverá em 1925, o mesmo ano em que a escritora casa com o terceiro e último marido, o médico Mário Lage.

O casamento, rápido como se vê, deixa-nos, no entanto, um grande conjunto de cartas que permitem aceder talvez à persona amorosa de Florbela. Persona e não propriamente pessoa, porque ler estas cartas significa entrar num jogo traiçoeiro e até retorcido, em que a escritora manipula, inventa, interpreta, diz e contradiz –redefine-se a si mesma com mestria, evita quase sempre mentir, mas manobra com impressionante astúcia a verdade.

Assim, Florbela faz do próprio rosto uma máscara, copula ego com super-ego, não é nunca totalmente falsa, mas raro é totalmente verdadeira.

Esta correspondência é tão mais interessante que qualquer outra de Florbela, por causa das circunstâncias em que começa a sua paixão com Guimarães. Eles conhecem-se numa festa em Lisboa, Florbela, ainda que separada de Moutinho, continua legalmente casada com ele, o que é sabido e, talvez os dois factores mais importantes, está-se em 1920 e está-se em Portugal. Dada a impossibilidade dos dois se encontrarem publicamente, será quase apenas através das cartas que Florbela se dará a conhecer a Guimarães.

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A correspondência entre os dois começa a 4 de Março de 1920. Sete dias depois, Florbela já começa a despir-se, a mostrar-se plenamente: a carta de 11 de Março contem um desses raros momentos em que ela é totalmente verdadeira: Muito tagarelei eu hoje, não é verdade? Tu não entonteceste? Não te dói a cabeça? Não estás doente? Eu não consegui endoidecer-te? (ESPANCA: 2008, 109).

Evidentemente, tudo isto é dito de forma irónica, dir-se-ia à primeira vista, e terá pensado também António Guimarães, que não seria mais do que uma brincadeira auto-depreciativa. Mas a brincadeira é frequentemente a melhor maneira de dizer uma verdade temível.

Eu não consegui endoidecer-te? pergunta Florbela, com uma auto-ironia que mascara a angústia e o medo. Nesta frase tão simples, sorri a batoteira no jogo dos corações solitários.

Quem é então esta batoteira? Ela diz que é uma mulher, e uma criança, e uma artista que se julga alguém (ESPANCA: 2008, 114) o que não deixa de ser verdade. Mas nós, hoje, sabemos o que ela não podia senão intuir, na altura. Sabemos que ela cumpre escrupulosamente o mesmo padrão: conhece um homem, efabula-o e eleva-o a um estatuto soberbo, ama perdidamente e, quando a realidade se lhe apresenta sob a forma de um quotidiano, desilude-se, torna-se fria e indiferente, irascível e, nessa transição, parece precisamente endoidecer o homem que em tempos foi tudo para ela.

Anos mais tarde, ela saberá reconhecer tudo isto:

O amor dum homem? _Terra tão pisada Gota de chuva ao vento balançada... Um homem? _Quando eu sonho o amor de um Deus!... (ESPANCA: 1985, 191)

este terceto final do soneto Ambiciosa é um dos poucos em que Florbela, que tanto gostava de metáforas e fantasias, finalmente chama as coisas pelos seus nomes. Ela é bastante directa, não há aqui uma metáfora.

À data do início da relação com Guimarães, como se disse, Florbela não poderia saber o que nós sabemos, mas é igualmente certo que alguma consciência ela teria da sua estranha visão do amor. Numa carta datada de 13 de Março de 1920, ela explica a Guimarães: Preciso de toda a vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. Preciso que ele viva mais da minha vida do que da dele. Preciso que ele me compreenda, que me adivinhe (ESPANCA: 2008, 115). Esta tendência omnívora, a imposição absoluta que ela comporta, serão precisamente as contingências que votarão ao fiasco todas as relações de Florbela. Não admira que ela pergunte Eu ainda não consegui endoidecer-te?

Florbela tem 25 anos quando escreve estas cartas e a sua visão do amor que parece não ter mudado até ao fim da sua vida, assemelha-se a uma reminiscência dos contos de fadas da infância, ou das novelas cor-de-rosa que, anos mais tarde, ela traduzirá do francês. Há uma inclinação narcísica nas palavras de Florbela –e dada essa inclinação, não é surpreendente que Florbela nunca tenha amado. Ela vive com intensidade e celeuma o despertar da paixão, escreve poemas descarnados e sensuais, celebra casamentos que deseja durem para toda a vida, assina com o apelido dos maridos cartas e manuscritos de textos literários –mas a passagem para o amor, para a troca emocional verdadeira com o outro, está-lhe interdita.

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As suas cartas são como que relatos subliminares dessa exclusão. Há pouca correspondência que diga respeito à relação de Florbela com Alberto Moutinho. Com António Guimarães temos imensa correspondência directa e, da relação com Mário Lage encontramos interessantes apontamentos em cartas a Apeles Espanca. O processo é sempre o mesmo e isso mostra que Florbela nunca amou nenhum dos três.

Quem amou então essa mulher que escreveu páginas e páginas sobre o amor? A reposta encontramo-la no ‘Diário’ que escreve no seu último ano de vida. Escreve a 16 de Julho de 1930: Até hoje todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o Prince Charmant vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? (ESPANCA: 1981, 57)

É uma resposta tão simples que se torna revoltante. É provável que Florbela não quisesse aceitar a impossibilidade da entrega que pretendia. Reconhece o fingimento que havia nas suas cartas e refere o Prince Charmant, ainda que se pressinta que nem a própria acredita já na sua chegada. É a primeira vez que isto acontece, o que talvez explique por que, dali por cinco meses, Florbela se suicida.

Esse homem que viveria mais para ela do que para si mesmo –foi isso que ela amou. E celebrou apaixonadamente, na vida e na poesia, a chegada daqueles homens sobre quem poderia projectar a ilusão. Eu não consegui endoidecer-te? pergunta ela a António Guimarães, como se, ao responder-lhe que não, ele fosse aumentar a esperança de ser para ela o deus que Alberto Moutinho não fora, mesmo tendo vivido com ela, tendo-se mudado para conseguir uma vida estável para o casal e tendo-lhe até facilitado o processo de divórcio.

Agustina tem razão, é realmente infame esta Florbela, uma pegazinha, uma cabotina, uma batoteira no jogo dos corações solitários. O que ela não é exactamente, é culpada. No jogo retorcido que foi a vida amorosa de Florbela não houve culpados. Tanto ela como os três maridos que teve e que, quase sempre desajeitadamente, tentaram amá-la, foram vítimas da estrutura narcísica, insaciável e doentiamente dependente de Florbela. Os seus contos, distribuídos quase todos por dois livros (‘O Dominó Preto’ e ‘As Máscaras do Destino’), são manifestações da culpa. Ela elogia as mulheres boas, correctas, abnegadas, dedicadas aos seus homens com uma devoção quase religiosa –elogia a mulher que ela mesma não pôde ser. O seu amor próprio devia ser baixo, por isso ela se fascina tanto pelo orgulho, pela vaidade, pelo luxo e pela nobreza, por isso ela quer tanto alguém que abdique do seu eu para se devotar a ela.

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Dificilmente a relação com alguém –a comunhão da vida, o nós em vez do eu ou do tu –poderia satisfazer alguém que se desprezava tanto quanto Florbela. Amá-la é desafiá-la a não amar (BESSA-LUÍS: 1979, 114), uma vez mais como diz Agustina. E, no fundo, toda a história de Florbela é a história de alguém que, pensando procurar o amor, procurava apenas um lenitivo para a própria angústia.

O seu livro de contos ‘O Dominó Preto’ termina com um conto, dos poucos verdadeiramente interessantes de Florbela, chamado O Regresso do Filho. Nele, um homem espera o retorno do filho desaparecido na guerra

Quando o meu rapaz voltar (ESPANCA: 1982, 201)

diz o homem, apresar de todos acreditarem que o filho havia sido morto.

Acontece porém que, muito tempo passado, o filho regressa mesmo. O pai reconhece-o:

Mas foi só um momento... Desviou os olhos (...) e, indiferente, longínquo, tornou, na sua voz trémula, num risinho pueril e quebrado. _Pois, é verdade, compadre... Quando o meu rapaz voltar... (ESPANCA: 1982, 210)

É impossível ao certo saber se qualquer um daqueles homens amou Florbela. Mas não é improvável. O que é improvável é que, sendo amada, Florbela reagisse de forma diferente da do velho no seu conto, cuja vida se transforma na eterna espera por alguém. Quando esse alguém chega, chega infalivelmente tarde. Já não há outra forma de viver.

Lisboa, 24.2.13

*BESSA-LUÍS, Agustina. A Vida e a Obra de Florbela Espanca. 2a edição, Arcádia, Lisboa, 1979.

*ESPANCA, Florbela. Diário do Último Ano. Prefácio de Natália Correia. Livraria Bertrand, Venda Nova, 1981.

*ESPANCA, Florbela. O Dominó Preto. Prefácio de Yvette K. Centeno. Livraria Bertrand, Venda Nova, 1982.

*ESPANCA, Florbela. Poesia 1918-1930. Recolha, leitura e notas por Rui Guedes. Dom Quixote, Lisboa, 1985.

*ESPANCA, Florbela. Perdidamente: Correspondência Amorosa 1920-1925. Fixação do texto, organização, apresentação e notas de Maria Lúcia dal Farra. Quasi edições, Vila Nova de Famalicão, 2008.


version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //João Cunha Borges