memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

a morte do debate público

O acesso facilitado à internet prometia ser uma forma de tornar mais horizontal e democrático o espaço de debate público. Mas será possível que, pelo contrário, o nosso discurso tenha sofrido uma regressão que nos deixa incapazes de expressarmos com profundidade as nossas convicções?


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Um dos elementos mais importantes para uma compreensão global de uma situação cultural é a fala _e os problemas directamente associados a ela. (Falar: dizer alguma coisa, ser ouvido, obter resposta, ouvir; outra forma: comunicar). E é certo que no princípio do século XXI, a nossa fala mudou radicalmente.

As primeiras alterações foram introduzidas pela vulgarização do telemóvel e particularmente pelas mensagens escritas. O SMS (que em muito pouco tempo se tornou um serviço gratuito ou de custo muito reduzido) afectou profundamente a forma como comunicamos. Tornou-se fácil, barato e banal enviar uma pequena mensagem e alguém, muito mais fácil do que quando, para falar com alguém à distância, era necessário estar em casa a fazer um telefonema ou escrever e enviar uma carta.

Outro meio crucial para as mudanças na forma de comunicar foi o e-mail, quando a internet se tornou acessível. O e-mail serve tantas vezes para um discurso longo (substituindo a carta) como para um discurso reduzido e pragmático (substituindo o telegrama ou mesmo o próprio SMS).

SMS e e-mail foram, no entanto, formas de tornar mais prática a comunicação à distância. Não custam tanto dinheiro, armazenam-se facilmente e sem ocupação de espaço físico, abolem parcialmente o tempo de espera entre o momento em que algo é escrito e o momento em que é lido. Mas no que toca a alterações concretas no próprio conteúdo do nosso discurso, e-mail e SMS foram apenas o começo.

Aquilo que verdadeiramente constitui uma novidade recente na nossa comunicação foi o desaparecimento (ou quase desaparecimento) da distinção entre uma fala pública e uma fala privada. Já não faz sentido acreditar que todos temos uma fala privada e que alguns (o artista, o jornalista, o crítico, o político, etc) falam paralelamente para um público.

Quando a internet dá o passo em frente do e-mail para o MSN, os blogs, as publicações on-line, o Fotolog, o MySpace ou o Hi5, o que acontece é uma democratização da voz pública, que parecia consonante com os modelos políticos das décadas mais recentes e que se afirmava como uma forma de legitimar o direito à liberdade de expressão e de opinião. Qualquer pessoa, acedendo à internet e criando contas (gratuitas) em determinados sites poderia dirigir-se a um público. A mesa de jantar ou do café (os espaços de discussão ou de conversa) passaram a projectar-se num ecrã de computador e os convidados deixaram de ser amigos e passaram a ser ''amigos'' ou ''seguidores''.

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O conceito de ''rede social'' tornou-se vulgar muito rapidamente. Ao Fotolog sucedeu o Hi5, a este o Facebook e a este, parece, ameaça suceder-se o Instagram. Os utilizadores destas redes são cada vez mais como é sabido: no final de 2013, o Facebook conta com 1,23 biliões de utilizadores e o Instagram com 150 milhões, números que tendem a crescer.

Estava aberto o caminho para a era dos opinion-makers. A lógica das redes sociais passou a ser a lógica da comunicação social até mais séria. O comentador especializado começou o seu caminho para a extinção. Toda a gente tem legitimidade para falar de todos os assuntos, e em pé de igualdade. Paradoxalmente, o debate público desapareceu.

É verdade que todos falamos, todos temos um discurso público. Mas que discurso é este? Por norma, é um discurso curto, rápido e directo, mas também pouco aprofundado (quando não verdadeiramente superficial), de linguagem acessível por vezes até um excesso estupidificante. E é, finalmente, um discurso vago e pouco reflectido, porque o comentário deve surgir infalivelmente em cima do acontecimento.

A qualidade (ou falta dela) da nossa fala pública é o primeiro argumento para a morte do debate público informado, consequente e sério.

As pessoas atravessam polémicas e discussões, por exemplo no Facebook ou em blogs, através de statements que geram conversas nas caixas de comentários. O debate, em tempo real, chega a ser aceso nalguns casos. Mas, logo por definição, não deixa de ser um debate frágil, dadas as argumentações pouco cuidadas ou demasiado impulsivas e também dado que fica quase sempre confinado ao universo de ''amigos'' ou ''seguidores'' da pessoa que o originou. A última fragilidade deste tipo de debate é o seu carácter quase invariavelmente efémero _ele arrefece passado pouco tempo (horas ou dias) porque um outro assunto passa a estar na ordem do dia. Nenhum tema parece ser importante o suficiente para ser falado durante mais do que uma semana, o que, de certa forma, desdramatiza algumas questões de uma maneira absolutamente inconsciente e irresponsável. Na maioria dos casos ainda, as conversas terminam com toda a gente a pensar como pensava no princípio. A discussão tornou-se um valor em si, e não um meio para chegar a conclusões.

E o mais preocupante é que não faltam debates de que não haveria qualquer conclusão a retirar. A excessiva democratização da voz pública trouxe mais esse problema: já não há uma selecção daquilo que merece o nosso tempo e a nossa voz. Tudo é assunto, mesmo aquilo que, por assim dizer, não tem assunto nenhum.

O debate e a voz pública precisavam de alterações? Precisavam. O acesso do espaço de discussão apenas a indivíduos especializados partia do pressuposto errado de que o grau académico validava as opiniões de um indivíduo de forma inquestionável. Com isto se deu voz a muitos incompetentes com um canudo, tanto quanto pela falta dele se calaram indivíduos com um entendimento profundo de determinadas problemáticas.

Mas a situação descontrolou-se. Hoje, para comentar situações políticas, financeiras, culturais, etc, tudo o que é necessário é saber ler e escrever (mesmo que mal) e ter acesso à internet. Basta ter uma opinião, e nem é preciso que esta seja justificada. Sabemos que o que é excessivamente democratizado é automaticamente vulgarizado, de forma não raro perniciosa. Parece ser o caso da voz pública, que vai perdendo gradualmente a sua importância porque é de tal forma comum que já não significa nada. Não poderá isto contribuir para uma desorientação generalizada acerca dos problemas da nossa cultura?

Os assuntos são escolhidos sem rima nem razão e há uma irresponsabilidade (ou uma falta de sentido autocrítico) na maneira breve e desajeitada como muitas pessoas opinam. Isto acontece com o cidadão-comum e com a figura pública, com pessoas de formação superior e com pessoas de menos formação, com entendidos e com leigos.

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Não faltam exemplos (que chegam a ser notícia ou a merecer segunda volta nas polémicas de Facebook) de políticos, jornalistas ou figuras culturais que fizeram comentários infelizes nalguma rede social, ou então de comentários infelizes que fizeram e que geraram polémicas nas redes sociais. Isto porque se criou a ilusão de que as redes sociais são uma espécie de silly-season que dura o ano inteiro, e em que podemos dizer tudo aquilo que, num contexto mais sério, seria impensável.

Uma série de ''crucificados'' das redes sociais em Portugal (Isabel Jonet, Margarida Rebelo Pinto, a menina da mala Chanel) ou internacionalmente (Rebecca Black, Amanda Bynes, as Double Take), mostram um lado (mais) negro das redes sociais, independentemente das ''crucificações'' terem motivos legítimos ou não. O problema não se esgota na nossa completa falta de preparação para o uso da voz pública. As campanhas de ódio, de insultos e mesmo de desrespeito pessoal que recaem, de tempos a tempos, sobre determinadas figuras mais públicas ou menos, mostram que as pessoas estão seriamente desocupadas (senão fisicamente, pelo menos intelectualmente) e seriamente enraivecidas.

Temos que ser capazes de nos perguntar: estes temas são verdadeiramente importantes? E, mais ainda: antes das redes sociais (quando o debate público era uma questão séria) alguém perderia uma tarde a comentar violentamente as declarações sobre política de uma escritora light ou a canção ridícula que uma rapariga de 16 anos gravou para mostrar aos amigos?

Que isto aconteça prova que temos pouco em que ocupar os nossos pensamentos e que precisamos de alguém em quem vingar o nosso conflito (possivelmente inconsciente) com o mundo.

Seria desadequado advogar o fim das redes sociais. Não só elas são um meio de informação, como há quem as use de uma forma bastante diferente daquela que descrevi e que creio ser, ainda assim, uma descrição aproximada de uma boa parte das utilizações destas redes.

O meu ponto de vista é o de que precisamos de aprender a usar estas redes sociais, valorizando-as como formas de trocar ideias, de aceder a realidades diferentes daquela que é a nossa e de recusar o autoritarismo que apesar de tudo era característico da fala pública antes das redes sociais. Mas isso implica recusar a estupidificação do nosso discurso, nem que isso signifique que teremos pouco cheias ou mesmo vazias as nossas caixas de comentários. Isto só é possível a partir de uma revisão das razões que nos levam a assumir publicamente os nossos pareceres. O problema é que, actualmente, fala-se quando (e se) se tem público, e é isso que conduz ao empobrecimento da forma como nos expressamos.

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Numa entrevista de 1992, um jornalista perguntou a Susan Sontag qual seria o futuro da Esquerda americana. Visivelmente impaciente, Sontag diz que, para poder responder a essa pergunta, teria que passar três dias a pensar no assunto. O que a crítica de Arte e escritora deixa claro é que há questões sobre as quais é impossível falar sem uma reflexão extensa e sem um comentário possivelmente extenso também.

Actualmente, é raro que alguém passe três minutos (quanto mais três dias!) a pensar sobre o que diz publicamente. Perdeu-se a ideia de que deve haver uma certa seriedade naquilo que dizemos na esfera pública. Em vez de querermos ter conteúdo, queremos que nos ouçam (ou leiam) e que nos respodam.

A pergunta é: falamos mais, e mais visivelmente do que antes, mas há algum interesse naquilo que dizemos?


version 3/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //João Cunha Borges