memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

doença e matéria poética

Poeta da lucidez e da análise, Eduarda Chiote publicou em 2011 o seu mais recente livro de poemas, "Órgãos Epistolares". Longe das raízes concretistas e estruturalistas em que a sua escrita nasceu, a escritora opta pelos temas do sofrimento e da morte nos livros mais recentes. "Órgãos Epistolares" é um livro pesado e negro, atravessado no entanto por uma ironia luminosa que o transforma num texto equilibrado e intenso.


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De Eduarda Chiote não havíamos livro de poesia desde "O Meu Lugar à Mesa", de 2006. Em 2008, a autora publica "Não é Preciso Gritar", um livro de contos, o segundo, mas já muito distante, a um nível mais do que estético, do primeiro, "A Décima Terceira Ilha" de 1983.

A estreia de Eduarda Chiote deu-se na poesia, em 1975, com o livro "Esquemas", e foi prosseguindo serenamente quase sempre pela poesia, com "Estilhaços" (1979), "Refúgio em Vez de Câmara Mortuária" (1979), "Travelling" (1983), "Altas Voam Pombas" (1982),a prosa poética "Armando Alves e a Lâmpada de Aladino" (1984) e "A Preços de Ocasião" (1987). Depois deste livro, temos um hiato de sete anos, e parece-me indicado aqui mesmo fazer uma quebra na bibliografia de Eduarda Chiote. Se numa primeira fase, ou num primeiro conjunto, a poesia de Eduarda Chiote fazia uma ponte entre uma construção poética herdeira da poesia concreta e de uma certa tendência para a inovação formal (com um discurso íngreme e áspero que explorava as possibilidades da quebra e da justaposição na estrutura do poema) e uma emotividade contida, melancólica e analítica, com recurso directo à psicologia, à antropologia e à sociologia (incluindo referências directas a, entre outros, Freud, Lacan, Lévi-Strauss, Jung, etc),quando regressa com "Branca Morte" (1994), uma nova construção discursiva, mais linear, mas igualmente densa nas suas dimensões filosófica e analítica. Esta segunda fase prolonga-se então para "A Celebração do Pó" (2002), "Não Me Morras" (2003) e "O Meu Lugar à Mesa" (2006).

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O que separa estes dois conjuntos é, a meu ver, uma postura, que inicialmente se apresenta mais fragmentária e fugaz, e depois de torna mais reflexiva, mais intensa e, de certa forma, mais emotiva. Mas algo une todos os livros: uma lucidez, que começa por se filiar numa certa tendência estruturalista e depois se assume como subjectiva e pessoal, um olhar cru e nunca resignado, capaz de questionar todas as coisas continuamente.

"Órgãos Epistolares", anunciado como um livro de fim de obra poética -será o último-, em todas as medidas ele se concentra em concluir todas as ideias.

Uma vez mais, como tem acontecido com todos os livros da autora, este livro tem uma ideia, uma espécie de narrativa que o orienta. Não se trata de uma narrativa como a de um romance ou de um conto: é uma narrativa quase extrínseca que serve para orientar o discurso, para organizar de forma estruturada os fragmentos poéticos que a vão compor. Por assim dizer, o poema serve-se da narrativa, e não o contrário. Esta estrutura tem feito parte de todos os livros de Eduarda Chiote, e serve de exemplo a organização de "Esquemas", em que cada capítulo começava com um poema em prosa, sendo que os poemas em verso seriam desenvolvimentos sobre fragmentos desse poema em prosa inicial.

"Órgãos Epistolares" é a história de uma mulher cancerosa, em fase terminal, que sente o corpo, órgão por órgão, desfazer-se, servindo esta deterioração como metáfora para a morte da escrita poética.

Este é, portanto, o ponto de partida para uma análise do mundo. Essa análise passa, evidentemente, pela literatura, mas também, e será essa uma das características mais interessantes, pela ciência, pela filosofia, pela psicologia e pela política, parecendo-me esta última uma das mais nítidas ao longo de todos os poemas.

A ideia da morte enquanto metáfora aplicável a tudo o que compõe a vida estava já muito presente em livros passados, com particular pungência em "Branca Morte" e "O Meu Lugar à Mesa". E, se "Branca Morte" se centrava na questão da escolha, a escolha da morte (observando os títulos: Escolho Morte, Escolho Branca Morte, Escolho Morrer Criança, etc.), e "O Meu Lugar à Mesa" se centrava na morte das pessoas próximas, "Órgãos Epistolares" centra-se numa morte própria e sem escolha ou opção, que se estende ao que está à volta da mulher moribunda, uma morte prevista e lenta, que tem de mais penoso o apodrecimento interior.

O livro inaugura com a seguinte frase:

Vem, disse a minha Alma/ Escrevamos versos para o meu Corpo (porque somos um)

(pag.7)

Esta é sem dúvida uma boa explicação para a génese de "Órgãos Epistolares". Podemos observar esta frase comparando-a um pouco com o título. Se os "órgãos" funcionam quer como "cadeias de transmissão" quer como elementos biológicos, "epistolares" designa precisamente a questão de um diálogo. Essa é uma componente importante deste livro, a questão do diálogo. Quer o diálogo explicado na epígrafe, entre o Corpo e a Alma, sendo que um morre e a outra se vai agarrando debilmente ao que lhe resta de vida; quer o diálogo entre várias pessoas, cuja escrita não raras vezes parece remeter-nos, deliberadamente, para a escrita de cartas; sendo que em Um Poema Meramente Explicativo encontramos isto expressamente frisado:

Escrevemo-nos, eu e os meus órgãos

(pag.34)

Este é um livro desesperante. Incomoda, fere. Isso faz dele, desde logo, um excelente livro. A expressividade do discurso, maduro e pungente sem nunca ceder ao excesso situam este livro na melancolia, não no pranto. Pelo contrário, os poemas constroem-se com o pensamento, com a reflexão, e é através da inteligência extrema e extremamente crua com que se nos dirige que "Órgãos Epistolares" consegue atingir-nos com mais eficácia.

A primeira ideia é precisamente a de uma desistência forçada:

Vontade de ter perdido a vontade, /(...) / Quero agora esquecer que há poemas com muitas receitas, / contas por pagar, / unhas que se esgotam / nos dedos; páginas separadas dos livros -são as contingências

(pag.11)

penso que nestes versos, retirados do poema inaugural do livro, se nota a dualidade que existe perante a desistência: é necessário desistir, ainda que esta mulher não queira desistir, pois não perdeu a vontade: tem vontade de a perder; quer esquecer, mas não esquece. É esta mesma dualidade, esta divisão, que encontraremos mais tarde, em O Silêncio e o Grito:

Uma parte de mim / grita / e a outra abusa do silêncio / e a parte que sabe das duas não distingue / uma / da outra.

(pag.17)

de facto, esta tonalidade marcará todos os poemas. Esta divisão, penso, poderá ir de encontro à minha ideia anterior, pois esta poesia está cheia dessa dualidade entre, em última análise, racionalidade e emotividade: uma abusa do silêncio, a outra grita; uma tem vontade de perder a vontade, a outra não consegue perder a vontade.

Parece-me que uma das preocupações deste livro é precisamente a de analisar as várias componentes do ser humano, os vários “eus” que o compõem, numa atitude quase cubista, mas sabendo, à partida, que a soma de todos os pontos de vista não dá o todo. Assim sendo, não é de estranhar que encontremos aqui expressões como à minha/ natureza biológica (p.18), a minha natureza/ consciente (p.28), A sua constante química (p.32), Ah! O social! (p.32), feroz/ amoralismo (p.35), entre várias outras.

O diálogo destes elementos é, efectivamente, um diálogo com a vida e a morte, com a passagem. Essa ideia, parece-me, estava já presente no fragmento que acima citei de Um Poema Meramente Explicativo.

Se muitos destes “diálogos” acontecem dentro da própria pessoa, que questiona os seus órgãos, a sua doença, o seu lugar no mundo, a sua inteligência, os seus sentimentos ou a sua ética ou a sua moral, evidentemente uma narrativa como a deste livro tem que envolver também um diálogo com o exterior: com o mundo e com outras pessoas. É “o social” que encontramos em Por Tragicidade e Perfeição Entendo a Mesma Coisa (pag.32). Dou alguns exemplos:

Você negou-se e fez-me entender / que a minha presença lhe faria mais mal / que bem, / e eu entendi que tem de ser segundo o seu código, / o seu programa –que tenho de agir em conformidade / entre o que necessita e não com a textual invenção / da sua necessidade. Pobre de si alucinado de dor pela mulher / cancerosa!

(pag.20)

Vi-te rastejante e repulsiva, depois de uma cena / (de puro masoquismo), / implorares-me / por amor de Deus / não me deixes. / Se tu soubesses o quanto me foi constrangedora / a tua humilhação.

(pag.42)

A imposição de autenticidade que me exiges / à porta fechada leva-me a perder / toda a verdadeira alegria / que de tristeza te não / mente.

(pag.44)

“Órgãos Epistolares” está dividido em três capítulos. Dos fragmentos acima citados, o primeiro pertence à primeira parte, sem título; o segundo e o terceiro pertencem à segunda parte, “Lodos e Dolos”. Interessa referir aqui esta divisão porque, afinal, é no segundo capítulo que se nota uma maior “resposta” dessas outras pessoas que mantêm um diálogo com a mulher cancerosa. Penso que os dois fragmentos do segundo capítulo demonstram bem como a doença e a morte lenta vão secando lentamente as relações; ainda que a mulher cancerosa tenha consciência disso, como vemos no primeiro fragmento. Uma vez mais, regresso à ideia do diálogo (nem sempre mal-sucedido) entre razão e emoção, que apontei acima. Só a lucidez representa a força, a capacidade de sofrer dignamente. Como vemos, através de uma atitude de razão, a mulher cancerosa percebe a atitude que deve ter perante o homem que está alucinado da [sua] dor; e quando tem uma atitude mais sentimental –por amor de Deus/ não me deixes, a reacção do outro é a pior; causa-lhe constrangimento.

No entanto, é preciso não esquecer que Eduarda Chiote tem o gosto da questão, do “colocar em causa”. E, perante a atitude racional, encontramos-lhe, mais à frente, esta pergunta:

Porque utilizas uma floresta / de enganos / para glorificar a intransigência / perante o que supões serem hipocrisias, / corrupções, / explorações: quem te deu o canónico poder do erro e da / verdade?”

(pag.58)

é bastante claro aquilo que une a racionalidade à emotividade: o facto de ambas serem verdades. Assim sendo, preferir uma em detrimento da outra é utilizar “uma floresta de enganos”. E é perante isto que encontramos, continuando o mesmo poema, uma justificação política para tal comportamento:

-É grave a natureza das acusações / que fazes a uma cultura burguesa / com a qual pareces não compactuar, tenho de reconhecê-lo; / pois dela excluis os órgãos e os seus reflexos / precisos (e físicos). / Recusas benefícios que te podiam / ser concedidos por mérito; e não os aceitas por / desprezo. Na verdade, não te deixas atrair / pela confusão comprometedora / das ideias que apregoas.

(pag.58)

há certamente um tom de acusação nestas palavras. Teria que haver. Como lemos no poema Sermos Nós e Sós, que me parece um dos melhores de todo o livro, a minha poesia torna[-se] cada vez mais/ crua (pag.42). E a única forma da poesia ser crua é precisamente despir-se de todos os artifícios e concentrar-se na procura de determinada verdade, o que implica, muitas vezes, nomear culpas e culpados. Isso acontece muito em “Órgãos Epistolares”. Muitas vezes, o culpado é a própria pessoa, mas também entendemos que, para todos os efeitos, não podemos condenar essa culpa, pois lemos, e com verdade, que o que na vida de uma pessoa, acontece de mais/ trágico [é] a sua estrutura. Assumindo esta estrutura (psíquica) como imutável, daí a sua tragédia, percebemos que perante muitas situações, não há nada a fazer, não há salvação. Aqui nascem uma série de proposições cuja consequência não é menos que um código ético, traçado a partir da distinção clara entre culpa e culpabilidade, mal e maldade. Não é propriamente Kantiano o discurso de Eduarda Chiote, mas, nele, a culpabilidade justifica-se somente quando havia opção para o mal. A maldade resultante da condenação estrutural pode resultar em culpa, mas não em culpabilidade. Numa situação de sofrimento prolongado e extremo como a que se expõe em "Órgãos Epistolares", não deixa de ser um apontamento belíssimo o sentido de justiça que pauta os poemas: é possível ter-se culpa e ser-se inocente.

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Há ainda uma outra questão, a da escrita, que está presente ao longo de todo o livro. No entanto, é no terceiro capítulo, “O Que de Morte é Sério e Não Admite Ironia”, que se torna mais relevante: como é explicado na badana, a morte do corpo, corroído pelo cancro é propositadamente metáfora para o término da escrita poética de Eduarda Chiote; no entanto, a questão é directamente abordada com mais frequência neste capítulo.

O primeiro poema, A Palavra, Tal como a Morte, é Química, pode muito bem ser uma Arte Poética. Reproduzo o início:

Preciso de um excelente material para escrever. / Ter ao lado um livro. Deixo correr o / olhar por uma frase. Ao acaso. Pode ser esta: “As indústrias / dos materiais de construção, de cerâmicas e de vidros / utilizam matérias-primas minerais: areia, argila e pedra.” / (…) / Tantas imagens! Será que saberei o significado / de uma só palavra? Argila, por exemplo? O que é argila? / Matéria-prima é igual a obra-prima? –Sou palavras, vejo palavras. / Copo. Secretária. Computador. Telefone. / A palavra é síntese. É química. / (…) / Produzo erros. Brinco com eles. / Ontologicamente. / (…) / Guardo então a palavra / para quando quiser insultar um escritor grunho; dir-lhe-ei és um alóbrogo / mas com afecto: muita ternura. / Vou ver o que significa argila / e ficarei a saber porque a minha natureza é tão frágil / que se conta através do quebrar de pele / de uma unha.

(pag.72-75)

ler um poema destes escrito no último livro de uma autora que já conta uma dezena de livros publicados é muito refrescante. Aparte isso, penso que, a partir deste poema, podemos entender um pouco o processo de escrita de Eduarda Chiote: a procura de um tema, de uma narrativa, como acima disse, a necessidade de pensar poeticamente todas as coisas, até as mais prosaicas, como os materiais de construção, e a relação umbilical com a palavra que, por ser sintética e química é ainda uma forma de comunicação por excelência, de resto muito semelhante ao pensamento: da mesma maneira que a palavra “fogo” não queima, pensar em “fogo” também não queima –e assim a palavra se funde no pensamento.

Estando, se pensarmos bem, a palavra, dentro e fora da realidade, ela também permite a transfiguração. Também desse processo se serve a poesia de Eduarda Chiote, como podemos atentar neste fragmento:

Um pescoço é um falo. / Hoje recebi um colar para / o meu. Rodear o pénis / por uma cintura de estrelas é um caso clínico. / Uma forma muito subtil de castrar o crânio / para evitar o confronto com os problemas que este / inventa; mas o problema / é que não há problema algum: mesmo decepado, / restam, na face, os olhos, a boca e o nariz –e na verdade há pessoas / que vêem pelo nariz e respiram pela / boca.

(pag.82)

este poema, que convoca discretamente Freud e Lacan, deixando-os a ambos sem solução possível, é um bom exemplo de como a palavra e o pensamento podem transformar o real de maneira a que a palavra seja o caminho para evidenciar um pensamento. Ou seja: não estamos perante um processo surrealizante de transformar umas coisas noutras, mas sim perante um processo altamente filosófico que se desenvolve (e só se pode desenvolver) na mais absoluta liberdade. Um poema como este, Nenhum Problema: Só Ironia, serve também de exemplo para comprovar, uma vez mais, o sentido apuradíssimo de ironia na poesia de Eduarda Chiote. Repare-se que o título do capítulo renega precisamente a ironia, e, no entanto, grande parte dos seus poemas, além do cariz sarcástico que já têm, levam inclusivamente a palavra “ironia” nos títulos.

E é portanto num misto de ironia e de tristeza, cambiantes muito bem equilibradas, que Eduarda Chiote se despede. Por isso, tanto lemos em A Grande Ironia dos Órgãos:

Nesta poética quarta idade, somos ainda a alma imaginária / de uma pedra especiosa, cujo único fim parece ser / o de não nos conformarmos com a –eternamente –infantil / leveza criativa.”

(pag.87)

como lemos, depois, em Na Mais Profunda Escuridão:

Estás a meu lado vendo-me desnecessariamente / sofrer, tu. Tu que possuis a cápsula de cianeto e me prometeste ajuda / negas-te, neste momento, a testemunhar / a minha agonia. / Ironia maior / na medida em que sabes que não há (para mim) qualquer recurso: que escrever perdeu todo o sentido. / Duro, muito duro.”

(pag. 89)

e, mais ainda, em Onde Todas as Identidades se Confundem:

Esclareço e de forma amável / que se podem fazer versos sem órgãos, sangue, / sexo: há (sempre houve) perfumes sem flores ( e santos sem altares. / No entanto. A partir do momento em que o desejo de vida / a não penetre, a poesia torna-se, / para mim, um embuste / insuportável.

(pag.91)

reiteradamente estes poemas maravilhosamente inteligência com ironia, reconhecendo esta última impraticável sem a primeira. Mesmo nos mais tristes, como o segundo e o terceiro exemplos, nota-se uma espécie de riso cruel, que não é mais que um exercício cru de lucidez. Um dos propósitos deste livro era ser cru, e poemas destes não deixam dúvidas quanto a isso. E, uma vez mais, se nota a vontade extrema de manter a dignidade, porque, apesar do sofrimento causado pela morte da escrita, a mulher recusa-se a continuá-la sem ter um propósito, sem que “o desejo de vida a penetre”.

Quanto ao terceiro fragmento, parece-me interessante fazer o contraponto entre ele e o último poema deste livro, O Potenciar do Real:

Fica em silêncio. Escuta. Ouve o que te digo. / Não duro sempre. Não duro / sempre. Hoje, vi um morto. Constatei / caber ( dentro dele: o cancro (observei-o do caixão) / foi o seu melhor amigo: o único que sofreu / a mesma dor.

(pag.100)

este poema, acima reproduzido na íntegra, é de uma brutalidade impressionante. Se o compararmos com o fragmento da página 91 que acima citei, percebemos que esta poesia recusa ser um “perfume sem flores” ou um “santo sem altar”. No entanto, o poema final vem desenganar-nos: o fim da poesia não é necessariamente o silêncio, se esta mulher nos diz “Fica em silêncio. Escuta. Ouve o que te digo”. Poderíamos lançar-nos numa longa lista sobre o que vem depois do fim da escrita poética. Eu penso que a mais evidente sequela é sempre o perpetuar daquilo que se leu, os sentimentos que a poesia foi capaz de acordar em nós, os murros que nos deu e as feridas que nos deixou. Esmurrar e ferir é ainda a melhor maneira da poesia se tornar parte de nós. Esquecendo a comparação com o outro poema, a ideia final deste vem, na verdade, alvoroçar tudo o que foi dito durante todo o livro. Fomos avisados, é certo, que aqui, os poemas tal como os órgãos/ em cada estrofe,/ desorganizam-se a si próprios/ acusando uma decomposição (biológica) (p.86).

Mas aqui, tudo vai mais longe. Somos levados a pensar, talvez por facilitismo, que a poesia seria um segundo corpo, uma espécie de escudo possível entre a mulher que morre e o cancro que a mata. No entanto, como vemos neste poema, a poesia não era o escudo, nem era um segundo corpo: a escrita era o próprio cancro, pois só a poesia sofreu/ a mesma dor.

Poderá parecer que este livro de Eduarda Chiote não deixa esperança. Tenho-o dado a entender, e disse acima, claramente, que este livro incomoda. No entanto, nem toda a esperança fica perdida.

A fechar o livro, Eduarda Chiote cita Sylvia Plath: nus parecem dizer:/ viemos até tão longe, chegámos ao fim.

E, de facto, essa é a maior esperança deixada por este livro, e também a sua lição: a de que é necessário percorrer um caminho, para, chegando ao fim, podermos dizer que chegámos até tão longe.

Fevereiro de 2011/ Revisto em Junho de 2014 Fotografia da autora por Graça Martins


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