memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

arena

Pequena reflexão sobre um poema curto, retirado de "Opus 1", o primeiro livro da poeta portuguesa Yvette K. Centeno.


img002.jpg

O café*

Sentadas nas mesas do café

as pessoas olhavam sem ver bem

e nos olhos de cada uma iam passando a sério

os ódios pequeninos quotidianos

como um enterro de terceira classe lento

e grave

seguido por dois cães de luto

e um chapéu funerário sem cabeça.

Este poema de Yvette K. Centeno coloca um espaço público _o do café, espaço privilegiado da vida pública portuguesa _e transforma-o numa espécie de arena . O confronto em questão é a tensão dos seres humanos uns com os outros. Os "ódios pequeninos quotidianos" que "nos olhos de cada um[a] iam passando a sério" são exactamente esse confronto.

Nada no curto poema, escrito quase como uma espécie de apontamento imaginoso, nos dá a entender que haja uma relação entre as pessoas em causa. Bem pelo contrário, "as pessoas olhavam sem ver bem", o que pressupõe precisamente que o conflito não é pessoal, mas projectado. Freud previa já o conflito dos seres humanos uns com os outros como uma das causas essenciais da infelicidade, do conflito íntimo. No poema de Yvette K. Centeno, a arena do café é o lugar onde esta infelicidade é projectada entre pessoas anónimas. Trata-se de uma espécie de desvio. Cada um "sem ver bem" projecta sobre os outros "os ódios pequeninos quotidianos", em vez de os descobrir naqueles que verdadeiramente originam esses ódios, ou dentro de si mesmos.

Este desvio justificará depois os últimos quatro versos, em que a imaginação poética da escritora transforma o confronto num "enterro de terceira classe". Há uma dupla ironia a funcionar nesta transformação. Por um lado, tornar os "ódios pequeninos quotidianos" num funeral parece levar às últimas consequências um ódio que se desproporciona. E isso é confirmado quando esse funeral é descrito como sendo "de terceira categoria". A dimensão não necessariamente ridícula, mas certamente desadequada confirma-se pelo epílogo de "dois cães de luto/ e um chapéu funerário sem cabeça". A imagem dos dois cães de luto num contexto fúnebre remete-nos para Anúbis, uma das principais divindades egípcias, representado por um chacal negro ou por um homem com cabeça de chacal negro. A função de Anúbis era o embalsamamento dos cadáveres, o seu lugar era na passagem para a vida no Além, momento central na cultura egípcia. Esse lugar de transição, representado pelos dois cães negros no poema de Yvette K. Centeno, é no entanto contrariado pelo "chapéu funerário sem cabeça". Um chapéu sem cabeça é uma imaginação da ironia. Aquilo que esta imagem parece sugerir, muito para além de uma boutade surrealista (e há algum resíduo surrealista no primeiro livro de Y.K. Centeno) é a ideia de que este é um funeral sem morto.

Regressamos assim à projecção dos "ódios pequeninos quotidianos". O café como arena não é um espaço público arbitrariamente escolhido. Tal como a câmara de Anúbis, também o café é um lugar de passagem, uma transição. O confronto humano, o obstáculo à felicidade, é projectado em alguém que em breve sairá e não voltará a ser visto _e que poderá ser substituído por alguém que se senta entretanto. É de facto um funeral sem morto, porque se trata de um ódio sem objecto real.

yvette.jpg

O registo rápido do poema (como disse, parece um apontamento imaginoso, transfigurador) é uma forma de assumir que "No café" se vive um pequeno drama quotidiano sem resolução. O desconforto das pessoas umas com as outras, o ruminar dos pequenos ódios, a eterna demora da felicidade. Não há, parece, resolução para isto. A ironia e a imaginação poética são maneiras de tornar o drama menos dramático, mas não de o aniquilar.

________________________

*CENTENO, Yvette K. Opus 1. Ed.Ática, Lisboa, 1961. p.17


version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //João Cunha Borges