memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

A necessidade do real

Num momento em que mockummentary parece ser a única forma de realizar um filme de horror, e em que a maioria das propostas não são mais que desapontantes, Carlo Ledesma conseguiu realizar "The Tunnel", um filme de horror intenso e brutal, em que o mínimo de recursos é suficiente para levantar algumas questões não só sobre o cinema de horror, mas também sobre aquilo que esperamos dele, enquanto colectivo.


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O projecto de 'The Tunnel' começa por surpreender pela forma como foi produzido. O orçamento para a produção do filme foi reunido dólar a dólar, numa campanha de crowdfundind no 135k Project que se foi redefinindo, até juntar os 135 mil dólares necessários para financiar o projecto. Em Portugal, António da Silva usou um sistema semelhante para os seus filmes, o que nos mostra que, lentamente, artistas e realizadores vão encontrando formas de concretizar os seus projectos, sem terem que se submeter às exigências de produtores e a consequentes deformações das suas ideias para servir outro propósito (público, lucro, críticas, etc).

E ao ver 'The Tunnel', dir-se-ia que valeu o esforço. Com uma equipa reduzida, poucos meios e uma referência ou duas bastante evidentes, Carlo Ledesma conseguiu fazer um filme eficaz, intenso e simples, que deixaria bastante envergonhada a grande maioria dos filmes de horror que se têm produzido ultimamente com orçamentos generosos e equipas alargadas.

'The Tunnel' começa por fazer uma alusão algo evidente a 'The Blair Witch Project' (1999), logo por se tratar de um documentário ficcionado, e a influência tornar-se-à mais evidente ao longo do filme, uma vez que também ele é feito com imagens da reportagem. Tal como acontecia com Heather no filme de Daniel Myrick e Eduardo Sanchez, em 'The Tunnel', Natasha (Bel Deliá) decide fazer uma reportagem sobre um mistério que a leva a um lugar potencialmente perigoso. Neste caso, a história da protagonista é a do projecto abortado na cidade australiana de New South Wales de utilizar os túneis no subsolo da cidade para um sistema de reciclagem de água. A partir de um estranho vídeo que encontra no YouTube, Natasha começa a pesquisar sobre o projecto e sobre as razões pelas quais este teria sido esquecido. Não só conclui que uma série de sem-abrigos habitava os túneis, como descobre que uma série deles teria desaparecido ali, em circunstâncias misteriosas.

Apesar de não obter permissão para filmar os túneis, Natasha desloca-se com a sua equipa, Peter (Andy Rodoreda), Steve (Steve Davis) e Tangles (Luke Arnold), até aos túneis, onde começa o seu documentário. No início da reportagem, Natasha confirma a presença recente de pessoas no túnel e introduz a história do local. Não só as histórias contadas nesta fase contribuem para que o filme se torne credível, como o próprio espaço dos túneis em muito começa a criar a atmosfera arrepiante, claustrofóbica, labiríntica e tenebrosa que nunca anunciaria nada de bom. Nesse aspecto, Ledesma teve a sensibilidade que já Brad Anderson tivera no seu genial 'Session 9' (2001), que não passa apenas por utilizar cenários reais, mas também por trabalhar a luz, os planos e os detalhes para potenciar o genius loci desse lugar, para o qual sempre contribui um contexto histórico (não necessariamente real).

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O espaço, aliás, é central em 'The Tunnel'. Ainda antes de vislumbrarmos a criatura que matará dois dos elementos da equipa de Natasha (e na verdade, nunca a vemos verdadeiramente, apenas a vislumbramos), será o próprio espaço dos túneis a definir a nossa reacção ao filme. Tal como os personagens, também nós nos perdemos nos seus troços e somos afectados por pormenores repugnantes e pela sensação de um infinito tortuoso que faz crescer a tensão, da qual a criatura sobrenatural que ali se esconde não é, na verdade, mais que um clímax. A criatura, cuja estética nos remete ligeiramente para 'Grave Encounters' (2011), é uma figura eficaz, nem tanto pelo seu aspecto, mas pela forma como se mexe e como, efectivamente, parece não deixar espaço de fuga ao aproximar-se da câmara segurada por um dos personagens.

Seria interessante pensar até que ponto esta necessidade de realidade indica uma exaustão do género. Apesar de ser actualmente um dos grandes géneros monosprezados, o horror é na verdade um dos géneros fundadores. Mas o próprio medo parece ter sido levado ao extremo em que se torna insignificante. Esta seria uma forma de olhar a questão. Outra forma de a olhar, seria perguntarmo-nos até que ponto a resposta estrondosa do público a filmes em que não há uma distinção (a um nível conceptual) entre uma peça cinematográfica e um vídeo particularmente escabroso que se descobre na internet, não significa na verdade que o contexto à nossa volta se alterou de forma tão radical, que já não estamos dispostos (até certo ponto) a aceitar o artifício como forma de nos causar emoção. Porque não se trata de esperar um maior realismo, mas se esperar que haja a possibilidade de que o filme seja real. Sem aludir dessa forma extrema à realidade, somos incapazes de sentir medo. Uma alteração destas não deixa de nos dar pistas não só sobre as necessidades de inovação num género cinematográfico: diz-nos também alguma coisa sobre as nossas vidas, e sobre a forma como funcionamos enquanto colectivo. A nossa susceptibilidade diminui. Resta saber por que razões, e se isso é ou não uma vantagem.

Ainda que possamos encontrar paralelismos com outros filmes (neste texto, referi 'Session 9' e 'Grave Encounters'), o filme cuja presença parece ser tutelar é mesmo 'The Blair Witch Project'. No entanto, 'The Tunnel' é tudo aquilo que 'The Blair Witch Project' poderia e deveria ter sido e não foi. O grande problema do filme de Myrick e Sanchez foi, apesar do conceito inovador e surpreendente, a sua ineficácia enquanto peça cinematográfica e, principalmente, a sua frigidez enquanto filme de horror. Se sabemos que, em cinema, a câmara é apenas um ponto de vista, portanto, uma figura não-existente no filme, 'The Blair Witch Project' assumia a presença da câmara e, ao fazê-lo, removia a barreira entre o filme e o espectador. A remoção dessa barreira era a remoção da nossa protecção. Enquanto a câmara fosse elemento ausente, o que se passava na frente dela seria sempre ficção, e não podia afectar-nos. Mas quando a câmara existe, estamos no domínio da realidade e essa é a razão por que 'The Blair Witch Project' era uma verdadeira revolução conceptual no cinema de horror, que teve verdadeiro impacto posteriormente, mesmo que, enquanto filme, falhasse em assustar verdadeiramente, criando tensão, mas nunca uma emoção mais extrema, com momentos 'sinistros' mas sempre inofensivos, talvez com excepção do final.

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Mas em 'The Tunnel', Carlo Ledesma vence este problema. Ainda que mostre mais do que era mostrado em 'The Blair Witch Project' (aqui vemos efectivamente o ser assassino, ao passo que no outro filme nunca víamos a bruxa ou quem quer que fosse que perseguia a equipa na floresta), 'The Tunnel' funciona essencialmente pela capacidade de sugestão, aquilo que é visto cria emoções, mas o que é sugerido cria-as bem mais profundas.

Aliás, o mais provável é que o segredo de 'The Tunnel' esteja precisamente no seu inteligente equilíbrio. Mostra e sugere nas quantidades certas, deixa espaço suficiente para que possamos imaginar, não cede à tentação do gore nem à pretensão de delegar no espactador por inteiro a responsabilidade de dar ao filme o seu valor enquanto filme de horror (era se calhar aqui que 'The Blair Witch Project' exagerava).

Que 'The Tunnel' se tenha tornado um sucesso dentro do cinema de horror independente, não será surpreendente. A sua capacidade de criar emoções realmente fortes de medo e de ansiedade são por certo bem-vindas junto dos apreciadores do género que, sejamos sinceros, não tem contado com filmes particularmente bons desde há algum tempo. O anúncio de uma sequela, produzido pela mesma equipa, parece consequência natural deste sucesso, esperemos apenas que o próximo filme esteja à altura do primeiro.

Junho de 2013/ Revisto em Janeiro de 2015


version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //João Cunha Borges