memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

Quem tem medo de Joana Amaral Dias?

Uma candidata às Legislativas de 2015 despe-se, grávida, a poucas semanas das eleições, para a capa de uma revista. Fá-lo como mulher e como candidata. Os seus críticos são acusados de machismo e conservadorismo. Mas será verdadeiramente esse o caso? Ou o que está em causa é uma subversão do sistema, falhada à partida?


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As Legislativas de 2015, independentemente do seu resultado, ficarão para a história, pelo menos pela forma como representam uma nova forma de fazer campanha o que, à partida, também implica uma nova forma de estar na política. A intervenção das redes sociais, associada à circulação massiva de informação, tem causado escândalo atrás de escândalo – com a comunicação social a enfatizar consideravelmente os contornos tragicómicos da campanha socialista, minorando em contrapartida qualquer incidente que se registe à direita. Conquanto considere que a circulação de informação e opiniões na internet seja extremamente importante – nomeadamente porque reduz a importância da comunicação social que, hoje como ontem, é tudo menos objectiva – eu não creio que seja uma mudança necessariamente positiva à larga escala. Isto porque, no mínimo desde o princípio de Agosto, esta campanha tem sido discutida amplamente a todos os níveis, excepto ao do conteúdo político das forças partidárias que apresentam candidatura. O interminável drama dos cartazes do Partido Socialista, muito mais explorado do que a desonestidade nítida dos cartazes da coligação Portugal à Frente, e mesmo a inclusão de Pedro Passos Coelho no ranking dos chefes de Estado mais sexy do mundo, ocupou grande parte dos noticiários – e do comentário público – durante a pré-campanha, enquanto de ideias propriamente ditas, pouco ou nada se falou.

Claro que isto foi extremamente benéfico, em particular para os principais candidatos às Legislativas. A coligação viu secundarizado o balanço de quatro anos terríveis à frente de um Governo que transformou Portugal numa estância turística sem posses, e o PS, enquanto gerava polémicas de marketing, distanciava-se do fantasma do assalto ao poder de António Costa, e da sua clara incapacidade para se manter popular – ou até interessante – para lá das primárias contra António José Seguro.

Por um lado, é claro que todos – partidos, movimentos e público – ainda se estão a habituar a estas novas contingências que influenciam uma campanha, e talvez no futuro seja possível lidar com as redes sociais e a internet com menos inépcia. Mas não deixa de ser preocupante que, afinal, numa campanha em que se defrontam dois candidatos um tanto desinteressantes para gerir um país esbulhado – com a ajuda do Governo – pela selvajaria neoliberal, se tenha discutido imagem em vez de se discutir política. A população pagará a factura dessa leviandade com que, apesar de tudo, foi conivente. Há nos portugueses uma tendência para se deixar levar pela emoção do que é polémico, sem pesar nunca as implicações a longo prazo. Cada conversa sobre os cartazes do PS ou da coligação, foi apesar de tudo uma oportunidade perdida para discutir questões tão importantes como a destruição da Escola pública, a perversão do mercado de trabalho ou a privatização de todos os sectores estratégicos vendidos a preços totalmente desadequados.

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A mais recente incursão pelo terreno da discussão-de-tudo-menos-de-política foi a sessão fotográfica de Joana Amaral Dias para o número de Setembro da revista 'Cristina', editada a semana passada. Joana Amaral Dias, que foi deputada do Bloco de Esquerda, e deixou o partido para fundar o seu próprio movimento – o Agir – tem sido uma das candidatas menos mediatizadas desta campanha. Entre a fundação do Livre/ Tempo de Avançar, onde se encontram várias antigas figuras de proa do Bloco de Esquerda, e um novo fôlego para o próprio Bloco, em parte devido ao desempenho assinalável de Mariana Mortágua nas Comissões Parlamentares de Inquérito do Banco Espírito Santo, houve pouco tempo para falar do Agir, que foi rapidamente descrito como partido da esquerda caviar. E de qualquer forma, essa falta de acompanhamento também comprova o pouco esforço que as televisões fazem para acompanhar a totalidade das campanhas.

Desde o começo do Agir, nunca se falou tanto de Joana Amaral Dias e do próprio movimento como agora. E, nesse sentido, a sessão para a 'Cristina' foi bastante eficaz.

'Cristina' é a revista de Cristina Ferreira, a assistente de Manuel Luís Goucha no programa da manhã da TVI. Cristina Ferreira, com a sua voz estridente, as suas gargalhadas histriónicas e as suas opiniões populistas e primárias, conseguiu – vá-se lá saber porquê – tornar-se não só uma das apresentadoras mais bem pagas da televisão privada, como tornar-se uma espécie de marca, com direito a perfume e revista em nome próprio, demonstrações prodigiosas do quão baixo se consegue descer ao legitimar figuras públicas. Cristina Ferreira é uma espécie de personagem de teatro de revista transformada em grande empreendedora. Quem se lembrar dos 'Vigaristas de Bairro' de Woody Allen tem aí um bom paralelo: a personagem sem cultura nem maneiras, que ascende de repente ao mundo dos ricos e confere autoridade à sua burgessa falta de formação.

Na capa da 'Cristina' já estiveram figuras tão díspares como Marcelo Rebelo de Sousa, Mariza, Ricardo Quaresma e, agora, Joana Amaral Dias. A própria arbitrariedade das capas demonstra a falta de linha editorial da 'Cristina'. Mas seria de esperar que houvesse linha editorial?

Joana Amaral Dias especificou que fazia esta sessão fotográfica como mulher e como candidata. Aqui precisamente reside toda a problemática. A sessão fotográfica, não é propriamente uma revolução do ponto de vista estético ou artístico, limita-se a replicar sessões que outras mulheres famosas grávidas já fizeram. Que Joana Amaral Dias, a mulher ou a personalidade pública, quisesse fazer estas fotografias, não me parece motivo de especial atenção. Como feminista valorizo que uma mulher faça uso – se assim o entender – do seu próprio corpo. É certo que muitas alas feministas foram e são contra a exibição de nudez, o stip-tease e a pornografia, mas, a meu ver, o feminismo não deve ser prescritivo das opções das mulheres, deve, isso sim, garantir que essas opções não são tomadas sob coerção. A referência à questão feminista não é de somenos importância. Isto porque, por todo o lado, ou seja, nas redes sociais, não faltou quem criticasse os críticos de Joana Amaral Dias por 'machismo'. Talvez o exemplo mais claro seja Daniel Oliveira, que integra o Livre, é colunista do Expresso e um dos comentadores do painel do 'Eixo do Mal' que, tendo comentado o assunto – no programa e no seu Facebook – é acusado, de formas mais veladas ou menos, de ser motivado por preconceitos machistas e conservadores ao dizer que O problema não está em Joana Amaral Dias despir-se para uma revista. (...) O problema é o vício de ser notícia ofuscar as convicções e a política transformar-se num circo estupidificante. (...) É uma lição para quem tem de lidar com a sua própria visibilidade pública e que tento nunca esquecer: não confundir peso mediático, tão fugaz, com peso político. Quem se deixa embebedar pela fama acaba, como qualquer bêbado, a fazer figuras tristes.

Não deixa de ser irónico que possa haver quem considere que estas declarações – de resto bastante razoáveis – possam ser 'machistas'. Imaginemos que algum candidato do sexo masculino pensasse em – enquanto homem e candidato – fazer uma sessão fotográfica sem roupa: passará pela cabeça de alguém que ele não seria criticado e ridicularizado por isso? Sempre que se tecem críticas a uma mulher, há uma tendência quase imediata para encarar as críticas como demonstrações de machismo. Mas para se tratar de efectivo machismo, é preciso que se possa comprovar que a crítica depende precisamente do género de quem é criticado. Com a sessão fotográfica de Joana Amaral Dias, esse não é o caso. Eu arriscaria dizer que se tivesse sido um homem a fazer uma sessão fotográfica nu, teria sido até mais violentamente criticado e mais drasticamente ridicularizado. As críticas de Daniel Oliveira, ou as de Marta Rebelo, à sessão da 'Cristina' não se prendem com o facto de ser uma mulher, mas com o facto de se tratar de uma candidata a um cargo político.

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Isto leva-nos ao problema do que a sessão fotográfica implica para a candidatura propriamente dita. Como disse acima, que Joana Amaral Dias, a mulher, quisesse fazer esta sessão, não me parece mal, pelo contrário, talvez seja o tipo de iniciativa que permite empurrar o feminismo mais conservador para uma mudança de postura perante a questão do corpo e da nudez. Não podemos escamotear que muitas vozes feministas são ainda tributárias de uma certa herança judaico-cristã que tem um verdadeiro problema com o corpo e com a utilização dele na esfera pública. Apesar disso, a rapidez com que se rotulou como 'machistas' as vozes críticas sobre a sessão de Joana Amaral Dias demonstra como muitas vozes feministas seguem a filosofia americana do shoot first and ask questions later, e também não deixa de denunciar que muitas intervenções nas redes sociais são motivadas por uma estranha necessidade de se estar furioso ou furiosa com alguma coisa, mesmo que não se tenha motivos válidos, como parece ser o caso aqui.

O problema com a sessão de Joana Amaral Dias prende-se com a candidata, não com a mulher. Gostemos ou não, cargos como o de Primeiro-Ministro ou de deputado não deixam de conter uma dimensão simbólica. Prentende-se que os candidatos demonstrem seriedade, rectidão e uma certa sobriedade. Muitas das críticas que se fazem às figuras políticas prendem-se com faltas para com esta ordem simbólica, mais do que propriamente com conteúdos políticos. Por exemplo, quando Manuel Pinho, Ministro da Economia de Sócrates, fez o sinal de cornos na Assembleia, a sua falta foi para com as características que ainda associamos a uma figura política, e não para com as ideias ou os projectos políticos que pudesse defender.

Com Joana Amaral Dias essa lógica vale duas vezes. Em primeiro lugar, porque sempre existiu, e em segundo lugar porque, nesta campanha, como nunca antes, parece a dimensão simbólica dos políticos ser ainda mais importante do que a sua dimensão propriamente ideológica. A histeria colectiva (não está em causa se justificada ou não) que se verificou com os cartazes do PS ou da coligação é a mesma que causa as críticas à sessão fotográfica de Joana Amaral Dias. Esses cartazes demonstravam – pelo menos no caso dos da coligação e da segunda leva dos do PS – uma falta de seriedade e uma desconsideração pela veracidade dos factos. A sessão da 'Cristina' demonstra uma dimensão mundana e erótica que, por norma, também não queremos associar às figuras políticas. A única hipótese de tornar positiva esta sessão seria transformá-la num acto político. Não foi bem isso que sucedeu. Numa entrevista – não a que acompanha a sessão, mas numa dada a Judite de Sousa – a candidata referiu o preconceito das pessoas, mas foi incapaz de aproveitar a sessão para discutir questões verdadeiramente importantes. E porquê? Porque se colocou a si mesma como problema, em vez de colocar questões alargadas.

A sessão da 'Cristina' poderia ter sido usada para falar sobre os preconceitos das pessoas – incluindo algumas e alguns feministas – com o corpo das mulheres. Poderia ter sido usada precisamente para problematizar o tipo de imagem excessivamente austera e desumanizada que queremos inculcar às figuras políticas. Mas Joana Amaral Dias chamou a esta sessão um exercício de 'liberdade e expressão individual', sem no entando conseguir, como candidata, contextualizar esta 'liberdade individual' no cargo de representação colectiva a que se candidata. De resto, o próprio feminismo não gerou ainda um consenso sobre este tipo de sessões, e Joana Amaral Dias não integra minimamente estas fotografias nessas polémicas. A crítica da candidata aos 'preconceitos' que quis deixar a nu nesta sessão é um tanto insuficiente naquilo que representa. E ainda mais relevante: que propostas específicas tem o Agir para lidar com os preconceitos? Joana Amaral Dias referiu despedimentos de grávidas, mas não está a colocar em causa nada que outras forças – de esquerda e não só – não coloquem também. Em suma, mesmo imaginando que Joana Amaral Dias tenho tido as mais dignas intenções com estas fotografias, parece acima de tudo ter dado um passo maior que a perna.

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Como disse acima, não sou minimamente crítico das opções livres de qualquer mulher, incluindo Joana Amaral Dias. E, em princípio, também não seria crítico da/o candidata/o que tivesse a ideia de posar sem roupa para uma revista, de maneira a chamar a atenção para uma série de problemas sociais em que a intervenção política pode ter um papel – ainda que eventualmente não o mais importante. O maior problema da sessão de Joana Amaral Dias foi a falência em contextualizá-la politicamente de forma sólida.

Assim sendo, fica apenas mediatismo – e a sessão da 'Cristina' tem sido essencialmente isso, uma febre mediática que, para todos os efeitos, faz pouco mais do que reduzir – e não da melhor forma – a respeitabilidade das instituições que são o Governo e a Assembleia da República. Ora, como socialista-liberário, eu elogiaria qualquer iniciativa que tivesse em vista a redução radical (ou, até certo ponto, a extinção) dessas mesmas instituições, para reforçar o papel de outras. Mas esse nem sequer é o caso. A sessão de Joana Amaral Dias, da forma que foi feita, consegue apenas minorar a seriedade de instituições que o Agir não planeia diminuir nem substituir. E esse será talvez o problema maior. Que Joana Amaral Dias quisesse, de alguma forma, alterar a percepção que temos do Governo, porque apresenta a proposta de alterar o próprio Governo, por exemplo diminuindo a sua intervenção e o seu poder, seria não só muito inteligente como também, a meu ver, muito louvável. Mas aqui, aquilo que se faz é relativizar uma ordem que se planeia servir.

Em última análise, o problema essencial é um problema de coerência. Para quê subverter a imagem de um sistema se não se planeia subverter o próprio sistema? Para quê mudar a imagem dos políticos, se se planeia ser político da mesma forma? Não está em causa dizer que 'todos os políticos são iguais', mas dizer que há um terreno comum dentro do qual debatem as suas diferenças, neste caso ideológicas. A sessão de Joana Amaral Dias teria sentido se, alterando a imagem desse terreno, visasse também alterar o próprio terreno. Mas integrando a sessão da 'Cristina' no discurso do Agir, o que temos é uma mudança cosmética e pouco mais. É como um padre que usa ténis e calças de ganga, mas que chegando ao púlpito se resume às ortodoxias do costume.

No fim de contas, várias coisas ficaram a nu: Joana Amaral Dias (mas não o seu companheiro, e seria uma questão interessante pensar por que o preconceito com a nudez masculina é maior do que com a nudez feminina), o preconceito do público, a incapacidade de Joana Amaral Dias para enquadrar as suas ideias individuais com o seu projecto político, e também a ideia de que, afinal, estamos mais interessados em mudar a imagem das coisas do que as próprias coisas.


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