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Pele e pop: sobre «Delirium» de Ellie Goulding

Afastado das raízes electrónicas e folk dos primeiros álbuns, «Delirium» traz-nos uma nova Ellie Goulding. Será ainda possível fazer um grande álbum pop, quando a pop parece estar sem ideias?


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A capa de 'Delirium' é uma fotografia daquelas que fixa uma espécie de ícone. É uma imagem vaga e sonhadora, em que os olhos fechados e a expressão extasiada de Ellie Goulding são contrapostos pelo peso do casaco de pêlo e pela posição da mão, que evoca a mão esquerda de Cristo em inúmeras representações do Sagrado Coração. Mas ao contrário das imagens do Sagrado Coração, por norma marcadas por cores rubras e vibrantes, a capa de 'Delirium' tem uma paleta azulada e leve, como se a figura de Ellie, concreta e carnal como possa ser, estivesse prestes a dissolver-se.

Esta fotografia é o primeiro indicador de que 'Delirium' nos traz uma Ellie Goulding diferente daquela que conhecemos de 'Lights/ Bright Lights' (2009/2010) e 'Halcyon/ Halcyon Days' (2012/2013).

Foi no final de 2009 que surgiu o single de avanço de 'Lights'. Under the sheets era uma canção simples, mais electrónica do que pop, apresentada com um videoclip bastante simples em que Ellie surge, no início, multiplicada. Ela parece uma versão urbana e contemporânea de uma Virginia Woolf, há no rosto dela qualquer coisa de aluado e de sonhador. Ellie Goulding pode muito bem ser a imagem de uma jovem mulher dos dias de hoje, há nela qualquer coisa de extremamente reconhecível. Num mundo marcado pelo excesso de artifício, pelas grandes produções e pelo enaltecimento do que é (ou deve ser entendido como) sublime, Goulding representa a pessoa normal, a rapariga que ouve uma canção pop numa discoteca e que a dança ''à sua maneira''.

Quando 'Lights' é reeditado no final de 2010 como 'Bright Lights', acrescido de seis novas faixas, a apresentação fez-se com Lights, a primeira canção que podemos verdadeiramente entender como uma grande canção. Não se trata já de um apalpar de terreno. Lights dá-nos conta de uma artista que já se encontrou. A letra, construída a partir de imagens simples mas com uma dimensão imaginativa que nem sempre se encontra nas letras pop, é reavivada pelo ritmo marcado da música. O videoclip (realizado pela grande Sophie Muller) parece fazer algumas cedências: no centro de uma série de efeitos luminosos, Ellie aparece mais glamourosa do que é seu hábito, ainda que dançando com a descontração dos vídeos anteriores. Um pormenor interessante é que, em vários dos segmentos do vídeo, ela aparece a tocar bateria ou com uma pandeireta na mão. Trata-se de mais do que de um apontamento estético, uma vez que Ellie assume frequentemente, nos concertos ao vivo, a percussão. O que o vídeo de Lights parece dizer-nos é que, por mais produzida e adereçada que apareça, não devemos esquecer-nos que ela é uma cantora, uma musicien, mesmo que tenha momentos de bailarina ou de actiz para rodar um videoclip. É essa musicien que nos entrega algumas canções brilhantes como Little dreams, a cover do clássico de Elton John Your song, e ainda o magistral Home.

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Esta aposta na capacidade de Ellie enquanto vocalista e enquanto compositora que 'Bright Lights' fazia prever, é confirmada pelo lançamento, em 2012, de 'Halcyon'.

O segundo álbum parece afastar-se ligeiramente da electrónica, para apostar numa pop fortemente influenciada pelo rock e pelo soul e por uma tendência para um sonoridade étnica. Paralelamente, a aposta no lado visual parece ter chegado com uma nova segurança. Dir-se-ia que Goulding se sente mais confiante e que, assim, aposta de outra forma na componente visual do seu projecto. Não será inusitado pensar isto a propósito de uma cantora em que pressentimos o eco de, entre outros, Björk, Kate Bush, Tracey Thorn, Kanye West, dos Goldfrapp ou mesmo dos Morcheeba. A componente visual tem uma relação com a música que excede a estratégia de promoção. Assim, num álbum mais fantasioso em termos de referências, mais ousado em termos de sonorodidade, não deixa de ter muito sentido encontrar os videoclips de Anything could happen e de Figure 8. Acrescente-se ainda que os vídeos para estas canções, e particularmente o segundo, estão entre os videoclips mais visualmente bem conseguidos e mais criativos ao nível da articulação música-letra-imagem dos últimos anos e duvido que, em 2012 se tenha produzido em música pop um vídeo da qualidade de Figure 8. Em ambos os vídeos, Goulding veste a pele de uma figura de alguma forma mitológica. Em Anything could happen, o eco da história de Penélope e Ulisses é perfeitamente claro, mas este surgem-nos numa praia na sequência de um acidente de automóvel cujo fim é romântico e imaginoso, de alguma forma transfigurador, aludindo ao estado de encantamento amoroso de que a canção fala.

Figure 8 apresenta-se como uma espécie de contraponto. O imaginário é certamente mais cristão, Ellie surge como uma rapariga normal no momento de uma ruptura amorosa dramática (segurando continuamente um lenço vermelho – o rasto de sangue que perturba já o seu equilíbrio) e vai-se transformando numa espécie de santa sangrenta, mergulhada num martírio que se atravessa num cenário negro e vazio, como se a casa onde surge inicialmente com o amante que se prepara para partir tivesse cessado de existir para dar lugar à total aniquilação do mundo. Os seus movimentos, que têm alguma coisa de teatral e de encenado parecem ser a raiva de um corpo incapaz de se mover naturalmente, lutando por se manter vivo. As imagens de cacos e despojos que entrecortam estas sequências ligam-se aos elementos que apontam para o abandono da vida comum: o livro de Sylvia Plath esquecido em cima da cama, os auscutadores desligados, o corpo solitário do homem debaixo do chuveiro como se precisasse de ser reavivado. No final, o corpo de Gouding levita sobre a cama, coberto de luzes, como se ela tivesse morrido e, na morte, encontrado uma espécie de luminosa redenção.

Na primeira canção do álbum, e talvez essa seja uma primeira premissa para entender a génese de 'Halcyon', pede-se uma espécie de comunicação que esteja para lá das palavras. A canção chama-se Don't say a word e, de facto, é a isso que se resume: não há uma única referência ao silêncio ao longo de toda a letra. Pelo contrário, a música é marcada por uma percussão forte que nos afastaria totalmente de um pedido de silêncio. O que se pede é uma ausência de palavras perante as experiências mais intensas: I've chosen you/ but don't say a word/ and if I save us/ and I fall down/ I will leave your words behind. É curioso que alguém como Ellie Goulding, que tem nas letras um dos seus pontos fortes em relação a tudo aquilo que se faz no pop deste momento comece um álbum por rejeitar, de certa forma, as palavras. No entanto, percebemos ao ouvir 'Halcyon' que isto tem a que ver não com uma negação do discurso (que conduziria inevitavelmente ao silêncio) mas com a necessidade de um envolvimento físico e sensível/sensorial na forma como nos colocamos no mundo. Se o primeiro álbum se situava no lado melhor da electrónica dançável, 'Halcyon' dirige-se directamente ao corpo, à expressão física. Como se comprova nas melhores canções desta álbum, como My blood, Ritual, Only you, Halcyon, Figure 8, Dead in the water ou o próprio Don't say a word, tudo na música de Ellie Goulding é carnal e físico, há nela uma agressividade que não é contemplativa, tudo o que nela é emoção parece projectar-se directamente sobre o nosso corpo. Ouvir com atenção a música de Ellie Goulding é um exercício intenso de imaginação. A sua música alude a imagens e sensações, como a música tribal que é referência em ''Halcyon'', que parece ser um mediador entre a realidade e uma esfera espiritual mais profunda.

Nesta capacidade de tomar o potencial emotivo das canções e transformá-lo em qualquer coisa de visceral e pesado reside a melhor aprendizagem do trabalho de Björk, com quem Goulding parece ter aprendido não só o valor expressivo do exercício vocal como também o impacto de uma nota mais improvisada ou mesmo desafinada ou de uma frase dita de forma mais descontrolada.

Tal como 'Lights', também 'Halcyon' contou com uma segunda edição, 'Halcyon Days', que conta com mais oito canções (duas das quais são participações). O caso é que estas canções se encontram perfeitamente ao nível que 'Halcyon' já havia deixado.

Mas também acontece algo interessante com os videoclips de 'Halcyon Days': tanto Burn como Goodness Gracious representam um regresso àquela rapariga simples e descontraída que encontrávamos nos vídeos de 'Lights/ Bright Lights'. Essa persistência numa determinada imagem desenha, afinal, uma perspectiva bastante interessante: a de que ninguém precisa de ser 'normal' o tempo todo, e de que imaginar também nos é permitido. Há algo de tão real na Ellie Goulding que vemos no vídeo de Goodness Gracious, e mesmo no vídeo mais encenado de Burn, que se torna fácil entender em Anything could happen e em Figure 8 como que momentos de delírio ou de imaginação.

E precisamente isto resume aquilo que parece ser a postura de Ellie Goulding: a mulher comum, que atravessa problemas amorosos e outros (e sobre os quais se expressa com invulgar qualidade), e que se permite de vez em quando um delírio. A sua figura poderosa porque reconhecível não abdica de um certo espaço para sonhar.

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'Delirium' é, de resto, o nome do aguardado terceiro álbum de originais. Mas talvez o delírio não fosse precisamente aquele que esperávamos. Se 'Halcyon Days' – cujo conjunto constitui o melhor trabalho de Ellie – abria uma série de possibilidades, as opções tomadas em 'Delirium' demarcam-se radicalmente de quase tudo aquilo que pudéssemos prever. Nesse sentido, este álbum prova a capacidade de Goulding de não se cingir a espectativas ou de se deixar dominar pela imagem que dela formaram os seus momentos mais famigerados – o perigo que, por exemplo, condenou Adele à irrelevância na grande maioria do mais recente '25' (2015).

Mas nem só a capacidade de surpreender deve ser destacada em 'Delirium'. Pelo contrário. Numa entrevista dada após o lançamento, Goulding afirma que o seu objectivo, quando voltou ao estúdio, foi gravar um álbum pop – uma opção que a própria reconhece como arriscada. Com razão. O universo pop parece ter chegado à exaustão total das suas propostas, e a popularização de nomes como as Fifth Harmony, Ariana Grande, Katy Perry ou Taylor Swift não ajudam a salvar a reputação da música pop. Repetindo modelos por demais batidos, e apostando intensamente nos refrões orelhudos e/ou na ginástica vocal, as mais recentes coqueluches pop têm sido bem sucedidas em produzir hit atrás de hit. Só ainda não produziram uma grande canção pop.

Nenhuma canção de 'Delirium' tem probabilidade de se tornar um sucesso comparável às mais recentes canções da doce e ingénua Taylor Swift, ou ao irritante Worth it das Fifth Harmony. No entanto, é em 'Delirium' que se encontram algumas das melhores canções pop produzidas nos últimos anos. Precisamente por isso, talvez não seja de esperar que sejam devidamente reconhecidas. Os dois singles que avançaram a edição do álbum tiveram diferentes recepções. Se Love me like you do integrou a banda-sonora de 'Fifty Shades of Grey' – um filme que até os críticos mais benevolentes consideraram, com razão, infinitamente inferior à sua banda-sonora – e gozou de razoável popularidade, On my mind, com o seu irónico vídeo inspirado nas rebeldes do filme 'Thelma & Louise' (1991), parecia uma canção mais pessoal para a Ellie Goulding que conhecíamos. No entanto, nenhuma das duas canções parecia estar propriamente à altura da fasquia levantada por 'Halcyon Days'.

Em bom rigor, esse é o maior problema de 'Delirium'. O álbum dá conta essencialmente da busca de uma sonoridade, mais do que de uma busca de grandes canções. Ellie Goulding tem sido uma cantora de grandes canções até agora, mas ao terceiro álbum, o esforço maior parece ser por encontrar uma sonoridade, uma unidade estilística – de resto, situação simétrica ao terceiro álbum dos Mumford & Sons, 'Wilder Mind' (2015) que também contraria a tendência prévia da banda de produzir canções, e não um som.

A melhor demonstração disto é que tanto On my mind como Love me like you do nos parecem muitíssimo mais intensas quando ouvidas no conjunto constituído por 'Delirium'. De facto, o que aqui temos não são canções, mas uma sequência muito racionalmente organizada de momentos, que são melhor apreciados exactamente assim.

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'Delirium' abre com uma introdução homónima que dá o mote para Aftertaste, uma canção destemidamente pop, que não nos deixa dúvidas quanto à inclinação do álbum. O ritmo, as baterias fortes, o refrão melódico e catchy: o que nos descansa é que, de alguma forma, a canção nos parece boa. Ellie demonstra ter a mesma garra de sempre, a sensualidade que lhe é característica, a intensidade que caracterizava as suas melhores canções.

E, claro, continua no centro uma voz estranha e algo aditiva. A música de Ellie Goulding teve como absoluto centro a sua voz: trata-se de uma voz rouca e melódica, de uma profundidade e expressividade que ninguém neste momento no cenário pop. Por isso, por mais que, em determinados momentos, Ellie pareça apropriar-se de uma série de lugares-comuns da grande produção pop, 'Delirium' não deixa de ser um álbum muitíssimo pessoal e irrepetível.

O álbum prossegue com Something in the way you move, uma das melhores canções do álbum, em que o beat muito anos 80 se junta a uma produção inteiramente contemporânea e enérgica, prolongada de forma subtil por Keep on dancing, em que a mesma atmosfera disco se torna elegante e minimal. On my mind, com a sua polarização entre momentos tipicamente pop e momentos tipicamente Ellie Goulding, fecha o primeiro ciclo de 'Delirium'. As duas canções que se seguem, Around U e Codes dão conta do lado pior de 'Delirium': se a procura de um som – e de um som especificamente pop – é o principal móbil do álbum, no geral, isso não impede Ellie de apresentar canções assinaláveis. Mas, nalguns casos, como nestas duas canções – e mais tarde com Don't panic e We can't move to this – esse som ocupa de tal forma a escrita e a produção que deixa o que fica não é senão um eco do pop mais comum nos dias de hoje. Nas quatro canções referidas, parecemos de repente ouvir uma Taylor Swift que ganhou uma grande voz, mas não perdeu o facilitismo compositivo e a irritante postura de menininha.

Entre ambas as duplas de canções mal conseguidas, encontra-se um outro ciclo bastante intenso, e também mais vincadamente romântico: Holding on for life, Love me like you do e Don't need nobody. A primeira é, aliás, outra das grandes canções de 'Delirium', e inicia um ponto de equilíbrio entre a pulsão romântica e o desvio para uma energia luminosa e pulsante, que será recuperada mais à frente em Lost and found, Devotion e Scream it out. Entre estas, surge ainda Army, que funciona como uma continuação da balada-de-diva que é Love me like you do.

A edição normal de 'Delirium' termina com Scream it out, uma grande síntese do ciclo romântico do álbum, onde se cruza a vertente pop com a Ellie romântica que já conhecíamos de grandes canções como Wish I stayed, Salt Skin ou Figure 8. A edição especial inclui mais cinco canções originais e ainda Outside, que Ellie canta no mais recente álbum de Calvin Harris, 'Motion' (2014). Eventualmente, estas canções estão agrupadas àparte não por se distanciarem propriamente da sonoridade deste álbum, mas por se aproximarem, pelo menos as melhores, dos álbuns anteriores. É o caso de Paradise e de Heal que, remetem quase aos tempos de 'Lights', ou de Winner que nos leva a 'Halcyon' facilmente. As três são grandes baladas pop, mais próximas do registo simples e quase folk que 'Delirium' tenta minimizar.

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Desde o princípio do seu percurso, Ellie Goulding tem-se destacado por ser, de forma mais ou menos radical, uma artista pop distanciada da teatralidade e da artificiosidade que, se em tempos conferiram ao universo pop uma identidade, hoje em dia precisamente a saturaram ao ponto em que parece ter deixado de ser uma identidade – flexível, maleável, subtil – para se tornar numa prescrição limitativa.

É certo que, enquanto os primeiros dois álbuns resolviam esse problema por recurso a contaminações de outros géneros, 'Delirium' é um corte de intermediários e uma incursão assumida pelo território pop. De facto, nunca foi um desafio tão grande produzir um álbum pop. A repetição, neste universo, constitui um perigo tanto quanto uma segurança. Uma das divas pop do momento, Adele, lançou o seu terceiro álbum pouco depois da edição de 'Delirium'. Apesar da potência da sua voz, Adele falhou redondamente em produzir um álbum que traga qualquer tipo de novidade. '25' é um álbum que cumpre escrupulosamente aquilo que tornou Adele famosa. Derivativo como é, '25' não deixou de ser um sucesso, e Hello, muito longe de ser uma grande balada – e menos ainda para aquela que em tempos cantou Set fire to the rain – é sem dúvida o êxito do momento. Mas é improvável que '25' ainda seja ouvido daqui por cinco anos.

'Delirium' é um risco, mas também um sucesso – mesmo apesar das suas faixas menos conseguidas. Ellie Goulding escolheu não se repetir, ao mesmo tempo que escolheu não abdicar daquilo que sempre a caracterizou e que ganhou o respeito do público: a sua simplicidade, a sua crueza, a sua energia sensual e sonhadora, e evidentemente a sua voz. 'Delirium' deixa poucas dúvidas quanto àquilo que pretende ser, e menos ainda sobre a capacidade de Ellie para concretizar os seus projectos. A fotografia da capa já diz tudo. Ellie surge como uma espécie de Cristo feminino num glamouroso transe psíquico. Falta-lhe o Sagrado Coração: no seu lugar, apenas a pele. E é ainda isso que Ellie Goulding persegue: a pele, as emoções fortes, o arrepio de um momento, a sensação física que se prolonga pela música. Mesmo que em tudo o resto, Ellie tenha mudado, nisto pelo menos permanece absolutamente fiel a si mesma.


version 1/s/musica// @obvious, @obvioushp //João Cunha Borges