memorial temporário

J’aurais bien voulu être le mec qui observe sans gêne ce théâtre (Tom Barman)

O nobel de Bob Dylan

Podia ter sido o começo de uma nova era para a crítica da cultura pop. Mas por várias razões, isso não parece prestes a acontecer.


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A decisão da Academia Sueca de laurear Bob Dylan com o Nobel da Literatura causou um choque tremendo junto do público, mas especialmente junto do meio literário, um pouco entre críticos como entre relatores, que não são bem a mesma coisa. Nem vale a pena referir a quantidade de autores que, pertencendo à literatura propriamente dita, seriam à partida mais elegíveis para o Nobel. Nem tem faltado quem assinale, com razão, os autores cruciais que não chegaram nunca a receber o prémio (Virginia Woolf e Tolstoi vêm à ideia), enquanto seria interessante verificam que poucos poetas receberam o Nobel, o que talvez altere um pouco a nossa percepção sobre por que a Academia quis premiar alguém que abriu novos caminhos à poesia americana.

Não está em causa dizer se pessoalmente concordo ou não com a atribuição do Nobel a Dylan. Honestamente, teria preferido vê-lo entregue a Agustina Bessa-Luís ou Amélie Nothomb (por razões distintas), ou, caso fosse premente laurear um poeta, a Myriam Van Hee ou Lynn Emanuel, ou mesmo a John Ashbery que, apesar de não ser um poeta que admire totalmente, exerceu uma influência agora indelével na poesia americana e não só.

Mas não é disso que se trata. Talvez não devamos analisar a decisão da Academia sem entender os seus motivos ou, o que talvez seja mais importante, as suas implicações. O prémio de Dylan não foi um prémio para a poesia, ou não o foi em primeiro lugar. A Academia nunca foi pródiga em premiar poetas, e se os novos caminhos da poesia americana deviam ser assinalados, a grande oportunidade (porque o prémio não é atribuído a título póstumo) passou em 1997, quando morreu Allen Ginsberg, esse sim, o destemido iniciador de um imaginário revolucionário, capaz de ombrear com os pais fundadores da poesia americana, Walt Whitman e Emily Dickinson.

O Nobel de Dylan foi de facto parar a terreno inesperado, mas não foi o da poesia: foi o da cultura pop. É discutível se a Academia finalmente decidiu reconhecer a importância da cultura pop, ou se apenas quis tornar o prémio mais cool, e apelativo a novas gerações que tendencialmente lêem pouco. Nem isso é relevante, porque ambas as possibilidades são efeitos da atribuição. E é da perspectiva pop que temos que pensar este prémio e a sua eventual importância. Não tem faltado quem sugira que devemos ignorar que Dylan é músico, e olhá-lo como poeta: mas isso é apenas uma forma de passar uma esponja sobre a parte mais árdua e subversiva deste prémio, para lidar apenas com as suas implicações mais simplórias.

A Academia Sueca traz mais de 50 anos de atraso em relação a Marshall McLuhan e Susan Sontag, os primeiros pensadores americanos a reconhecer a importância da cultura pop e a sua paridade com a cultura erudita. Antes deles, na Londres dos anos 50, o Independent Group, de que faziam parte os arquitectos Alison e Peter Smithson, organizou uma exposição chamada «Parallel of Life and Art» em que a alta cultura era apresentada sem separações púdicas ao lado de cartazes publicitários e fotografias comerciais. Com isto, evidentemente, não pretendo afirmar que a atenção crítica séria sobre a cultura pop esteja consolidada, o que de forma nenhuma é verdade. A cultura pop é ainda um grande tabu crítico, talvez o maior de todos. Nesse sentido, o Nobel de Dylan pode vir a ser um passo decisivo. Digo que pode vir a ser e não que é, porque temos que esperar, em ser realistas, que os nossos críticos sem talento para a explosividade pop, absorvam este Nobel e tentem enquadrá-lo nas suas próprias pretensões intelectualistas, o que significa desenquadra-lo.

E é por isso mesmo que Dylan não é, afinal, a melhor escolha para o Nobel. Como poeta, colmata um atraso mais do que corresponde às justificações da Academia; como divulgador do prémio, tem mais importância para gerações passadas do que para as mais jovens; e como legitimador da cultura pop, talvez o mais arriscado dos papéis, oferece-se demasiado aos enviesamentos teóricos dos nossos intelectuais imbecis e dogmáticos.

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Em 2005, quando Camille Paglia organizou uma antologia de pequenos poemas de língua inglesa, «Break, Blow, Burn», foi um choque para muita gente que a antologia terminasse com a letra de ‘Woodstock’ de Joni Mitchell. Paglia percebeu aquilo que talvez a Academia Sueca já tenha percebido, mas arriscou mais e arriscou melhor. Ao contrário de Dylan, Mitchell não é incluída em selectas escolares, nem tão sofisticada liricamente. As suas letras são mais vincadamente pop e folk, muito mais que as de Dylan. Tal como ele, as suas melhores letras são também grandes canções (penso em ‘Woodstock’, ‘From both sides now’ ou ‘A case of you’), mas dotadas de uma simplicidade que Dylan não tem, e que é talvez um reflexo muitíssimo mais realista de como se escreve poesia ‘agora’. E se a complexidade lírica, ou mesmo a obscuridade das letras, é importante, Tom Waits ou Tori Amos teriam sido opções mais polémicas, e por isso mesmo, statements muito mais impactantes.

O que comprova isso, é que sim, Dylan causou alguma polémica, mas não mais do que é costume quando se atribui o Nobel a alguém. Por norma, não há Nobel que não venha envolto em polémicas, nem que seja o clássico ‘deveria ter sido entregue a x’.

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Evidentemente, não se trata de dizer que Dylan é sem méritos. Pelo contrário, as suas letras podem sem esforço ser tomadas como poesia e, mesmo que não tenha aberto caminhos tão novos quanto isso na poesia americana, certamente abriu-os na escrita de canções, que há muito já deveríamos ter começado a levar (mais) a sério. A Academia está, por isso, mais em erro do que Dylan. Acontece que hoje, mais do que ontem, não temos a certeza do que significa o próprio Nobel. Sabemos que representa a excelência de uma obra, sem saber já que tipo de excelência e que tipo de obra. Talvez só seja possível entender cada Nobel em contexto. Mas é justamente aí que o Nobel de Dylan deixa a desejar. A própria Academia não parece ter tido a certeza do que pretendia, e Dylan não ajudou. A notícia de que se recusou a atender a Academia, que muitos podem ver como um acto de autenticidade e rebeldia, não passa dum rasganço adolescente vulgarizado por estrelas de quinta categoria bastante mais novas que Dylan, e que soa um pouco a má educação. Poderá o próprio Dylan ter pouco interesse em afirmar a cultura pop a que pertence? Não o sabemos, mas o certo é que, um pouco por culpa de todos os envolvidos, aquilo que podia ter sido o passo decisivo para uma nova crítica capaz de entender a cultura pop vai acabar por não acontecer. É pena.


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //João Cunha Borges
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