memórias de um futuro distante

Um segundo olhar sobre a realidade

Luiz Klein

Jornalista; louco; extrovertido; sagaz. Vive constantemente no caos, mas é na paz que encontra a sua plenitude....

Um minuto, por favor

Enquanto cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo, cada vez mais nos preocupamos com o próximo aparelho que iremos comprar. O anseio por ser aceito socialmente está diretamente atrelado às novas tecnologias na era da globalização, como nunca antes esteve.


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Enquanto caminha pelas ruas do movimentado centro da cidade em que mora, Luiza percebe que o seu dia iria ser bem diferente do habitual. Assim que leva a mão ao bolso, como de costume, logo nota a ausência de seu smartphone. Chegando ao trabalho passa a realizar suas tarefas diárias. Planilhas, planilhas, planilhas… As pálpebras pesam. Sentada em sua cadeira há menos de duas horas, já está exausta. Olha para sua mesa em busca do celular. Nada encontra. Luiza vai até a cozinha preparar um café, enquanto a angústia por não conseguir checar o Facebook a consome. Pó de café. Filtro de papel. Água quente. Nada faz sentido. Luiza percebe que não consegue fazer uma simples tarefa sem a ajuda de seu aparelho. Desiste.

Ao voltar à sua mesa… Planilhas, planilhas, planilhas. O tempo demora a passar. “Será que aquele boy que conheci na balada aceitou minha solicitação? Alguém comentou a minha foto?”, pensa.

Inquieta, ansiosa, irritada. A cabeça começa a doer. Sua frio. Os números na tela do computador não fazem sentido. Luiza sente uma tontura nauseante toda vez quer percorre aquelas milhares de colunas em preto e branco.

Oito horas depois, ao chegar a casa, lá esta o seu smartphone em cima da bancada, intacto, imóvel. Como um predador em busca de sua presa, Luiza avança em seu aparelho. Nenhuma notificação. A caricatura acima retrata parte de uma realidade. O celular, para muitos é uma extensão do próprio corpo e a tela uma janela para outra dimensão. As pessoas não conseguem mais se concentrar direito, pensar por conta própria e até fazer tarefas do dia a dia.

Na era digital os visores parecem ser a única visão de realidade de seus usuários, assim como a parede da caverna no mito de Platão. Elas andam de cabeça baixa sem se dar conta do seu redor. Esse comportamento atingiu tamanha proporção, que na China criaram a primeira calçada do mundo exclusiva para os “desatentos”.

A ânsia pelo novo faz muitos cometerem loucuras. Pessoas em busca do novo iPhone chegaram a ficar, em média, 5 dias na fila em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Tudo isso para comprar aparelhos que têm duas ou três funções realmente novas, inclusive que poderiam ter sido inseridas na versão anterior.

A Apple recentemente divulgou que nos primeiros três dias, foram vendidos mais de 10 milhões de cópias do iPhone 6. Exato. Toda essa gente trocou de aparelho ao mesmo tempo não porque precisavam, não porque era algo realmente inovador, mas porque podiam e queriam estar atualizadas, ou seja, não compraram o produto, mas a marca, pura e simplesmente.

O mundo atual dá cada vez mais sinais de uma tendência à alienação tecnológica. Árvores conectadas, óculos de realidade aumentada e as demais tecnologias de vestir, deixam-nos constante e irremediavelmente sujeitos aos novos “brinquedinhos” do momento.

O filósofo Zygmunt Bauman descreve em seu livro “Modernidade Líquida”, entre outras coisas, que atualmente não construímos um plano de vida como nossos antepassados, mas mudamos aquilo que somos constantemente, criando uma volubilidade em nossas vidas. Ele também defende a ideia de que em um mundo globalizado, aqueles cujo modelo de vida não se encaixa nos padrões consumistas e efêmero da sociedade moderna acaba sendo sempre marginalizado.

Dessa maneira pessoas que não consomem muito, por exemplo, como índios, mendigos e aqueles que discordam desse ideal tornam-se o que o filósofo chama de “refugo” humano, ou seja, pessoas esquecidas pela sociedade, - abandonadas pelo restante do mundo.

A tecnologia nas últimas décadas evolui em passos extremamente longos, do Windows 95 para o touch, do VHS para o SSD’s (Pendrives) ou da internet discada para o Wifi. Contudo, nada disso evoluí em velocidade constante e nem rápida o suficiente para se justificar uma substituição frequente de aparelhos no mundo, gerando mais lixo em um mundo que já dá sinais de esgotamento.

A questão é se realmente tudo isso é necessário? Trocar um aparelho por outro em menos de um ano apenas porque este possui novos gadgets ou um design mais bonito não me parece um bom motivo, principalmente quando para muitos isso significa centenas de horas de trabalho a serem pagas. Talvez esse seja um caminho sem volta, mas ainda há esperança que algum dia chegue o tempo que não gastaremos o dinheiro que não temos, comprando coisas que não precisamos, para impressionar pessoas que não conhecemos. Cell Phone Free Zone.jpg

Perdemos anualmente centenas ou milhares de horas em frente às telas esperando alguma coisa. Esperamos uma atualização, uma mensagem, um telefonema (já raro). Caminhamos, comemos e nos relacionamos muitas vezes sem olhar a nossa volta, cena comum em restaurantes pessoas em ao redor de uma mesa sem olharem umas para as outras, com o pensamento imerso naquela reclusão de vidro.

Estamos cada vez mais cheio de “amigos” e ocupações. Mas no final das contas nunca estivemos tão sozinhos.

Agora um minuto, por favor, chegou uma mensagem.


Luiz Klein

Jornalista; louco; extrovertido; sagaz. Vive constantemente no caos, mas é na paz que encontra a sua plenitude.... .
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