memórias de um futuro distante

Um segundo olhar sobre a realidade

Luiz Klein

Jornalista; louco; extrovertido; sagaz. Vive constantemente no caos, mas é na paz que encontra a sua plenitude....

O tempo de nossas vidas

E se você pudesse dividir a sua vida em momentos: a infância, a juventude, o primeiro amor; o primeiro emprego, o primeiro carro, a primeira “vez”; casar, ter filhos, o grande emprego; realizou tudo que gostaria? Viver é estar em constante movimento, ter um objetivo em mente, simples ou complexo, o que importa é sempre lembrar que o futuro na verdade é o presente que deixamos nos escapar.


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Ao contrário da maioria dos filmes que utilizam mais de um ator para retratar as diversas fases da vida de uma pessoa, Boyhood se destaca dos demais justamente por abordar tudo pelos olhos de Mason, garoto interpretado por Ellar Coltrane durante 12 anos de gravações seguidas. Focando principalmente nos aspectos cotidianos dos personagens, revelando medos, desejos e sonhos no decorrer da história. Situações comuns como problemas na escola, brigas familiares, questionamentos próprios da infância e adolescência são o que torna esse filme ao mesmo tempo sutil e complexo em toda a sua extensão.

Trailer Boyhood

Já pensou se a sua vida pudesse ser dividida em trilhas sonoras? O longa possui uma música para cada fase diferente - começa tocando Yellow da banda ColdPlay, passando por diversos hits de cada época desde os anos 90, como Ops... I did it again da Britney Spears , Radioactive do Kings Of Leon, até nomes mais atuais como Foster The People e Lady Gaga.

Conforme Mason vai crescendo os aparelhos eletrônicos também vão se modificando e ganhando maior relevância na sua esfera de convívio. As transições tecnológicas não são citadas em nenhuma parte do filme, mas estão presentes em detalhes importantes. Por exemplo, quando Mason está assistindo o desenho Dragon Ball em uma televisão de tubo, as menções sobre redes sociais e quando ele conversa com seu pai através da tela de um celular Iphone.

O grau de importância que damos as redes sociais é outra questão presente em uma das discussões do filme . Enquanto está em seu carro com Sheena, Mason chama atenção para o tempo que perdemos vivendo através de uma tela. Ele diz que gostaria de ter relações reais e inclusive questiona a garota enquanto ela mexe no celular, sobre sua demasiada preocupação com coisas fúteis.

Afinal, por que perdemos tanto tempo no facebook? Conhecemos realmente todos aqueles “amigos”? Às vezes só queremos um pouco de atenção, postamos tudo que fazemos e deixamos de perceber a simplicidade do mundo que nos cerca – Boyhood é um pouco sobre tudo isso, as pequenas coisas.

Mason ao logo da sua infância presenciou muitas mudanças na sua família, devido sua mãe ter tido três maridos, dois deles alcoólatras. As escolhas de Olivia afetaram diretamente seus filhos, ao ir morar com seu segundo parceiro que também era pai de um casal de crianças, os menores tinham que cumprir determinadas tarefas, as meninas sendo responsáveis pelas tarefas do lar, já os meninos cuidando de aspectos mais “pesados”, como arrancar grama. Isso mostra que diversos preceitos estão presentes no nosso dia a dia sem que percebamos, como o machismo, o preconceito e a introjeção de ideias paternas, como por exemplo, quando o padrasto de Mason corta seu cabelo sem sua permissão, simplesmente porque estava grande demais e não tinha condizia com a aparência de um menino. Somos influenciados a todo o momento, mesmo sem nos dar conta e criamos conceitos do que é certo ou errado a partir de cada experiência, concordando ou não.

image-21-12-14-09-06.png Afinal, qual é a importância de nossos atos diante de tantas possibilidades e fatores incalculáveis? O longa mostra que tudo que fazemos retorna em maior ou menor grau para nós mesmos. Pode parecer algo clichê, mas nunca paramos para pensar o que realmente cultivamos, mas coisas boas sempre atraem coisas boas e sempre irão existir pessoas gratas e dispostas a nos ajudar de alguma maneira.

A vida é feita de momentos: a infância, a juventude, o primeiro amor; o primeiro emprego, o primeiro carro, a primeira “vez”; casar, ter filhos, o grande emprego. Viver é uma série de acontecimentos marcantes, que nem sempre percebemos, mas que carregamos para sempre. O tempo é provavelmente a única coisa justa durante a vida, pois acontece igual para todos, e o presente na verdade é o tudo aquilo que deixamos nos escapar, a cada coisa que planejamos.

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Não podemos tocá-lo, nem sentir seu cheiro, mas quando percebemos lá está ele acenando por de trás de um velho porta-retratos ou uma calça surrada que nem lhe cabe mais. O tempo é algo tão sutil que quando nos damos conta, podemos separar cada grande momento de nossas vidas em acontecimentos. Como se não o pudéssemos perceber um a um enquanto ocorrem, apenas quando já não nos pertencem.

Com contribuição de Juliana Lima


Luiz Klein

Jornalista; louco; extrovertido; sagaz. Vive constantemente no caos, mas é na paz que encontra a sua plenitude.... .
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