memórias do subsolo

Reciclando a palavra, o telhado e o porão

Mariana Keller

Observadora e sonhadora, faz de cada sorriso e olhar alheio uma história inventada.

Os Sonhos de Fellini

Os sonhos do cineasta italiano foram de extrema importância para a composição de toda a sua obra cinematográfica.

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É só observar com um pouco mais de atenção os filmes de Frederico Fellini para perceber que os sonhos e a imaginação estão muito presentes.

Para o cineasta italiano, os sonhos sempre foram a melhor parte da vida. O momento em que ele podia contar histórias para si mesmo. Quando tinha seis anos, Fellini nomeou as paredes de seu quarto com os nomes dos cinemas de sua cidade, pois acreditava que assim poderia mudar o roteiro de seus sonhos de acordo com a posição que dormia.

Já com quarenta anos, aconselhado por seu psicanalista jungiano, ele escreveu e ilustrou todos os seus sonhos durante quase três décadas. Foi aí que surgiu o livro dos sonhos, um caderno com capa de couro e páginas de papel de desenho que ele mantinha em sua cabeceira. Dizem que ele chegou a juntar quatro volumes, mas apenas dois foram encontrados. Para os fãs do diretor, em 2007, eles foram transformados em um grande livro de 600 páginas por uma editora italiana que o nomeou de “Il Libro dei Sogni” e que depois também ganhou uma versão em inglês.

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Os desenhos dos sonhos revelam um inconsciente repleto de erotismo, medo, desejos, remorsos, traumas e outros tipos de sentimentos que marcaram a vida do diretor. Mas o personagem mais marcante é a figura de mulheres gigantes, corpulentas e sempre com um ar sexual. Fellini também aparecia frequentemente nos próprios sonhos e sempre muito pequeno e, na maioria das vezes, dominado por esses mulherões ou sendo protegido por elas, fato que podemos associar como uma lembrança de suas musas e de sua própria mãe.

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Além das mulheres, podemos observar as relações conflituosas do cineasta com o mercado cinematográfico, com produtores e outros diretores. Também apareciam artistas que Fellini admirava e pessoas de sua família, principalmente o irmão Riccardo Fellini. Tudo isso acompanhado de anotações com letras bem pequenas e que descrevem as cenas de forma subjetiva.

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Grande parte desses sonhos inspirou Fellini em sua obra cinematográfica. Como as crises de criatividade e as diferentes mulheres admiradas pelo protagonista de “Oito e Meio” e a aparição do mostro marítimo do simbólico final de “A Doce Vida”, por exemplo. Tudo fruto do mundo inconsciente do diretor.

“Existem duas vidas: uma com os olhos abertos e outra com os olhos fechados”, disse Fellini. E quem poderá contestar? Cabe a nós conseguir conciliar as duas tão bem quanto ele conseguiu.

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Mariana Keller

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