memórias do subsolo

Reciclando a palavra, o telhado e o porão

Mariana Keller

Observadora e sonhadora, faz de cada sorriso e olhar alheio uma história inventada.

Mary and Max: Um choque de realidade em forma de animação

O filme "Mary and Max: Uma Amizade Diferente" aborda o autismo e a solidão de forma bastante sensível, utilizando a delicadeza e a sutiliza do stop-motion.


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“A vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas, outras têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro”.

Com essa frase em seu roteiro, o filme “Mary and Max – Uma Amizade Diferente” (Austrália, 2009) nos mostra exatamente as dificuldades que somos obrigados a encarar durante a vida. Com um cenário praticamente preto e branco e personagens nada fofinhos, este definitivamente não é um filme para crianças.

A história gira em torno de dois personagens. Mary Dinkley é uma menina de oito anos gordinha e solitária que não tem amigos e que vive no subúrbio de Melbourne, na Austrália. Max Horovitz é um judeu de 44 anos que tem Síndrome de Asperger (um tipo de autismo) e vive sozinho na cidade de Nova York. Ignorada pelos pais, Mary escreve uma carta para um endereço aleatório nos Estados Unidos com o intuito de matar a sua curiosidade sobre a origem dos bebês. Assim, alcançando dois continentes, ela conhece Max, que apesar da diferença de 20 anos em suas idades, acabam descobrindo paixões em comum e continuam se correspondendo por quase duas décadas.

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Max pesa 160 quilos, é viciado em cachorro quente e chocolate e seu sonho é morar na lua só para não ter contato com as pessoas. Mary não recebe a atenção e o amor dos pais e seu único amigo é um galo. Sua mãe, Vera, é uma mulher um tanto desestruturada emocionalmente que se afoga na bebida e no cigarro e se refere a filha como um acidente. E é justamente por essa falta de carinho e apoio que eles se apegam tanto um ao outro.

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Feito em stop-motion com massinha e poucos diálogos, o longa apresenta temas bastante pesados como a solidão, o suicídio, o alcoolismo, a obesidade e a depressão. Misturando drama e humor sarcástico, o diretor e roteirista australiano Adam Elliot se inspirou em histórias reais para compor seus personagens. Este é o seu primeiro longa-metragem, tendo anteriormente dirigido curtas, como o premiado Harvie Krumpet, que faturou o Oscar em 2004.

A trilha sonora instrumental é um dos pontos fortes do filme. Mas a fotografia também foi muito bem utilizada com apenas duas cores predominantes: o marrom, para o mundo de Mary, propositalmente a cor preferida da menina, e o cinza para o universo de Max, refletindo tudo que ele considerava caótico. É interessante notar também como no meio desse universo de cores uniformes, os objetos que simbolizam a amizade dos dois aparecem como os únicos coloridos e contrastantes com o cenário. Como o retrato de Mary desenhado por ela mesma para presentear o amigo e o pompom vermelho que Max usava em cima do quipá.

A amizade de Mary e Max sobrevive a todos os altos e baixos da vida. Enquanto Mary cresce, Max envelhece. E um apoia o outro em suas dúvidas e conflitos mesmo que nunca tenham se visto pessoalmente. Mas, talvez, a característica mais bonita de ambos seja a inocência. A dela normal de uma criança, acentuada pelos problemas com a família, e a dele provocada pela síndrome. Essa característica faz com que eles se compreendam incondicionalmente e não escondam ou manipulem seus sentimentos, que são expostos por eles sem medo.

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Através de uma linguagem simples e com grande sensibilidade, o filme chama atenção para a dificuldade de todos os tipos de relacionamentos humanos e nos faz refletir sobre as diferenças e a importância de se conviver com elas. “Mary and Max” é um filme emocionante que mostra de forma original e direta como a vida é repleta de dificuldades e injusta aos nossos olhos. Mesmo parecendo um pouco pessimista, o longa, na verdade, é uma lição de esperança que deposita na amizade toda a força necessária para vencer as dificuldades impostas pela vida.

“Deus nos dá familiares… Graças a Deus que podemos escolher nossos amigos”.
(Ethel Mumford)



Mariana Keller

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