memórias do subsolo

Reciclando a palavra, o telhado e o porão

Mariana Keller

Observadora e sonhadora, faz de cada sorriso e olhar alheio uma história inventada.

A Poesia das lentes de Evandro Teixeira

"Sou um homem manejando uma câmera. Quando bem operada, é um fósforo aceso na escuridão. Ilumina fatos nem sempre compreensíveis. Oferece lampejos, revela dores do impasse do mundo.
E desperta nos homens o desejo de destruir esse impasse".
Evandro Teixeira


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Estante cheia de livros, quadros de fotos pendurados na parede, miniaturas do povo nordestino nas prateleiras e toda a sorte de câmeras fotográficas no armário. Essa é a decoração da casa do fotógrafo brasileiro Evandro Teixeira. Os objetos de seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro falam por ele e só de observá-los com um pouco mais de atenção, já é possível desvendar um pouco de sua história.

Retratos do golpe militar no Brasil e no Chile, da seca no Nordeste, de jogos olímpicos, de peregrinações de papas e de desfiles de moda em Paris; tudo isso estampa as paredes de sua casa. Em 50 anos de profissão, Evandro registrou os acontecimentos mais importantes do país e do mundo e já publicou quatro livros. O mais recente “68: Destinos. Passeata dos 100 mil”, publicado em 2008, resgata a trajetória de 100 pessoas que estiveram na multidão reunida na Cinelândia e lutaram pela liberdade em 1968.

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Outro acontecimento histórico de grande importância para o país que foi retratado pelas lentes de Evandro, foi a Guerra de Canudos. Ele não testemunhou o acontecimento como no livro anterior, mas fez um registro histórico do cenário da guerra, que aconteceu na Bahia, e de seus sobreviventes. Foi sua avó que o inspirou a voltar ao sertão do Estado e permanecer lá por quatro anos para fotografar a nova realidade daquelas pessoas, já que quando ele era pequeno, ela costumava contar diversas histórias sobre Canudos.

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E Canudos marcou mesmo a vida do fotojornalista. Emocionado, ele diz que continua voltando lá todo ano, na mesma época da derrubada da Guerra. Entretanto, outro episódio presenciado e registrado por ele também o deixa bastante sensibilizado: a morte do escritor Pablo Neruda. Para Evandro, a despedida de um dos grandes ícones da literatura mundial, morto durante a ditadura de Pinochet, foi a cobertura mais triste e ao mesmo tempo mais importante de sua carreira, a única que fez ele chorar durante o trabalho.

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Hoje, as fotos de Evandro Teixeira fazem parte dos acervos de grandes museus espalhados pelo mundo, como o Museu de Belas Artes de Zurique e o Museu de Arte Moderna La Tertúlia, na Colômbia; além do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do MASP, em São Paulo. Ele também protagonizou diversas exposições. O ensaio sobre Canudos, por exemplo, chegou a ser exposto em Paris.

Todo esse reconhecimento veio como uma surpresa. Durante a infância humilde em Jequié, no interior da Bahia, o fotojornalista nunca imaginou que um dia veria seu trabalho exposto em outros países. Influenciado por fotógrafos como José Medeiros e Walter Lessa, ele diz não saber direito como a fotografia entrou na sua vida, já que na sua cidade, ou melhor, em seu vilarejo, não tinha estrutura.

Mas a verdade é que a arte sempre esteve presente em sua vida. Quando menino improvisava uma sessão de cinema com uma caixa de papelão para seus amigos do colégio e mais tarde, começou a aprender a arte da imagem com Nestor Rocha, sobrinho do Glauber Rocha.
Já a carreira de fotojornalista começou em 1958 no jornal Diário da Noite e logo depois, em 1962, foi convidado para trabalhar no Jornal do Brasil, onde ficou por 47 anos. Os laços se romperam depois que a versão impressa parou de circular.

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Seja com câmera digital ou analógica, no Brasil ou no exterior, dentro ou fora dos jornais, a paixão pela fotografia fez com que o trabalho do baiano fosse muito além do registro de simples imagens factuais. É como disse Carlos Drummond de Andrade, também registrado pelas lentes de Evandro, quando falou sobre a sua admiração por ele: “Evandro Teixeira é o único capaz de fotografar poesia”. E de poesia, convenhamos, que Drummond realmente entende, não podemos contestar a sua palavra.

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Mariana Keller

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