memórias do subsolo

Reciclando a palavra, o telhado e o porão

Mariana Keller

Observadora e sonhadora, faz de cada sorriso e olhar alheio uma história inventada.

Mistérios de um Deserto Colorido

Quando pensamos em deserto, a primeira coisa que nos vem a cabeça é muita terra, areia, calor e pouca vida. Mas não no Deserto do Atacama.


10.2.jpgSalar de Tara

O Atacama é colorido em todos os sentidos: na natureza e em seus habitantes. O azul do céu e dos lagos intocáveis. O verde da vegetação geral e o amarelo vibrante das plantas rasteiras. O branco das nuvens desenhadas, quase como uma pintura no céu. O cinza das fumaças expelidas pelos geisers, o rosa de diferentes tons dos lagos do Salar e das penas dos flamingos que lá se alimentam. O marrom ferrugem das cordilheiras e das enormes pedras esculpidas pelo vento.

8.jpgLagunas Miñiques

10.jpgCaminho para as Lagunas Antiplânicas

17.JPGSan Pedro de Atacama

5.jpgGeisers del Tatio

3.jpgSalar do Atacama

1.jpgValle de la Luna

No destino mais procurado pelos turistas nas proximidades do deserto, a cidade de San Pedro de Atacama, o colorido vem da vestimenta. O artesanato é uma das principais fontes de renda, possui estampas típicas de diversas cores e colore a população nas roupas e acessórios. Além do artesanato, vive-se basicamente de turismo e gastronomia. Assim como nas outras pequenas cidades ao redor, como Machuca e Toconao.

Por menores que sejam as cidades, todas tem uma igreja e casas humildes de barro com telhados de palha, preservando a identidade do local. Não esbanjam riqueza, mas sorrisos no rosto e gratidão por estarem tão perto de uma natureza deslumbrante e preservada.

11.jpgArtesanato Típico

7.jpgMachuca

6.jpgMachuca

8.2.jpgMachuca

Caminhando por lá, cachorros de rua nos cumprimentam a todo o momento. Cachorros grandes, com pelos brilhantes, bem cuidados. Apesar de estarem abandonados, muitas pessoas costumam alimentar os animais que nos fazem companhias pelas ruas. Mas o animal típico de lá é a lhama e outros tipos de camelídeos andinos, como a alpaca, o guanaco e a vicunha.

9.2.jpgToconao

2.jpgLhama

14.jpgLhama

Tempo seco, onde tanto o calor como o frio castigam, quase não chove. À noite, um céu negro absurdamente estrelado. A pouca umidade do Deserto do Atacama faz com que poucas nuvens se formem no local, possibilitando uma vista límpida e privilegiada das estrelas. Justamente por isso, vários observatórios foram construídos por lá.

Além de toda essa beleza que tive o privilégio de conferir de perto, recentemente, descobri um outro lado do Atacama através do belíssimo documentário "Nostalgia da Luz", de 2010, do cineasta chileno Paulo Guzmán.

Guzmán nos mostra que esse deserto também esconde histórias enterradas. O clima seco ajuda a preservar o que está no solo. Desenhos pré-colombianos e restos mortais são encontrados em um estado de conservação impressionante. Mas o mais impressionante mesmo é que muitas pessoas estão em busca desses restos mortais.

13.jpgAldea de Tulor

O documentário conta a história de pessoas que passam dias vasculhando as terras do Atacama em busca de resquícios de familiares desaparecidos pela ditadura de Pinochet, uma das ditaduras mais sangrentas da América do Sul. Pessoas que nunca se quer tiveram notícia alguma de seus filhos, netos, maridos, amigos, sobrinhos, e que mesmo depois de tantos anos, ainda não desistiram de procurá-los.

Enquanto grupos de turistas do mundo inteiro vão para lá admirar a beleza do local, e astrônomos de diferentes países reúnem-se para observar as estrelas em busca de repostas sobre a nossa origem, um grupo de mulheres está em busca de outro tipo de resposta, a reposta concreta sobre a morte de seus familiares. A certeza da perda que ao mesmo tempo traz a dor e o conforto.

Este é o Deserto do Atacama, um lugar que transmite beleza e inspiração em diferentes formas: nas cores, na natureza e até mesmo na esperança. Um lugar único em que início e fim, passado e presente se encontram de uma maneira mais do que poética.


Mariana Keller

Observadora e sonhadora, faz de cada sorriso e olhar alheio uma história inventada..
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