mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Contra as Religiões, um tratado filosófico de ateologia

Para Michel Onfray, filósofo francês influenciado por Nietzsche, Foucault e Freud, Deus não existe. É uma fábula usada para enganar e controlar os povos do mundo. Assim, as religiões promovem as guerras e não a paz. Em seu livro Tratado de Ateologia, Onfray propõe novos caminhos para construir a paz entre os povos.


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Nos últimos dias teve início um novo capítulo de uma novela que existe praticamente desde que a humanidade existe: a disputa entre diferentes crenças religiosas. Os chargistas do Charlie Hebdo não serão as últimas vítimas deste conflito ancestral. Mas, ao que tudo indica, serão o pretexto para levar adiante a “guerra ao terror”, que favorece os interesses das indústrias de armas e a dominação de territórios do Oriente Médio pelas grandes corporações internacionais.

Este cenário me fez tirar da gaveta um livro com o qual tomei contato há uns anos, na faculdade, e que, à época, mais causou estranheza entre os colegas do curso de Filosofia do que simpatias, o Tratado de Ateologia: física da metafísica, de Michel Onfray.

Publicado originalmente pela Éditions Grasset & Fasqualle, de Paris, em 2005, o Tratado chegou ao Brasil em 2007 pela editora Martins Fontes. Não costuma ser levado muito a sério pelos intelectuais mais conservadores e os motivos não são difíceis de compreender. Onfray, em certas passagens, parece pouco metódico e nem um pouco filosófico.

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Nascido em 1959, Michel Onfray também não é nada discreto. Escreveu mais de trinta livros sobre ética, política e estética, entre outros temas. Fundou duas universidades livres e faz muito barulho na França. Entenda-se, são universidades formadas por livres pensadores que não seguem a tradição pedagógica e histórica tradicional e mesmo as contradiz, causando certo desconforto entre alguns doutores da academia. Em 2002 surgiu a Université Populaire de Caen e, em 2006, a Université Populaire du goût, em Argentan, cidade natal de Onfray. Ambas são de livre acesso ao público leigo e colocam em discussão o pensamento filosófico tradicional.

Hoje me parece que a recepção ao Tratado de Ateologia foi e é muito prejudicada pela forma como o texto se apresenta ao público. Seu Prefácio e Introdução soam agressivos e por demais superficiais, dando a impressão de que o livro todo é construído com argumentos frouxos e marcado pelo ressentimento de um ateu contra os crentes. Apoiar a defesa da destruição das religiões e tudo o que elas envolvem (sua tradição histórica e cultural) nos atos de facções terroristas que não representam a totalidade do povo do Islã, ignorando o que se construiu de positivo por meio delas ao longo da história da humanidade, por exemplo, não parece argumento bom o suficiente. Misturando ironia com arrogância, ignorando estruturas e distanciamentos entre conceitos, a princípio, o Tratado parece uma obra escrita por um ignorante, o que tende a irritar os estudantes mais dedicados e a provocar o desprezo de boa parte dos filósofos veteranos.

Mas, não é só... Cumprido o desafio de ler com serenidade Prefácio e Introdução panfletários e nada esclarecedores, sem cair na tentação de atirar o livro pela janela, no primeiro capítulo o Tratado começa a se explicar. Não é uma mera obra de opinião, baseado em “achômetros”, mas um exercício filosófico apoiado em três pilares fundamentais, sendo eles: fundamentos históricos de base nietzschiana; fundamentos epistemológicos com base no pensamento de Michel Foucault; fundamentos psicológicos, baseados na teoria das pulsões de Freud.

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Na Filosofia, para um seguimento de pensadores, o problema da existência de Deus é um falso problema. Em outras palavras, não é possível provar, racionalmente, que Deus existe. Mas, também não é possível provar racionalmente que ele não existe... Desde a Crítica da Razão Pura, escrita e publicada por Kant em 1781, se aceita que a razão humana tem limites e não pode conhecer a verdade absoluta. Numa tentativa de resumir o complexo pensamento de Kant a respeito, pode-se dizer que todo o conhecimento nasce da experiência. Sendo o homem um ser finito (mortal), não pode experienciar o infinito, ou seja Deus (imortal). Portanto, o homem não pode ter conhecimento infinito a ponto de concluir, racionalmente, que Deus existe ou não.

Michel Onfray, frente à impossibilidade de provar a inexistência de Deus, coloca de lado as discussões a respeito e parte do pressuposto de que Deus não existe. Um pressuposto é uma hipótese tomada como válida, de forma a permitir o desenvolvimento de uma pesquisa ou uma linha de argumentação. Todo o conhecimento filosófico e científico é construído a partir de pressupostos. Onfray considera que Deus não existe e busca explicações filosóficas que apóiem tal afirmação, e os encontra em Nietzsche, Foucault e Freud, além de outros pensadores menos conhecidos.

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Nietzsche concorda ser impossível conhecer totalmente um fenômeno. Porém, entende que quanto mais perspectivas se tem dele, maior o conhecimento. O perspectivista Nietzsche propôs uma nova forma de olhar a história que ficou conhecida como Genealogia. Para ele a história oficial foi escrita pelos vencedores, que ignoram a perspectiva dos vencidos. É preciso considerar todas as perspectivas. No âmbito das religiões, isso significa que é preciso considerar a forma como as religiões dominantes se impuseram às religiões mais antigas, por exemplo, o cristianismo que superou o paganismo. Onfray, a partir dos ensinamentos de Nietzsche, estuda a história do cristianismo, do judaísmo e do islamismo. Mostra como cada religião pregou o amor ao próximo, mas praticou a discórdia, a violência, os saques, as usurpações, as guerras que culminaram com mortes em números espantosos. Contraditório, no mínimo.

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Michel Foucault, entre outras coisas, demonstrou como o conhecimento primitivo evoluiu da Antiguidade para a Modernidade. Em tempos antigos se entendia que as coisas eram o que pareciam ser e o conhecimento se construía pelas semelhanças de um fenômeno com outro. Na Modernidade, após Descartes e Kant, se passou a aceitar que o homem percebe das coisas apenas as aparências (tem delas apenas representações) e não o que elas são na verdade (a coisa em si). Portanto, à primeira vista não é possível conhecer. No âmbito das religiões, isso significa que as bases do conhecimento religioso (antigo) estão apoiadas em aparências. Porém, os pensamentos baseados em aparências se organizaram ao longo da história, formando estruturas (que Foucault chama de Epistémes), gerando preconceitos nos quais se apóiam o pensamento religioso.

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Mas, o mais contundente são os fundamentos freudiano, adotados por Onfray. O Pai da Psicanálise, com base em observações clínicas, adotando princípios de metodologia científica e filosófica, elaborou a Teoria da Mente, também conhecida como Metapsicologia. Sigmund Freud, o médico, conclui que a mente, no limite, se compõem de fluxos de energia, que constituem instintos e pulsões. Uma pulsão é uma “corrente de energia” que busca realizar-se de forma criativa (quando é chamada de Eros ou Pulsão de Vida) ou de forma destrutiva (quando é chamada de Tanatos ou Pulsão de Morte).

Uma vez impedida de realizar-se, a pulsão continua ativa no inconsciente onde irá gerar patologias, as chamadas neuroses. Mundos primitivos – onde homens e mulheres estavam expostos aos caprichos do meio ambiente, não compreendendo mas temendo terremotos, vulcões, tempestades e raios, procurando driblar animais ferozes e tribos inimigas para garantir condições mínimas de sobrevivência – são ambientes naturais de frustração da realização das pulsões de vida. Dito de outra forma, a vontade de criação depara-se constantemente com a impossibilidade, causando frustrações e transformando-se em pulsão de morte. Neste ambiente, a mente, carregada de energias frustradas, procuraria descarregá-las por meio da imaginação, da fantasia, da ilusão, que geraria delírios e se concretizaria no mundo influenciando os atos humanos.

Para Freud, delírio de um indivíduo torna-se delírio coletivo. Para Onfray, uma religião é um delírio coletivo. Paulo de Tarso, por exemplo, teria sido um neurótico e um histérico, que acreditando serem reais suas alucinações teria convencido outros a acreditar nelas. O delírio individual torna-se coletivo... O Imperador Constantino, ao tornar o cristianismo a religião oficial do Império Romano, aproveitou-se de um delírio que prega a existência de um mundo no além como recompensa àqueles que obedecem o representante de Deus na Terra, o Imperador aliado ao clero.

Assim, Onfray afirma que as religiões são resultados das fantasias e delírios humanos usados pelos poderosos do mundo para controlar os povos. Os últimos capítulos do Tratado de Ateologia são dedicados a demonstrar as contradições dos livros sagrados, como eles justificam todos os atos (o amor ao próximo, assim como as guerras santas) e como são usados pelos líderes de cada religião, de acordo com suas conveniências de momento.

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A solução proposta por Onfray é que se construa uma nova Ética, um novo acordo, que seja solução para os conflitos religiosos e que faça a paz entre os povos, uma vez que as religiões, comprovadamente, são incapazes disso. A construção deste novo acordo deve ter como base estudos históricos, filosóficos e psicológicos em suas várias linhas de pensamento. Como remédio para a neurose coletiva, o esclarecimento racional de cada indivíduo.

Nos últimos tempos, muito se tem citado o nome de Michel Onfray, mas poucos compreendem a complexidade dos estudos que ele propõe. A substituição de preconceitos não pode ser feita por novos preconceitos. É um erro tomar o esclarecimento proposto por Onfray como mera disputa entre aqueles que acreditam e aqueles que não acreditam na existência de Deus. Para isso o próprio Onfray não contribui muito ao adotar palavras que soam mais agressivas do que conciliadoras para tratar um problema tão arraigado na cultura dos povos e tão propenso a causar emoções descontroladas. O Tratado só tem importância como um chamado para que a humanidade faça sua autocrítica e supere-se pelo estudo, pelos cuidados de si e do outro, pelo bom senso, pela sabedoria.

Bom que se diga que a própria Filosofia não está livre de preconceitos, sendo as ideologias uma praga que a corrói. Mas, ela, enquanto método racional de construção do conhecimento – que inclui o estudo conjunto de diversas disciplinas, a discussão pública, o questionamento, a pesquisa – ainda é o único meio de fazer reconhecer as superstições que alienam, as mentiras e manipulações que distanciam os homens do conhecimento sobre si mesmo e sobre o que influencia suas próprias escolhas e atos. Isso explica porque a Filosofia é combatida por líderes religiosos que se empenham em disseminar preconceitos contra ela, entre os seus fiéis.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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