mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Recriando a Humanidade do Presente Para o Futuro

Muito mais do que a história de um desempregado que se transforma em produtor de vídeo e empresário, O Abutre coloca em discussão os efeitos de um contexto social que distancia as pessoas dos vínculos afetivos, favorecendo a ausência de valores e a competitividade para alcançar um ideal inalcançável de vida feliz.


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Conheça a verdade e ela vos libertará, diz a lenda. E eu digo: nem sempre, talvez nunca... Em tempos de Internet, já passamos da fase do espanto com as possibilidades abertas pelas tecnologias da informação. A revolução está feita e todos conhecemos seus efeitos. Somos rodeados diariamente por uma parafernália eletrônica que processa imagens, sons e textos. Cada vez mais pessoas passam tempo cada vez maior diante de smartphones, tablets e notebooks, ao mesmo tempo em que reclamam do vazio no coração, da depressão, do déficit de atenção, da exaustão por excesso de informação.

Exaustos, cada vez mais somos empurrados numa competitividade sem fim pelo melhor emprego, pelo melhor salário, por consumir e consumir, pela ânsia pelo ter que distancia do ser. Tudo rápido, mais rápido, rapidíssimo, na busca por respostas para a necessidade de manutenção da vida e de um amor próprio cada vez mais fragilizado frente a um ideal inalcançável de vida feliz. E tudo escorre por entre os dedos – as tradições culturais, as referências familiares, os afetos, qualquer estabilidade subjetiva ou material – , quanto mais tentamos agarrar. Nada disso é novidade, pelo contrário já é lugar comum.

E por isso tudo Louis Bloom, o protagonista de O Abutre (Nightcrawler, 2014, de Dan Gilroy), um Jake Gyllenhaal magro, com ares de desequilíbrio mental e em ótimo desempenho, é a cara do nosso tempo. Um solitário individualista, misógino e oportunista. Uma cara meio assustadora, é verdade, mas já nem tanto.

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Roubando fios de cobre e tampas de bueiro vendidos para a reciclagem, Louis acaba se deparando com a oportunidade de dedicar-se à gravação de imagens de crimes e acidentes chocantes a serem vendidas para a televisão. Ele não teve uma boa educação formal, mas aprendeu muito pela Internet, segundo diz. Demonstra entender de gestão, planejamento, estratégia e, principalmente, discurso corporativo e marketing pessoal. É um competidor voraz, um estrategista competente em busca de oportunidades, um comunicador que usa as palavras de acordo com seus objetivos ocultos, que não incluem a ética e o amor ao próximo.

Também diz a lenda que tudo o que um desamparado precisa para torna-se um “bom cidadão” é de boas oportunidades e pessoas que o ajudem nos momentos difíceis. Contrariando esta tese, Louis envolve com seu jeito de jovem humilde ou com seu discurso padrão, manipula com palavras, chantageia e mesmo mata quem lhe deu atenção, quem lhe abriu portas, quem com ele colaborou, mas ousou torna-se um competidor. Ele se mantém focado em seu ideal de homem de sucesso e metodicamente traça estratégias para eliminar os opositores.

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Ninguém que segue os noticiários e mantém um pé na realidade do dia-a-dia, pode duvidar de que pessoas como Louis Bloom existem e estão se tornando cada vez mais comuns. E tudo o que torna-se comum não mais espanta. Ou talvez ele não seja tão comum, pois nem todo mundo tem o talento evidente de um psicopata. Ou o mundo atual, que tudo envolve em seus jogos de poder, tende a plasmar psicopatas?

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Conceito próprio do arsenal teórico-clínico referente às patologias mentais, o termo “psicopata” foi popularizado pela indústria cultural. Refere-se àquele sujeito incapacitado psicologicamente de sentir empatia. Ele não pode sentir, ou se importar, com a dor do outro, pois ele mesmo teve suas dores provocadas e ignoradas, o que lhe causou limitações mentais irreversíveis. Ele que foi vítima se tornou um algoz.

Extremamente inteligente, Louis é um solitário e uma ave de rapina, um abutre, que se alimenta dos despojos que ele mesmo cria. Um desempregado tão competente para furtar quanto para caçar oportunidades no mundo da mídia. E o que é mais envolvente e manipulador hoje em dia do que o discurso midiático, que age padronizando na mente das pessoas a imagem do que é ser um profissional e um cidadão de sucesso? Ela cria seu público e sua demanda.

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Impossível observar a forma fria e aética como Louis Bloom faz suas imagens e não se lembrar da famosa foto de Kevin Carter, o fotógrafo premiado pela imagem da criança sudanesa faminta, cuja morte era aguardada por um abutre que a espreitava.

Apesar das circunstâncias em que foi feita a fotografia (Carter se preocupou primeiramente com a produção da foto, não em espantar o abutre e levar a criança para um campo de refugiados onde pudesse ser tratada), foi premiado com o Pullitzer de Jornalismo de 1994.

Porém, claro está que fotógrafos e telejornalistas não são os únicos profissionais que se deparam com oportunidades de se alimentar da desgraça alheia. Isto pode acontecer em toda e qualquer área, os corruptos brasileiros que o digam! E Kevin Carter nem era um psicopata ou não teria se suicidado naquele mesmo 1994, torturado pela culpa e pelas imagens monstruosas que presenciou em áreas de guerra e miséria.

Já Louis Bloom, o personagem, não parece ter a mesma inclinação de Carter para horrorizar-se com o grotesco e ser torturado pelo arrependimento e pela culpa. E por isso mesmo, O Abutre, o filme, parece ser um alerta e uma chamada para a reflexão. Que tipo de humanidade o contexto da sociedade industrial avançada e informatizada está a moldar? É isto mesmo o que desejamos para o presente e o futuro do mundo, seres alheios aos valores humanos, que inescrupulosamente se servem e manipulam as tragédias, criando suas “verdades”, que não libertam, e nos fazendo acreditar nelas?


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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