mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Sobre o Amor e a Vida Como Obra de Arte


Luchino Visconti, com sensibilidade generosa, fez de Morte em Veneza uma das obras mais delicadas do cinema de todos os tempos. Sujeita a interpretações as mais variadas, inegavelmente fala do sublime do amor e da busca por vivê-lo da melhor forma possível.

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Em 1971, Luchino Visconti, cineasta italiano, filmou Morte em Veneza, o clássico texto de Thomas Mann, publicado originalmente em 1912. Na versão de Visconti, Gustav Von Aschenbach (Dirk Bogarde) é um homem maduro, um maestro que chega a Veneza para um período de repouso após uma crise cardíaca e se apaixona por um pré-adolescente.

Visconti, como Mann, aborda a vida humana em seu curso implacável e seu tempo limitado, que transcorre incessantemente, sem se fazer notar, até que seja tarde demais. Seu belo filme, com belas imagens e embalado pela 5ª Sinfonia de Gustav Mahler, é oportunidade para refletir sobre a condição humana, suas possibilidades de criação e recriação de si e de felicidade.

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Aschenbach, o artista, tendo atravessado as várias fases de uma existência normal, repentinamente se vê frente a frente com Tadzio (Björn Andrésen), o pré-adolescente de beleza e pureza imaculadas. Hospedados no Grand Hotel Des Bains, em Lido, ambos encontram-se com frequência. Observam-se de longe ou de perto, mas não se falam nunca. Cada vida segue seu curso, paralelamente, num equilíbrio delicado e frágil.

Quem viveu e aprendeu mais, percebe melhor as possíveis implicações de cada ato. Assim, Tadzio, protegido pelo véu da inocência, própria da idade, e pelos cuidados de uma família abastada, percebe Aschenbach como uma visão frequente num hotel lotado por ricos turistas. Para ele tal presença parece não ter maior significado, embora lhe chame a atenção. O drama é todo de Aschenbach, que frente ao seu modelo encarnado de ideal de beleza sente ruir todas as suas certezas.

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A situação, que à primeira vista, tem a gravidade da pedofilia, para um espírito educado e não doentio, assume os contornos de um drama estético e moral. Se o ideal do artista é criar beleza, por qual caminho criativo ele deve optar? Sua atenção deve estar voltada para sua própria interioridade, para o cultivo de sentimentos íntimos que lhe sirvam de inspiração e para a tradução deles em arte? Ou é pelo estímulo dos sentidos que o artista capta o belo já existente no mundo para, em seguida, representá-lo artisticamente? “A criação da beleza e da pureza é um ato espiritual”, afirmara Aschenbach em antigas discussões com seu amigo Alfred (Mark Burns), para quem “a beleza pertence aos sentidos, somente aos sentidos”.

E a discussão é ancestral e infindável. Para Aschenbach, “é somente através do absoluto controle dos sentidos que se pode, algum dia, alcançar sabedoria, verdade e dignidade humana”, o artista deve ser exemplo de boa educação e bom comportamento. Para Alfred, sabedoria e dignidade de nada servem, “o mal é necessário” e “é o alimento da genealidade”. Infeliz do artista que não incorre em corrupção dos sentidos, pois somente produzirá obras medíocres.

Mas, o moralista Aschenbach, diante da beleza se dá conta da inutilidade das palavras. Elas podem louvar, mas jamais reproduzir o belo que faz transbordar suas emoções. O amor por um menino, a princípios absurdo e abjeto, passa a ser sentido por ele como sagrado e honrado, tão sublime lhe parece.

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O drama de Aschenbach é o drama fáustico. A ausência de limites no agir significa ignorar as regras do viver de forma responsável, desencadeando consequências trágicas, como acontece no Fausto de Goethe. Mas, como alertara Alfred, a beleza não pode ser construída do nada pelo artista, ela lhe surge “espontaneamente, indiferente ao seu trabalho e ao meu”, pois ela “preexiste à nossa presunção de artista.” Mas, o que fazer diante dela?

As respostas são muitas, discutidas por filósofos, poetas e pelo senso comum ao longo de toda a história da humanidade. Dita de outra forma, como viver plenamente um grande amor, apesar de suas proibições e impossibilidades? “Que espécie de caminho eu escolhi? Que tipo de caminho?”, questiona-se um angustiado Aschenbach, que não se livra da lembrança do belo Tadzio. Para o artista que ele é, a solução parece ser viver o amor platonicamente, observando à distância a beleza do ser amado e se tornando o mais digno possível de refletí-la.

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Diante de tal escolha, Aschenbach teme a si mesmo, mas não teme a epidemia de cólera que ameaça Veneza. Coloca-se em risco e a Tadzio. Seu consolo é observar o belo, redescobrir-se e recriar-se diante dele. Porém sua tentativa de refletí-lo torna-se bizarra e mostra-se vã. Não se pode rejuvenescer um corpo combalido. A doença avança, seu tempo de vida se esvai e a pureza do belo, como tudo o que vive, irremediavelmente, está na eminência de transformar-se.

“Beleza pura e severidade absoluta. Pureza da forma! Perfeição! A abstração dos sentido! (...) Sabedoria. Verdade. Dignidade humana. Está tudo acabado”. Os brados de Alfred no pesadelo de Aschenbach dão conta da trágica condição humana. Seja qual for o caminho escolhido, nunca se foge dela, suas exigências por bem-estar e equilíbrio, seus desejos controlados por convenções sociais, sua frágil estabilidade física, seus autoenganos, sua finitude.

Na Antiguidade, o filósofo Platão ensinou que todas as coisas são cópias perfeitas de um mundo que existe no além e que o amor ideal é o amor espiritual pela perfeição. Na Modernidade Descartes e Kant afirmaram que as coisas não são o que parecem ser. O que se percebe delas são representações, historicamente construídas em ambiente cultural. Assim, os homens aprendem a valorizar aquilo que a cultura lhes sugere, enquanto que as coisas permanecem sem nenhum sentido que lhes seja próprio. Tadzio é um ideal apenas porque Aschenbach o valoriza como ideal.

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Tadzio para Aschenbach, nesta segunda interpretação, seria um símbolo, uma representação de uma beleza imaginada e ansiada. Uma beleza que lhe falta, de que ele necessita e a qual deseja. E a arte, independentemente de como é compreendida e produzida, sempre trás em si a possibilidade de catarse para as angústias causadas pelo vivido, pelo não vivido e pelo desejado. A vida de quem depara-se com suas próprias contradições e conflitos, é ela, a obra de arte perfeita! E como vivê-la? No risco das escolhas, pois não escolher também é escolher. Entre erros e acertos, felicidade, caos e infelicidades, a única certeza é que as areias do tempo nunca deixam de escoar.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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