mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Estranhos em Terra Estranha

De tempos em tempos a humanidade passa por uma crise cultural. Sem referências, homens e mulheres tornam-se estranhos, perdidos de si e dos outros num mundo em transformação. Com O Estrangeiro, Albert Camus ajuda a pensar o que nos tornamos nestas fases e como superar o sentimento de vazio. Qualquer semelhança com o contexto atual não é mera coincidência.


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É verão. Numa tarde de sol abrasador, Arthur Mersault deixa seu trabalho e percorre de ônibus a distância que separa as cidades de Argel e Marengo, rumo ao velório da mãe, que falecera num asilo custeado pelo Estado. Ao chegar, é recebido por funcionários da instituição e encontra os amigos da falecida. Não expressa sentimentos, interesse pelos últimos dias de vida da mãe ou por seus amigos que permanecem velando um caixão fechado.

Ao término do funeral, Mersault retorna a Argel e continua vivendo como se nada houvesse acontecido. Inicia um namoro com uma ex-colega de trabalho, ouve apaticamente o vizinho, um espancador de mulheres, que lhe pede conselhos, e acaba cometendo um assassinato numa praia, sob o mesmo sol inclemente. Seu caso vai a julgamento, quando é considerado não apenas o crime, mas o comportamento geral do criminoso.

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Com esta história – publicada originalmente em 1942 e levada ao cinema por Luchino Visconti em 1967, com Marcello Mastroianni interpretando Mersault – Albert Camus coloca o leitor no centro da relação conflituosa que se estabelece entre as necessidades humana e a cultura de uma época, em momentos de crise.

Mersault se mostra vazio e apático. Ele é a antítese do homem socialmente entendido como “normal”. Nega a adesão aos valores estabelecidos, não aderindo ou reagindo a eles. Flutua pela vida ao sabor das circunstâncias, se deixando levar, sem adesões, sem paixões, sem se importar. Camus não justifica o personagem, não esclarece claramente o que teria influenciado na formação de sua personalidade. É preciso procurar pistas no contexto de época e nas influências do próprio Camus.

Em fins do século XIX, a Europa passara por uma nova revolução tecnológica impulsionada pelo avanço das ciências. A razão, por meio da qual os homens se empenhavam por dominar a natureza e oferecer respostas às necessidades humanas, os distanciava da antiga fé religiosa. A crise de valores que se estabelecia foi percebida por Nietzsche, que então diagnosticou a morte de Deus.

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As antigas explicações religiosas não mais cabiam no mundo. A cultura, desenvolvida com base em parâmetros cristãos, não mais dava conta de explicar o real; não mais era provedora de parâmetros seguros que orientassem o comportamento humano. O niilismo (aqui entendido como negação radical e sentimento de nada) surgia como expressão da recusa de valores cristãos.

Ao apresentar seu personagem ao mundo, Albert Camus remetia à crise da sociedade cristã, diagnosticada por Nietzsche décadas antes e que se renovava naqueles anos da Segunda Guerra Mundial. O absurdo se impunha. Na história de Camus, a mãe, símbolo máximo do amor cristão, é ignorada pelo filho que, no lugar do lamento por sua perda adota um “conformismo realista”, uma aceitação apática. No entender do personagem, ele e a mãe haviam passado seu tempo juntos e não havia o que lamentar, pois a morte chega para todos. Simples assim, e nada mais.

Nietzsche pensava o homem a partir das ciências da natureza. Para este filósofo, o esforço de realização da potência de vida é o fundamento básico da existência humana. Este esforço, identificado por Nietzsche como “vontade”, implica diferentes configurações de energias, próprias de todo ser vivo. Para o filósofo, a essência do mundo é uma vontade cega de viver. Nesta perspectiva, Mersault seria uma anomalia, pois suas configurações de forças, ou seja, sua vontade ou seu esforço de viver, estariam reduzidos à mera subsistência, negando a realização plena de sua potência.

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Para o ato homicida pelo qual é preso, Mersault não tem explicação nem justificativa, pois apenas se lembra do sol que o desnorteava. O “não matarás”, princípio básico da sociedade cristã, para ele não tem qualquer importância. E sua recusa aos valores sociais e religiosos se torna explícita quando, já julgado e condenado, recebe a visita do capelão e verbaliza seu ceticismo: “não acredito em Deus”. E a narrativa se explica por si: “(...) que me importavam a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importava o seu Deus, as vidas que se escolhem, os destinos que se elegem (...) que importava se, acusado de um crime, ele fosse executado por não ter chorado no enterro da mãe? (...) Sufocava ao gritar tudo isso. Mas já me arrancavam das mãos o capelão, e os guardas me ameaçavam”.

O momento em que Mersault perde a calma e ataca o capelão que o visita na prisão é o único em todo o texto em que ele demonstra emoção. É a revolta que anuncia o efeito desconstrutivo niilista. A partir da desconstrução se abre espaço para o surgimento do novo. Tendo se revoltado, Mersault se vê pronto a recomeçar: “Pela primeira vez em muito tempo pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arranjara um ‘noivo’, porque recomeçara. (...) Tão perto da morte, mamãe deve ter se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me sinto pronto a reviver tudo, como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal (...) eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraterno, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era.”

Mersault, diante de um mundo indiferente às necessidades dos indivíduos e que enfraquece suas energias vitais, transcende o absurdo e encontra bem-estar em novas interpretações. Mersault ressignifica o mundo.

São palavras de Camus: “se o homem não quiser morrer nos laços que o estrangulam, terá de cortá-los de um só golpe e produzir seus próprios valores”. Esta mesma defesa é feita por Nietzsche que propõe a transvaloração de todos os valores. O homem deve superar sua própria condição, negando o niilismo e criando novos valores. Só assim pode realizar sua plena potência de vida em sintonia com as características de sua natureza individual e do contexto da época em que vive.

Destinos trágicos como o de Mersault, na perspectiva destes pensadores, podem e devem ser evitados por meio de novos sentidos e uma nova ética que orientem os homens em tempos de crise.

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Helena Novais

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