mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Só Deus Perdoa: expressões oníricas de Nicolas Winding Refn

Associando psicanálise e budismo a uma estética incomum, Refn apresenta um quebra-cabeças sobre existência e superação de si na trilha do conhecimento que liberta da dor de viver.


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Nada como o tempo para fazer justiça a obras mal recebidas por público e crítica à época de seus lançamentos. Exemplo que sempre me vem à mente é Clube da Luta (Fight Club, 1999). O longa de David Fincher, considerado esteticamente feio e excessivamente violento, chegou a ser vaiado nos cinemas, mas alcançou a categoria de cult movie poucos anos depois e hoje é reconhecido como grande obra. Difícil dizer se este será o destino de Só Deus Perdoa (Only God Forgives, 2013), do dinamarquês Nicolas Winding Refn, obra bem mais difícil.

Vaiado em Cannes, o longa tem sido alvo das mais diferentes interpretações e não para poucos parece sem sentido ou incompreensível. Em entrevistas, Refn deu pistas da carga freudiana que o permeia. E me parece, mesmo, que a melhor forma de interpretá-lo é como se faria com um sonho.

Como um arquiteto, Refn concebeu sua criação e transferiu sua fantasia onírica para o mundo concreto, fazendo da obra cinematográfica o veículo que permite ao espectador vislumbrar o íntimo do construtor. Seguido roteiro do próprio diretor imagens intercalam-se, carregadas de detalhes ou não, em encadeamentos lineares ou não, estáticas, dinâmicas, turvas, em movimentos improváveis, acompanhadas por diálogos convincentes ou não. O sonho de Refn parece ser o reino do absurdo, do non sense, mas o encadeamento de símbolos estimula os sentidos e incomoda.

É do significado dos símbolos, revelado por metáforas e metonímias, que se extrai alguma compreensão da mensagem oculta de um sonho. Porém, se Só Deus Perdoa é resultado de racionalização construtiva de expressões oníricas produzidas pelo inconsciente de Nicolas Winding Refn, não se pode deixar de levar em conta que as fontes dos símbolos empregados pertencem a âmbitos culturais distintos. Trata-se, de interpretar o uso que um homem do século XXI, europeu, nórdico e dinamarquês, fez de um conjunto de elementos próprios da cultura oriental, mais precisamente tailandesa, em seu contexto histórico, religioso, social e militar. Portanto, daqui em diante, não posso evitar a menção a detalhes do filme (os spoilers).

Do sonho de Refn emerge a história violenta de Julian (Ryan Gosling), que em parceria com seu irmão Billy (Tom Burke) administra um clube de boxe tailandês (Muay Thai) na cidade de Bangkok. O clube, no entanto, serve de fachada para o principal negócio da família, o tráfico de drogas. O filme foca a crise que se instala quando Billy, também envolvido com prostituição, estupra e mata uma garota de 16 anos para, em seguida, por vingança, ser morto pelo pai da garota. Cabe a Julian vingar o irmão, matando seu assassino. Ele recusa e é inquerido pela mãe (Jenna, Kristin Scott Thomas), que chega à cidade, vinda dos Estados Unidos, para os funerais de seu primogênito.

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Independentemente da morte do irmão, Julian vive sua própria crise existencial. Mantém uma ligação com uma jovem (Mai, Yayayung) com quem não consegue relacionar-se normalmente. Parece oprimido por uma mãe dominadora, que aposta nele sua segurança contra um justiceiro misterioso (Chang, Vithaya Pansringarm), cujos atos se orientam por um estranho código de conduta.

Esta história nada doce fica ainda mais sombria com o uso de imagens mais apropriadas para um filme de terror do que para um drama ou mesmo suspense. Cenários escuros ou sombreados em sua maior parte, predomínio de tons vermelhos e amarelos, sangue e violência, poucos diálogos que quando acontecem são curtos, secos e ou chulos. A certa altura o espectador acostumado a dramas, ação ou suspense, se diz “não acredito que estou assistindo isso”, “não acredito que estou ouvindo isso”, “não creio que alguém filmou isso”! Só Deus Perdoa é uma experiência que sacode as zonas de conforto.

Pela segunda vez Ryan Gosling participa de um filme de Refn interpretando um personagem que quase não fala. Mas, Julian carrega uma aura muito mais pesada do que o motorista de Drive (2011). Sério, seco e brutal, não sorri nunca. Mas, tem senso moral. Ele se recusa a matar o assassino do irmão estuprador, como se recusa a matar uma criança inocente. Calado, parece torturado por algo e em busca de algo. Suas mãos, insistentemente mostradas, são símbolos de uma culpa que demora a se explicar.

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Quem parece guardar o segredo do comportamento de Julian é sua mãe. Ao fingir para ela a existência de um namoro normal com Mai, não fica claro se Julian procura agradá-la, provocá-la, proteger-se do seu domínio, ou mesmo convencer a si mesmo. No entanto, ela que o humilha tomando-o por inferior ao filho morto, acaba por revelar que a seu pedido Julian teria matado o próprio pai, com “as mãos limpas”, razão pela qual deixou a América indo instalar-se em Bangkok.

Toda esta tragédia familiar se desenrola numa Tailândia marcada por uma tradição cultural que tem nas artes marciais não apenas uma forma de luta, mas um código de honra e uma filosofia de vida. O justiceiro Chang não é um deus, mas um Mestre de Muay Tai, reverenciado por policiais e lutadores.

Por volta do século II a.C., os ancestrais tailandeses, originários da China, em busca de liberdade e de terras cultiváveis, migraram para o sul e sudeste asiático passando a conquistar o atual território da Tailândia. Procurando proteger-se de seus inimigos criaram milícias e desenvolveram métodos de luta com e sem armas. Inicialmente semelhante ao Kung Fu, o Muay Thai surgiu e evoluiu neste processo histórico. Associado à religião budista, acabou por torna-se bem mais do que uma prática militar.

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O praticante de Muay Tai procura o caminho do conhecimento e, pelo domínio de corpo e mente, a verdade superior que liberta do sofrimento. Ainda nos dias de hoje, os templos budistas continuam a ser frequentados por lutadores e treinadores que neles realizam suas preces pedindo por proteção e iluminação.

Nesta perspectiva, o envolvimento de Julian e Billy com o boxe tailandês é a explicação para as ações justiceiras de Chang apoiadas pela força policial local, assim como para a estranha ligação que surge entre Julian (um lutador inferior, pois distante do verdadeiro conhecimento que leva à libertação) e Chang, o Mestre. O homem ocidental percebe na sabedoria oriental um caminho para a libertação. A imagem renascentista do David de Michelangelo, exposta num típico clube tailandês, sugere as dimensões desta relação.

A chave para a compreensão do filme não está apenas na interpretação psicanalítica dos sonhos, ou no Complexo de Édipo (o filho que mata o pai por amor à mãe), mas também no conceito freudiano de "sentimento oceânico". Quando Julian abriga suas mãos culpadas no ventre materno, se revela ao espectador o que o personagem procura sem que nem ele tenha consciência disso: a plenitude perdida do feto inocente que um dia ele foi, aquecido e protegido no ventre materno. O domínio tirânico exercido sobre ele pela mãe o colocou no caminho reconhecidamente errado para recuperar tal plenitude. A libertação da dor de viver é a libertação do erro pelo conhecimento. Assim, Julian, em sintonia com o Mestre, extirpa a culpa para adentrar o caminho para a iluminação.

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Se em Drive a violência crua é contrabalançada pela doçura e lirismo de um romance quase platônico, em Só Deus Perdoa não há o que amorteça o choque do espectador que se sente agredido por uma estética cinematográfica incomum, por um emaranhado de significados pouco evidentes, pela desmistificação da sagrada figura materna. Em anos recentes muito se falou em globalização, em diversidade cultural, mas no cinema ainda predominam as categorias de pensamento norte-americanas e europeias. E só isso já explica a reação de Cannes 2013 à exibição do filme.

É a ausência de obviedades que soa como agressão sem sutilezas, o que dificulta o reconhecimento de Só Deus Perdoa como grande realização cinematográfica. De qualquer forma, trata-se de uma obra corajosa por sua forma nada convencional, por sua disposição de sacudir o espectador com personagens inquietantes, com imagens chocantes, com sons desconfortáveis, com diálogos revoltantes, com sensações de pesadelo, para falar do que é universal, comum a todos os homens e mulheres: a busca por plenitude... Como diversas vezes na história do cinema o difícil acabou por ser traduzido e aceito, o tempo talvez faça justiça a Só Deus Perdoa.

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Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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