mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

The Outsiders: Vidas Sem Rumo

Reunindo atores que se consagraram nos anos 80, Francis Ford Coppola fez um belo filme sobre juventude e amadurecimento, amizade e lealdade, perdas e vínculos que não se desfazem.


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Por algumas dessas coincidências da vida, venho me deparado frequentemente com filmes produzidos nos anos 80. Alguns são blockbusters que marcaram época, outros nem tanto. Me decidi por comentar alguns pela importância que tiveram na minha vida e de tantas pessoas que viveram naquela década.

E se o assunto é cinema dos anos 80, creio que The Outsiders, ou Vidas Sem Rumo, de 1983, é uma boa escolha para começar. Dirigido por Francis Ford Coppola – que já havia dado ao mundo O Poderoso Chefão I e II (1971 e 1974) e Apocalipse Now (1979) – , The Outsiders reúne um conjunto de jovens atores que se tornariam ícones daquela década: Tom Cruise, Rob Lowe, Ralph Macchio, Patrick Swayze, Matt Dillon, Emilio Esteves, C. Thomas Howell, Glenn Withrow, e Diane Lane.

Baseado no romance homônimo de Susan Eloise Hinton, publicado em 1967, The Outsiders (algo como os estranhos, os intrusos ou aqueles que estão à margem da sociedade) conta a história de um grupo de jovens, os Greasers, garotos simples do norte de Tulsa, Oklahoma, em luta contra seus rivais, os Socs, garotos ricos da área sul, em meados dos anos 60. É uma história de lutas de classe sem pegada marxista, e muito mais. Trata da busca por identidade e autoafirmação de toda uma geração, que em meio à crise de valores provocada pelas incertezas do pós-guerra e da guerra fria, também se encontrava imersa nas transformações dos modos de vida provocadas pelo avanço da industrialização e da indústria cultural.

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Ponyboy Curtis (C. Thomas Howell) sai do cinema numa tarde de sol, quando é perseguido e violentamente atacado por um grupo de Socs. A ponto de ser torturado e talvez morto, é salvo por seus irmãos e amigos. Steve Randle (Tom Cruise) trabalha em um posto de gasolina com o mecânico e irmão de Ponyboy, Sodapop Curtis (Rob Lowe); Two-Bit Mathews (Emilio Estevez) é um desempregado, sempre pronto para bebedeiras e brigas; Dallas Winston (Matt Dillon) sempre às voltas com a polícia, é quem demonstra, ainda mais do que os outros, um afeto especial por Ponyboy e Johnny Cade (Ralph Macchio), os mais jovens do grupo, com 14 e 16 anos; Darrel Curtis (Patrick Swayze) é o irmão mais velho de Ponyboy e Sodapop.

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Johnny se sente ignorado pelos pais, ocupados demais em brigar entre si. Darrel trabalha na construção de casas. Após a morte dos pais, abriu mãos dos estudos para cuidar dos irmãos e evitar que eles fossem enviados para um orfanato. Porém, Darrel e Ponyboy estão em constante conflito enquanto Sodapop tenta manter a harmonia na pequena família. Dallas se sente ignorado pelo pai e traído pelo irmão. Sua dedicação a Johnny e Ponyboy é talvez sua forma de expressar como ele mesmo gostaria de ser tratado. Assim, os dramas familiares são pano de fundo no drama coletivo destes jovens que são parte de uma gangue, os Greasers.

No dia seguinte, numa segunda ida ao cinema, agora ao ar livre, Dallas, Johnny e Ponyboy acabam por conhecer Cherry Valance (Diane Lane) e Marcia (Michelle Meyrinck). Cherry havia brigado com seu namorado, Bob Sheldon (Leif Garrett), um Soc. Se sentindo também incomodada por Dallas, faz amizade com Johnny, Ponyboy e Two-Bit. Mais tarde, Ponyboy e Johnny são atacados pelo namorado de Cherry. Bêbado, Bob tenta afogar Ponyboy em uma fonte e acaba esfaqueado por Johnny.

Em fuga, Johnny e Ponyboy são ajudados por Dallas, que os escondem em uma igreja. Mais tarde, tentando salvar crianças presas na igreja que se incendeia, os amigos se ferem e Johnny mais gravemente. O conflito entre as gangues chegam ao auge. É marcada uma briga para resolver as coisas. Os Greasers procuram vingar o ferido Johnny e os Socs, a morte de Bob.

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Com bela fotografia, apoiado em roteiro cheio de detalhes e bifurcações importantes (de Kathleen Rowell), personagens bem desenvolvidos e interpretados, The Outsiders é irretocável. Logo na abertura se percebe o cuidado visual, que envolve toda a obra. Um manto dourado parece momentaneamente levantado para que se relembrem dias que ficaram para trás, enquanto Steve Wonder canta, recomendando que se “permaneça dourado”.

Completada com muito Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Van Morrison, entre outros, a trilha sonora é também uma viagem ao passado, àqueles anos dourados em que a juventude rebelde, ainda sem causa, se tornava alvo da indústria cultural que moldava o consumo de objetos, de comportamentos e de valores.

Na parede de seu quarto Ponyboy mantém a foto de Elvis Presley e de James Dean. Homenagens à rebeldia e à subversão. Ele vai ao cinema assistir a The Hustler, de 1961, com Paul Newman interpretando Eddie Felson, um jogador de sinuca com personalidade autodestrutiva. No cinema bebe Coca Cola ou Pepsi. Para um Greaser é importante ser “durão” como Felson, usar brilhantina, calças jeans, tênis converse ou botas, jaqueta de couro ou jeans.

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Cherry lembra que para as moças é importante manter a reputação. Não se faz amizades com qualquer um. Gidget Goes to Rome, de 1963, com Cindy Carol, sobre o envolvimento de uma moça com seu namorado surfista, exibido na sequência de The Hustler, dá o tom. As moças usam saias compridas, rodadas ou justas, maquiagem, tinta de cabelo (seria Cherry uma verdadeira ruiva, como questiona Dallas?).

A sofisticação também se emprega ao vestuário masculino. Os Socs se vestem na última moda e exibem seus carrões. Para os Greasers, mais do que a brilhantina e as vestimentas, resta a atitude, a lealdade entre si, a busca pela própria identidade e por um lugar no mundo, apesar dos dramas e tragédias que pontuam o caminho.

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Mas, eles não são todos iguais, nem Greasers, nem Socs, embora estejam todos no limite entre a sensibilidade e a agressividade. Ponyboy lê E o Vento Levou, de Margaret Mitchell, para Johnny e ambos se encantam com o pôr do sol. Randy Anderson (Darren Dalton), amigo de Bob questiona os próprios atos diante da atitude heróica dos Greasers que arriscaram suas vidas para salvar crianças.

E o centro de todo o filme está no poema de Robert Frost, de 1923, nada Que é Dourado Fica. “O primeiro verde da natureza é dourado / Para ela, o tom mais difícil de fixar / Sua primeira folha é uma flor /Mas só durante uma hora / Depois folha se rende a folha / Assim o Paraíso afundou na dor / Assim a aurora se transforma em dia /Nada que é dourado fica.”

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Aquilo que é primitivo, autêntico, e mais verdadeiro está fadado à transformação. O amadurecimento surge entre perdas e ganhos, partidas e chegadas, desventuras e dor. O estar em desequilíbrio consigo se transformar no estar em conflito com outros. No vácuo das transições, raro e precioso é aquilo em que se apoiar. O sublime está no imutável: as amizades leais que permanecem na vida ou na memória, os vínculos que não se desfazem.

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Helena Novais

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