mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Black Metal Norueguês: rebelião e resistência

Documentário de Aaron Aites e Audrey Ewell, Até Que a Luz Nos Leve mostra que por trás de um estilo musical incompreensível para muitos há rebelião social, escolhas políticas, opções estéticas improváveis e, acima de tudo, a alma humana descortinada.


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Sou uma latino-americana, uma brasileira, que muitas vezes se esquece de que são muitas as luzes que podem iluminar cada partícula de poeira do universo. Talvez por isso, para mim, Até Que a Luz Nos Leve (Until The Light Take Us, EUA, 2008) tenha soado tão impactante. Desses impactos que ficam entalados na garganta por dias, semanas, meses e passam a fazer parte de uma alma que morre e renasce todos os dias, irremediavelmente marcada. Que eu não me esqueça de que é preciso compreender o mundo pelos olhos dos outros, sempre e cada vez mais!

O meu primeiro contato com o black metal aconteceu nos idos de 1985, numa exibição de vídeos na lendária e ainda ativa Woodstock Discos, loja paulista especializada em heavy metal. O proprietário, o hoje radialista Walcir Chalas, então recém-chegado dos Estados Unidos, exibia o vídeo The Ultimate Revenge, que além de Exodus e Slayers apresentava ao mundo o Venom, banda considerada precursora do metal negro, o black metal.

Influenciada pelo ocultismo do Black Sabbath e pela violência sonora do Motorhead, Venom levava ao extremo o discurso anticristão, ostentando símbolos pagãos e comportamento provocativo. E seu black metal era (e é) uma coisa pela qual não se ficava indiferente. É uma provocação que conquista a adesão de poucos fiéis apaixonados e o repúdio de muitos. Na época, eu me juntei a este último grupo, pois a mim, confesso, o estilo provocava aversão.

Vocais estridentemente gritados ou urrados, baterias à velocidade da luz ou arrastadas, guitarra num modo “serra elétrica” de arrepiar os cabelos, baixos trovejantes pontuando letras anticristãs e ostentação de simbologia pagã. Agressivo e tenebroso, para mim o tal black metal soava como mera questão de um mau gosto incompreensível.

Mas o estilo se firmou em sua primeira geração com grupos como Celtic Frost, Bathory e Mercyful Fate, além do próprio Venom. E o chamado estilo “extremo” tornou-se ainda mais extremo... Numa segunda fase foi na Oslo norueguesa que o black metal encontrou condições propícia para um mergulho radical no lado mais obscuro e renegado da alma humana.

Península cercada por ilhas de terra altas, com muito verde e mar, a Noruega parece hoje inevitavelmente atrelada à imagem dos intrépidos guerreiro, exploradores e conquistadores vikings, cuja cultura pagã reconhecia vários deuses e deusas. Um lugar belo e frio com condições geográficas desafiadoras, que condicionam as percepções e sentimentos a uma história de glórias passadas e ao desafio diário de adaptação à natureza. Foi ali que em fins dos anos 80, início dos 90, se desenrolou a trágica história do desenvolvimento de um estilo musical “maldito” que por si só já soa como prenúncio de caos.

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Reunindo depoimentos de algumas das figuras mais importantes da época: Gylve “Fenriz” Nagel, baterista e fundador do Darkthrone; Varg “Count Grishnack” Vikernes, fundador e único membro do Burzum; Jan Axel “Hellhammer” Blooberg, baterista do Mayhem; Bard “Faust” Eithun, baterista do Emperor, Até Que a Luz Nos Leve desarma o expectador para a compreensão estética e política de um movimento cultural que extrapolou as fronteiras da criação artística, para consolidar-se como rebelião contra a dominação cristã (em que caiu a Península Escandinava e a Islândia a partir do século X) e o imperialismo capitalista. Um contexto que só pode ser compreendido num esforço empático de ver o mundo pelos olhos daqueles jovens nórdico.

“Eu me pergunto como seria a pintura de Munch se ele não sentisse a agonia de estar vivo, a leveza de estar vivo, comparada com a morte inevitável”, diz Fenriz, à certa altura. Questão que vai direto ao ponto.

Edvard Munch (1863 – 1944) é expressão máxima da arte norueguesa. Pintor expressionista, inserido na geografia e na cultura daquele país, Munch viveu assombrado pela doença mental e pela morte que o privaram, desde muito cedo, do convício com a mãe e, mais tarde, de duas irmãs. Se Munch tinha medo da loucura, da angústia, do desespero, da solidão, da melancolia, do horror, das forças incontroláveis da natureza, não deixou de encará-los nos olhos e retratá-los em suas telas. Um artista não foge da sua agonia, concretiza-a. Sua arte foi produzida visceralmente, seus pincéis e tintas antes foram as turbulências de seu estado interior.

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Parece, mesmo, que os artistas nórdicos têm vocação para encarar o lado obscuro da vida. Uma coisa é certa, a escuridão dos longos invernos, o silêncio dos fiordes, o frio, o mistério das florestas, os dias sem fim dos verões amenos, tudo isso, de alguma forma, em fins dos anos 80, contribuiu para conquistar adolescentes, aqueles descendentes de vikings, que viram num estilo musical brutal e anticristão por natureza, o mental negro, sua forma ideal de expressão artística.

Na Noruega, o black metal, que até então era música e entretenimento (que na verdade sempre foi levado muito a sério pelos fãs do estilo espalhados pelo mundo), tornou-se uma exploração existencial da alma humana e dos medos que poucos se aventuram a encarar e expressar. A fragilidade da vida, o horror pela condição humana, a agonia, a opressão, a revolta, a violência, a atração pela escuridão e pelo grotesco, o desespero suicida, sentimentos destrutivos que Freud teria classificado como thanatos (pulsão de morte), ganharam voz estridente sob a aparência de mero comportamento anticristão.

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Mas não foi só. Naqueles dias, a arte extrapolou suas próprias fronteiras, acabando por converter-se em campo de conflitos ideológicos vivido no mundo objetivo, culminando com incêndios criminosos de igrejas, assassinatos e penas de prisão. É esta a história real que Até Que a Luz nos Leve nos conta, de forma cuidadosa, sensível e em certos momentos até com certo lirismo épico.

De um lado a revolta musical aliada ao ideal político de Varg Vikernes e seu Burzum, de outro o puro mergulho musical e criativo de Fenriz e seu Darkthrone e, de outro lado, o não muito bem explicado anseio de Øystein “Euronymous” Aarseth, o guitarrista e líder do Mayhem, dono do selo Deathlike Silence e da loja Helvete, por liderança. Vikernes que perdeu de vista a realidade e tornou-se um assassino condenado à pena máxima; Euronymous, que bem ou mal compreendido perdeu a vida nas mãos de Vikernes; Fenriz, que sem perder de vista a criação artística salvou-se em meio ao caos e já gravou quase duas dezenas de álbuns independentes com o Darkthrone, além de outros projetos.

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Difícil avaliar a importância disso tudo, pois esta é uma história que não tem fim e que é passível de ser analisada por muitos ângulos. Como zombar do mal, tenha ele o nome que tiver, quando se mergulha nele a um preço tão alto? Como realizar revolução estética e cultural no interior de uma estrutura social viciada, que tudo transforma em banalidade e moda, diluindo sentidos?

De qualquer forma, aqueles primeiros dias da cena norueguesa de black metal tornaram-se lenda e inspiração para toda uma legião de músicos independentes, undergrounds e extremos. Vikernes, tendo cumprido sua pena, foi libertado e hoje encontra-se na França, de onde defende a cultura nórdica sem nunca afastar-se de polêmicas; Faust, que também cumpriu pena por assassinato, voltou à cena musical, ao Emperor e a outros projetos musicais; Fenriz conquistou respeito como músico independente e tem uma sólida carreira.

O movimento, assimilado, passou a fazer parte da política governamental norueguesa para atrair turistas. E o black metal verdadeiro, que é arte underground visceral e filosofia, continua sua história, ora contra a indústria cultural, ora flertando com ela de forma superficial e plástica, mas raramente driblando o medo que as pessoas têm de encarar não a música extrema, mas a si mesmo, suas verdades mais profundas e sua própria natureza.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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