mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Veronica Roth e a Literatura Por Segmentação de Mercado

A antiga discussão entre arte e produto cultural industrial ganha novos contornos nos nossos dias.


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Li todos os quatro livros da série Divergente com uma questão sarcástica brilhando numa pontinha do meu cérebro: Será que quando Shakespeare (1564-1616) escreveu e publicou “Romeu e Julieta” o fez para um público específico de adolescentes, afinal os personagens principais são adolescentes vivendo os arroubos de apaixonados de primeira viagem, típicos de adolescentes?

Uma resposta positiva é muito improvável. A concepção de adolescência é uma construção histórica que despontou no período pós-segunda guerra mundial, época em que as empresas disputavam ferozmente fatias de mercado e viram no público jovem e suscetível um bom alvo para modas pré-fabricadas de todos os tipos, ou seja, consumidores em potencial, facilmente influenciáveis por campanhas de marketing. E Marketing que, diga-se de passagem, surgiu por volta dos anos 40, quando Abraham Maslow apresentou ao mundo sua hierarquia das necessidades humanas. Na época, outros pesquisadores juntaram ao proposto por Maslow os resultados de suas reflexões, muitas fundamentadas na Psicologia.

Em 2011, aos vinte e um anos, uma estudante de Psicologia (mera coincidência!) lançava "Divergente", o livro I... Claro que Shakespeare e os escritores de sua época tinham alguma noção de que precisavam viver e, por isso comercializar sua arte, mas não dispunham do arsenal teórico e da estrutura administrativa de marketing de Veronica Roth e os demais escritores dos nossos dias, baseados em segmentação de mercado. E Segmentação de Mercado que é um conjunto de técnicas para investigar minuciosamente as tendências de gosto do público-alvo.

Oras, se o escritor deve escrever sob encomenda, para agradar um segmento de público específico, o que ele faz é arte ou é produto? A discussão sobre arte e produção industrial é antiga. A arte sempre esteve presente, mas só passou a ser vista como arte, ou seja, como expressão da vivência íntima de seu criador, que plasma no mundo seu universo interior por um processo de catarse, no século XVIII, com a fundação da Estética (ou Filosofia da Arte) por Baumgarten. O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) defendeu bem o ponto de vista artístico ao dizer que só tem o direito de escrever aquele que tem na escrita uma necessidade vital, aquele que não conseguiria viver sem escrever.

"É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista." (Rilke em "Cartas a um Jovem Poeta")

A produção industrial e a industria cultural também surgiram no século XVIII. Porém, com pouco ou nenhuma relação com o ato de criar que coloca no mundo uma representação do que é mais intrínseco à alma do criador. Entre a intimidade da alma humana e o objeto industrialmente construído para atender necessidades que não são as do próprio criador (ele é pago para produzir alienadamente segundo instruções de quem o paga), distribuído e comercializado de forma administrada e burocrática, há um universo.

Mas, hoje uma escritora lança seu primeiro livro, planejado para um segmento de mercado, o transforma em best-seller por estratégia de marketing e três anos mais tarde a história já está em lançamento no cinema para distribuição global! Oras, segmentação de mercado funcional! Assim, literatura e cinema ficam reduzidos à condição de ferramentas de um mesmo arsenal de vendas, em detrimento da criação artística espontânea que é espaço de livre expressão da interioridade do artista. E funciona porque se baseia no “ponto fraco” do público-alvo, naquela sua necessidade, tão bem detectada pelas técnicas de segmentação de mercado, de que alguém lhe dê o que o conforta. Mas, nem sempre ou quase nunca o que nos faz crescer é o que nos conforta.

E será que segmentação de mercado deve passar a ser entendida como técnica de criação artística, como o emprego da perspectiva, por exemplo, pode ser entendida como técnica de pintura?

E será que tudo isso quer dizer que o produto minuciosamente calculado que é a série Divergente é totalmente destituído de valor? Não necessariamente... Mas, atribuir-lhe significados está muito no poder de quem a interpreta. E é aí que está o problema do produto industrial, que se passa por arte: suas consequência a médio e longo prazo. Ao ser encomendado para confortar, num tempo em que tudo é encomendado e administrado para confortar, cai numa terra de zumbis produzindo outros zumbis. Todos dormem, anestesiados, e os significados e sua dinâmica de associações se perdem num nadar na superfície. O efeito lembra muito a simulação de ataque, que Veronica Roth descreve bem, quando a facção Audácia, dominada pela Erudição por meio de uma alucinação coletiva, ataca e mata os membros da Abnegação. A arte raramente conforta, ela sacode, inquieta... Mas com assassinato coletivo Veronica estaria procurando confortar?

Um argumento que Veronica Roth poderia usar em defesa de seu trabalho, e com toda justiça, é que ela não determina o que as pessoas abstraem de seus textos. No máximo ela pode ser culpada por tomar parte no sistemão. Mas, é verdade que nossas escolhas podem nos destruir, nos reconstruir e que "consertamos uns aos outros". Cada um conta, em algum nível, com a alternativa de continuar sendo zumbi ou despertar, dizendo um grande “não” para a simulação... Sejamos divergentes!

Não é este o texto que eu gostaria de escrever sobre Divergente, a série até o momento composta também por "Insurgente", "Convergente" e "Quatro"... Apesar do sarcasmo, eu gostei dos livros. Isso significa que a eterna adolescente que há em mim foi atingida pelas técnicas de segmentação de mercado... Mas, sou consciente disso e estar consciente numa simulação faz toda a diferença... Mas, isso já é outro assunto. De qualquer forma, sigamos o conselho de Veronica Rooth e "sejamos corajosos"!


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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