mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Entre Abelhas: a inesperada seriedade do humor

Colocando a graça de lado, Porta dos Fundos propõe refletir sobre nós, que somos estranhos até para nós mesmos, que estamos em constante transformação, até sem perceber, neste mundo que se move incessantemente.


porchat.jpg

A princípio, humor e seriedade parecem elementos contrários. Mas, pensando melhor, talvez a relação não seja exatamente de contradição... Humor é a ação destinada a fazer o outro rir. Para isso, o humorista usa palavras, gestos, cenários, roupas, sons, objetos, todo um arsenal visando um objetivo: transmitir uma mensagem de um jeito divertido e que faça rir.

Porém, a imagem que num primeiro momento se tem do humorista – de um bobo alegre que já saiu do útero materno contando piadas e fazendo rir de chorar – não se justifica. Humor é coisa de gente inteligente, que pensa, calcula, planeja, cumpre metas e atinge objetivos, nem sempre sorrindo. Há tempo para rir, há tempo para pensar como fazer rir.

No Brasil, inegavelmente, Porta dos Fundos, é o maior fenômeno humorístico dos últimos anos. O coletivo/produtora tem até no nome algo que não combina com o humor bobinho. O nome Porta dos Fundos guarda algo de meio amargo mesclado ao meio sarcástico e ousado, um certo “quer ver o que posso fazer, apesar de acharem que não?”. Antônio Pedro Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Ian SBF e João Vicente de Castro pagaram para ver e se deram bem. Fundaram a produtora em 2012 e em poucos meses já contavam com o canal brasileiro mais visitado do YouTube, firmavam-se no mercado e abriam espaço em toda a mídia. Hoje, contando ainda com Clarice Falcão, Letícia Lima, Rafael Infante, Júlia Rabelo, entre outros, eles estão em todas. Rádio, televisão, revistas, jornais, livros. E sempre demonstrando sintonia com a realidade do país e fazendo crítica social bem humorada.

Entre Abelhas (2015) é seu produto mais sério e, por sua diferença, talvez o mais arriscado. Se o humor é uma capa, que de modo pensado encobre o sério, Entre Abelhas é o filme que dispensa a capa. Nele o propósito não é fazer rir, mas fazer pensar em meio ao drama que não tem graça.

entreabelhas.png

Com roteiro de Fábio Porchat e Ian SBF, protagonizado por Porchat e dirigido por SBF, foca uma fase da vida de Bruno, um editor de imagens que em meio ao processo de separação da esposa (a atriz Regina, interpretada por Giovanna Lancellotti) começa a perceber que algo mais está acontecendo. Aos poucos ele vai deixando de enxergar as pessoas, elas vão desaparecendo, tornando-se invisíveis para ele. O motorista de táxi desaparece, os passageiros de ônibus e metrô também. Aconselhado pela mãe (Irene Ravache), Bruno procura ajuda de especialistas e a resposta vem fácil: num processo depressivo, seu cérebro está rejeitando aquilo que não quer ver.

“— Toda abelha tem uma função específica dentro da colmeia. Elas já nascem sabendo exatamente o que elas têm que fazer. O zangão, a operária, a rainha... / — E você, já sabe que tipo de abelha você é?”

Os olhos enxergam, mas a mente não registra. Declina da estranheza do mundo, mergulha na estranheza de si, num espaço de proteção que lhe é interna e inerente. Quem sou, onde estou, o que realmente importa, o que eu faço agora? A mente deprimida do personagem recusa a imagem da garota de programa que aparece na foto tirada com amigos em um clube noturno; não quer ver o motorista de táxi que o conduz pelo mundo exterior, nem o aglomerado de gente sem rosto e sem alma que passa por ele roboticamente nos transportes coletivos.

A mente de Bruno também não quer ver o garçom comprável pela promessa de alguns trocados a mais e se cansa do amigo adúltero, dos colegas de trabalho e de suas exigências. Bruno também não quer ver o pedestre que ele atropela, nem a mãe caída na sala, aos poucos ele não quer ver mais nada. Ele não pode suportar mais a estranheza e aos poucos se percebe sozinho numa cidade vazia, onde ainda pode ouvir poucas vozes aqui e ali... “Será que deixando de enxergar todo mundo você passou a se enxergar mais?” Ele se perde na confusão das perdas e perdido de si talvez se dê a chance de um novo recomeço. Talvez não.

2015-811801640-fabio-porchatentre-abelhascreditodan-behr-3.jpg_20.jpg

"— Eu me sinto meio que como uma abelha de outra colmeia, que se perdeu e teve que parar aqui para não morrer, para não sumir. / — De que colmeia você veio, Bruno? / — Não sei... Mas eu preciso dar um jeito de voltar para lá... / — Por quê? Você acha que voltando as coisas vão voltar a ser como eram antes? Nunca as coisas vão voltar a ser como eram antes. Tudo mudou. Você também mudou. / — Mudei... / — Mudar pode ser bom!”

Entre Abelhas não é sobre o certo e o errado, o melhor ou pior, mas sobre como reagimos ao mundo, nós que somos estranhos até para nós mesmos, que estamos em constante transformação, até sem perceber, neste mundo que se move incessantemente sem chance de retorno ao estado anterior.

Sem os trejeitos do humorista, interpretando um homem comum que passa por um momento difícil, Porchat se sai bem, convence e mostra que Porta dos Fundos também pode produzir dramas, tragédias, o que for, com competência e boa qualidade.

Por outro lado, não são incomuns comentários de Internet acusando Fábio Porchat e seus colegas de produzir um humor difícil, incompreensível. Entre Abelhas leva a pensar se quem diz isso realmente pode vê-los ou realmente pode ver o que se passa neste país... Afinal, ninguém está livre do conflito entre o ver e o conseguir querer enxergar, entre o enxergar e o aceitar processar mentalmente. Há limites para o que cada um suporta.

No caso do personagem Bruno, há uma causa para as suas recusas: a decepção e a dor originadas pela perda da fé numa relação de amor. Será a negação sempre causada pela perda da fé, pela perda das esperanças, pela dor? Se assim é, são muitas as elucubrações a que Entre Abelhas pode levar. A dor e a perda da fé nas relações interpessoais, profissionais, éticas, políticas, religiosas, afetivas, humanas estão presentes em todos os tempos... A negação implica não ver para não sofrer, mas também significa dar-se o tempo necessário para curar-se e renascer.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Helena Novais