mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Stieg e Millennium Sem Larsson

A Garota na Teia de Aranha é o mais novo livro da série Millennium de Stieg Larsson, mas não foi escrito pelo autor e abre novas perpectivas para os autores de fanfics.


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Nos últimos 80 anos, escritores de todo o mundo produziram uma grande quantidade de contos e romances tomando a Segunda Guerra Mundial como questão de fundo. Creio que não erro ao pensar que uma parte pequena deste material se refere aos efeitos do conflito nos países nórdicos, considerando suas particularidades culturais. Anos atrás, quando Karl Stig-Erland Larsson, ou simplesmente Stieg Larsson (1954 - 2004) apresentou ao mundo o primeiro volume de trilogia Millennium, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, chamou a atenção justamente para as marcas do nazismo deixadas naqueles países.

Jornalista e editor sueco, Larsson dedicou boa parte de sua vida a combater os movimentos de extrema direita que ainda assombram o norte da Europa. Antirracista ferrenho, em 1995 fundou a revista Expo para denunciar as ações de extrema direita na Suécia. Conviveu com ataques e ameaças. Por precaução e ou por idealismo, como conta seu biógrafo Jan-Erik Petterson, nunca se casou legalmente com sua companheira, a arquiteta e ativista política Eva Gabrielsson, com quem manteve um relacionamento que durou por três décadas. Entenda-se: casamento e família são invenções burguesas e, historicamente, os militantes radicais de esquerda, da velha guarda, além de o repudiar faziam o possível para não expor as pessoas que lhes eram mais queridas.

Segundo conta Petterson, a série Millennium foi inspirada nas investigações do jornalista Larsson, de seu gosto pela literatura policial sueca e, como não poderia deixar de ser, por seu idealismo político e ético. O escritor acabou por desenvolver os dois personagens mais nietzschianos de que eu tenho notícias, Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

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Salander, mulher, pequenina, anti-social e sozinha no mundo, de frágil não tem nada. Nascida em uma família pra lá de problemática, dona de uma capacidade mental privilegiada e de uma vontade de viver de ferro, considerada como incapaz e mentalmente perturbada pela sociedade, ela não se acomoda ao papel de vítima. Não faz parte do rebanho, não se prende a uma moral que ela não criou. Busca a informação onde está e se serve dela, transcende valores, cria suas próprias regras. O que Lisbeth Salander não pode resolver com a força bruta de seu físico franzino, resolve com auto-controle e inteligência. Bissexual, independente e individualista está muito além das questões de gênero.

Blomkvist, interpretado por Daniel Graig no cinema, de 007 não tem nada. Jornalista e editor, fundador da revista Millennium, dedicada ao universo financeiro e suas falcatruas, Blomkvist é um outsider e um idealistas à sua própria maneira. Enquanto os moralistas podem compreendê-lo como machista e promíscuo, o fato é que ele é o outro lado da moeda. Um homem que por gostar de mulheres, as trata de igual para igual e é de uma dedicação e lealdade absoluta às suas amigas.

No universo de Millenium converge uma diversidade de temas complexos como sexualidade e gênero, misoginia, psicopatia, tráfico de mulheres e prostituição, ideologia de direita, especulação financeira e corrupção. Tudo acontecendo ao mesmo tempo, demonstrando a visão de mundo de um autor nada ingênuo e profundo conhecer da sua época.

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Composta por Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, em 2010 a série Millenium foi adaptada e exibida pela TV sueca em seis episódios, com Noomi Rapace (Prometheus) e Michael Nyqvist nos papéis principais. Chegou ao cinema pelas mãos de David Fincher, com Rooney Mara como Lisbeth Salander. Mas, a dupla Salander/Blomkvist, que surgiu na mente de Larsson como expressão de suas próprias experiências de vida, certamente morreu com o criador que deixou este mundo prematuramente, em 2004, logo após a conclusão do terceiro volume da série, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Larsson não chegou a ver o sucesso alcançado por seus livros, pois eles só foram publicados após sua morte.

E a morte de Stieg Larsson deu início a uma batalha judicial pelo controle de sua obra e de seu patrimônio, três best-sellers e seus rendimentos. De um lado Eva Gabrielsson, de outro o pai e o irmão de Larsson, Joakim e Erland Larsson. Até junho de 2011, mais de 60 milhões de cópias já haviam sido vendidas em 50 países. Atualmente são mais de 75 milhões de livros vendidos.

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Há poucos dias a editora Companhia das Letras passou a anunciar nas redes sociais o início de pré-vendas de um quarto volume de Millennium, chamado A Garota na Teia de Aranha, criado pelo jornalista e escritor contratado David Lagercrantz. O lançamento mundial está previsto para 27 de agosto. E é claro que a polêmica está posta.

Eva Gabrielsson, lutou bravamente para manter o controle sobre a obra e perdeu. A lei sueca não dá a ela qualquer direito sobre o espólio de companheiro por não terem sido legalmente casados, independentemente de quantos anos viveram juntos. Porém, ela se recusou a ceder os escritos para um quarto livro deixados por Larsson em seu notebook. Embora tenha declarado, anos atrás, ter a intenção de finalizar o livro e publicá-lo ela mesma, hoje diz que a obra do companheiro foi finalizada com sua morte. A Norstedts, editora sueca, não entendendo as coisas assim, contratou um escritor para escrever um quarto livro, ignorando os textos deixados por Larsson e a vontade de Eva Gabrielsson.

Independentemente da qualidade do livro escrito por David Lagercrantz, o fato é que este escritor não é Stieg Larsson, não conta com seu universo subjetivo e sua visão de mundo. A orientação dada a Salander e Blomkvist por Lagercrantz obviamente não é a mesma que Larsson teria dado. E claro que a editora nem tenta afirmar o contrário.

O que esta ocorrência está colocando em questão é a própria validade do direito autoral. Verdade que ao fixar sua criação por meio de uma linguagem e apresentá-la ao mundo o artistas perde o controle total sobre a obra, que torna-se sujeita às interpretações de outros e ao uso que outros farão dela. O nosso sistema capitalista sempre tudo fez para incutir a ideia oposta, ou seja, o autor controla sua obra, afinal ele é o seu criador e cabe a ele todos os direitos e a responsabilidade moral pelo que criou.

Até aqui os direitos morais das obras, via de regra, sempre foram respeitados. Mesmo com o falecimento do autor os herdeiros tendem a zelar pela fidelidade da obra à visão do autor, até como forma de manter seu valor de mercado. A família de Larsson e a editora Norstedts abrem um precedente que, certamente, não passará em branco aos escritores de fanfic (as histórias escritas por fãs), com resultados que sabe-se lá quais serão a médio prazo. Afinal, se um escritor contratado pode escrever uma pretensa sequência para a obra de um autor falecido, mais legitimidade ainda não teriam os admiradores de autor original?

As histórias criadas por fãs que utilizam personagem protegidos por direto autoral, devido aos altos custos dos processos judiciais, têm circulado livremente e sem intuito de obter lucro. É um campo aberto à espontaneidade que conta com sites especializados e estrutura crescente na Internet, onde ainda reina aquele espírito dos primeiros tempos de Web, quando era possível inventar e ultrapassar fronteiras. A literatura do século XXI está em construção também nestes espaços e num processo imprevisível.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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