mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Conhecer-se Para Transformar-se e ao Mundo

Que não se chore apenas quando morre uma criança cuja família ousou partir em busca de uma vida melhor, mas a cada dia que deixamos de lutar para conhecer profundamente as causas da nossa inércia diante da estagnação ética em que está mergulhada a nossa espécie. Por culpa da nossa inércia crianças e adultos se desesperam e morrem todos os dias.


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Se a intenção fosse refletir sobre os movimentos populacionais, suas origens e consequências, a partir de uma perspectiva política, o pensamento de Jean-Jacques Rousseau seria um bom ponto de partida. São suas as palavras:

“O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, assassínios, guerras e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “defendei-vos de ouvir este impostor; estarei perdido se esquecerdes de que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”

Seria fácil, então cair na tradicional questão socialismo x liberalismo e discorrer sobre as mazelas que normalmente se atribui a eles, como disputas por territórios e recursos naturais, dominação cultural e ideológica, exploração comercial de um povo por outro, desenvolvimento da indústria bélica, guerras, ausência de condições de vida, morte ou êxodo populacional... Mas, não... Tenho para mim que propriedade, suas consequências sociais, econômicas e políticas são efeitos de algo humano, muito humano, algo intrínseco aos homens e mulheres de todos os tempos.

Nietzsche apontaria a origem de tantas convulsões socais na vontade de potência, ou seja, aquele ímpeto para desenvolver plenamente todas as capacidades que o corpo humano possui e, para tanto, conquistar, conquistar, conquistar... E transcender... Freud diria tratar-se de instintos e impulsos inconscientes e individuais que se chocam com o que seria necessário à manutenção da ordem e do bem-estar em espaços sociais. Em outras palavras, o homem que é indivíduo em corpo e espírito está em permanente movimento para conquistar e satisfazer-se em ambientes onde seus interesses se chocam com os interesses de outros. O conflito, assim, é inerente à vida.

Ambos, Nietzsche e Freud, consideram o ser humano na sua intrínseca configuração de energias biológicas. Nietzsche diz que num mesmo ser humano as configurações se alternam constantemente. Num momento o homem é forte e por isso nobre, quando predominam as energias positivas de vida, de construção e de atenção às necessidades do corpo e da mente; no momento seguinte ele pode ser fraco, quando predominam a negação das necessidades do corpo e o ressentimento por aqueles que têm e são mais.

De qualquer maneira, o ser humano, do alto de sua prepotência de rei da cadeia biológica evolutiva, é muito parecido com as formigas... A formiguinha que morde aquele bolo deixado sobre a mesa e se apossa de seu bocado de alimento, ou ataca outro inseto ferido para dele alimentar-se, é a mesma que se une a outras no interesse comum de cavar o formigueiro e nele abrigar seus pertences, insurgindo-se, em grupo, contra aqueles que ameaçam o que é “seu”. Conquistar e dividir!

Na luta, seja entre formigas, seja entre seres humanos, alguns ganham, outros perdem. Os vencedores imperam, os perdedores sofrem e, reagindo ao sofrimento, movimentam-se pelo planeta em busca de melhores condições de vida. Rechaçados pelos vencedores, os vencidos resistem e, muitas vezes, perecem... Foi assim na Antiguidade, como é assim nos dias de hoje. Essa parece ser a ordem “natural” das coisas. Mas a “ordem natural” também está em constante transformação. A humanidade saiu de seu estado de natureza há milênio em busca de compreender e dominar esta mesma natureza e as leis naturais do mundo. Porém, se muito foi conquistado quanto à qualidade do que se tem (a ciência e a tecnologia nos oferecerem produtos que os homens das cavernas veriam como mágicos e incompreensíveis,) pouco parece ter sido construído quanto à qualidade do que se é.

E é este o maior problema da nossa espécie: a busca pelo ter subjulga a busca pela evolução constante do ser. A espécie humana está amarrada num nó cego que não nos permite avançar quanto ao que somos, rumo ao mais elevado e sábio para cada um e para todos. Vontade de potências, desejos inconscientes... Sofremos todos, aqueles que vagam pelo mundo em busca de mínimas condições de vida, aqueles que se afundam na própria mediocridade que faz vítimas entre os vencidos, talvez sem notar que ela atrofia almas. No geral, o ser humano tende a ser cruel nas suas lutas, ambicioso e orgulhoso de suas conquistas. Crueldade, ambição e orgulho que cegam, tirando de vista que aquilo que fazemos tem consequência, por mínimo que seja, no interior da família, da comunidade, do meio ambiente como um todo. Eu sou, porque tu és!

Que não se chore apenas quando morre uma criança cuja família ousou partir em busca de uma vida melhor, mas a cada dia que deixamos de lutar para conhecer profundamente as causas da nossa inércia diante da estagnação ética em que está mergulhada a nossa espécie. Por culpa da nossa inércia crianças e adultos se desesperam e morrem todos os dias, sem um lugar no mundo e sem esperança no coração. Em meio à atual crise migratória, vivemos uma crise ética e uma crise de paradigmas de pensamento, justamente no auge do desenvolvimento tecnológico e científico. Não há solução pontual que resolva permanentemente tais questões de forma isolada. É preciso conhecer-se e à dinâmica das coisas do mundo para desatar o nó que nos prende e nos impede de encontrar soluções duradouras.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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