mensagem na garrafa

Divagações de lugar algum

Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente

Deus não está morto, será?

Cada vez mais assistido pelos cristãos, mas bem pouco analisado, Deus Não Está Morto, o filme, oculta o mais importante.


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Deus Não Está Morto, o filme, é a história de um jovem estudante de Direito que deve estudar Filosofia como uma das disciplinas de seu curso e entra em conflito com um professor arrogante, orgulhoso e autoritário. O estudante acaba por se ver na situação, imposta pelo professor, de ter que assinar uma declaração dizendo concordar com a inexistência de Deus, o que ele recusa. Em consequência, passa a ter que defender filosoficamente a existência do ser supremo.

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Sim, muitos filósofos são arrogantes e orgulhosos. Destes, alguns já tinham a arrogância e o orgulho como traços de suas personalidades quando chegaram à academia. Outros se tornaram arrogantes à medida que empregavam tempo e esforço na compreensão de raciocínios intricados e teorias complexas, geralmente ignoradas pela maior parte dos mortais. Mas, também há filósofos que aprenderam que seu tempo e esforço são elementos insignificantes frente aos limites da capacidade humana para compreender o infinito. Estes são conciliadores, pois estão comprometidos com a superação de seus limites, com a busca contínua pelo conhecimento (que é transmitido como herança cultural ao longo dos séculos e periodicamente revisto e atualizado) e dedicam completa lealdade aos processos de pesquisa e reflexão.

A famosa frase “Deus está morto” foi dita por Nietzsche em fins do século XIX. Filósofo alemão, autor de O Anticristo, entre outras obras, Nietzsche é um dos filósofos mais mencionados da atualidade mas, arrisco dizer, pouco lido e menos ainda compreendido. Defendeu que aqueles que estão sinceramente convencidos de sua crença merecem respeito e que Cristo foi um homem digno de ser amado. Sua crítica está mais relacionada aos cristãos, que imitam desastradamente o Cristo ao contrário de optar por uma vida autêntica e consciente. Segundo Nietzsche, ninguém pode realmente saber o que se passava na mente de Cristo, ou conhecer a totalidade da sua mente, menos ainda entendê-lo integralmente. Imitações Dele são pálidas e distorcidas sombras.

Já “Deus não está morto” é a frase dita mais recentemente pelo nosso contemporâneo Michel Onfray, filósofo francês autor de Tratado de Ateologia (que eu já comentei aqui). Ao contrário do que pode parecer, a frase “Deus não está morto”, dita por Onfray, não é contrária a “Deus está morto”, dita por Nietzsche, considerando que eles não se referem a um mesmo tempo histórico e que Onfray não é opositor de Nietzsche, pelo contrário, é continuador de seu projeto filosófico. Explico: Nietzsche não quis baixar um decreto que determinasse a morte de Deus, como muitos dizem. Sua frase expressa seu diagnóstico de uma época histórica. Em fins do século XIX o desenvolvimento das ciências e das técnicas distanciava os homens da fé. Predominava a crença de que todos os problemas da humanidade poderiam ser resolvidos por meio do pensamento racional. Entendia-se que Deus tornava-se desnecessário e os homens o colocavam de lado, ou seja, o matavam em seus pensamentos.

Onfray diz que na atualidade, diante de tantos problemas que não foram solucionados pelas ciências e pelas técnicas, as pessoas, amedrontadas e inseguras, voltaram a recorrer a Deus como possível meio de solução dos seus problemas. Também diz que muito provavelmente não é possível “matar Deus”, pois ele é um fantasma que assombra a humanidade. A ideia de um Deus está tão enraizada nas estruturas de pensamento que talvez não possa ser eliminada. Deus vive por que os homens o recriam todos os dias em seus modos de pensar e viver e em suas fantasias.

Daí que o mais importante não é determinar se Deus está morto ou vivo, mas questionar O QUE é Deus. Por sua vez, Deus Está Morto, o filme, comete muitos pecados! Se aproveita da imagem de pessoa incomum e difícil que persegue os filósofos em geral para colocar todos num mesmo saco de gatos, como seres cegos pela arrogância e que dizem coisas que não merecem atenção. A tentativa de desmerecer e disseminar o preconceito contra o trabalho de Nietzsche, Michael Foucault, Freud, Descartes e Hume, entre outros, é obvia.

O filme ignora que o processo de reflexão de um filósofo é tão importante quando a conclusão a que ele chega. O processo de reflexão considera contextos, conceitos e variáveis, associações de ideais numa estrutura lógica, intencionalidades, motivações conscientes e inconscientes, no mínimo. Isso tudo desaparece no filme como itens insignificantes. A quem interessa cegar as pessoas e manter o público na ignorância? O mal usava muitas máscaras...

Nem todo ateu não acredita na existência de Deus porque em certo momento de sua vida Deus negou fazer aquilo que lhe parecia justo. E a máxima “se Deus não existe tudo é permitido” é errônea. As noções de bom e mau foram construídas ao longo da história e embora em diferentes culturas a suposta vontade de um Deus tenha sido tomada como determinante do que deve ser entendido como bom e mau, é intrínseco ao ser humano a capacidade de empatia, ou seja a capacidade de colocar-se no lugar do outro e dimensionar a dor que se pode causar ou evitar. Um ateu pode ser um ateu simplesmente porque ele não acredita no que não percebe em lugar algum, e isso não faz dele uma má pessoa.

O único ponto positivo do filme é mostrar, para quem quiser ver, que as palavras se somam a outras, construindo frases, que somadas a outras frases, formam discursos que podem ser levados em qualquer direção e dar voltas em torno de si infinitamente. Esse processo de construção discursiva não está livre de ser influenciado pela imaginação, pela fantasia, pela ilusão e pela alucinação, que são fugas da realidade em busca de um lugar seguro.

A ciência e a filosofia não provam que Deus existe e nem provam que não existe, assim como a religião também não é capaz de fazer nem uma coisa nem outra. O filme também mostrar que acreditar em Deus é um escolha que as pessoas fazem porque elas precisam acreditar em alguma coisa que vá salvá-las do sofrimento e da insegurança da vida, ou mesmo por opção estética. Não há como não admirar o exemplo de um homem que aceita morrer por crucificação pela salvação da humanidade.

Mas, também há quem prefira olhar os horrores de frente e procurar soluções racionais para os sofrimentos do mundo, já que morrer na cruz, a tirar pelos horrores que continuam acontecendo ainda nos dias de hoje, não foi solução que bastasse. No fim, a vida não é um show de candidatos a astros da música pop onde um pode convencer o outro, milagrosamente, do amor de Deus num mundo onde crianças passam fome diariamente, onde guerras eclodem justamente por motivos religiosos. Deus, seja ele de qual religião for, ainda não conseguiu unir e promover a paz na Terra entre povos de religiões diferentes. E não há mensagens via celular que dê jeito nisso!

O mudo real, me parece, é aquilo com o qual as pessoas devem se preocupar com mais urgência. Talvez ajude muito, volto a dizer, pensar O QUE é Deus, se a nossa compreensão está correta e se a nossa religiosidade realmente é adequada. Já “Deus Não Está Morto”, o filme é mera peça de alienação, ou peça de publicidade fabricada sob encomenda para manter as pessoas entorpecidas nas suas fantasias tranquilizadoras em benefício de quem ganha com isso.


Helena Novais

Observadora do mundo e das coisas do mundo, da vida e de tudo que se move, dos sentidos e dos conflitos, dos dramas humanos e das ausências, dos artifícios e das transformações, em permanente busca pelo transcendente .
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