Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

A mulher e o seu sagrado poder ancestral

Desde sempre a mulher exerce um papel primordial no desenvolvimento da espécie humana. O fio condutor desta positiva interferência passa pelos mais importantes estágios desta caminhada até hoje. Mesmo em detrimento dos reveses históricos ela foi e sempre será o fator determinante de cada passo da evolução. Com seu eterno poder de “criar” e “procriar” é a grande força motriz que nos conduz na garantia da nossa sobrevivência.


DSC00124.JPG

Sentia vozes ao meu lado... Grunhidos, suspiros e até gritos. Todos os que estavam à minha volta tocavam-me. Estava nua, untada com óleo de plantas e gordura animal. Tentava levantar a cabeça, mas umas mãos fortes e pesadas a mantinha baixa. Sobre a pedra crua continuava deitada, molhada de vermelho e com o cheiro enjoativo dos sacrifícios das caças. Sentia todos os meus poros se abrirem, e exalarem ácidos. Uivos ao longe pareciam de lobos famintos, ou das primas hienas risonhas e cínicas, esperando a reles sobra que lhes saciavam a gana e a gula. Entre as minhas pernas sentia um bastão áspero de madeira que forçava entrada e que me causava dor e estranho contentamento. Não sentia presença de mulheres ao meu redor. O cheiro era de homens. Estávamos todos num torpor coletivo, e uma aura de energia compacta cobria os nossos corpos como numa nuvem pesada, única e fechada. Uma fumaça era jogada no meu rosto, causando- me náuseas e sufocamento. Ânsias de vômito me envolviam completamente. Tinha espasmos, mas não podia vomitar o que não comera. Foram dias de jejum para estar pronta e pura. Contávamos os dias do mênstruo como mandavam os saberes herdados e presentes na memória. Ninguém me vira enquanto era mantida escondida numa loca de pedra.

AR0011.jpg

Chegara, pois o dia tão esperado. A estação estava prestes a mudar e os astros se apresentavam de forma propícia. Regimentos de espíritos pululavam de um lado para outro, por cima, por baixo e através de meu corpo, no afã do recebimento das libações. Eu tinha certeza que o plantio e a colheita estavam garantidos. Tremo. As convulsões eram necessárias para tudo ser aceito pelos espíritos e pelos deuses. Sinto um corte feito abaixo do umbigo. O falo de lenho entra de vez enquanto vozes gritam em uníssono, sons incompreensíveis. Um molho quente de vísceras cai do alto, de algum ventre de animal, rompido com afiado sílex, sobre minha barriga e, mesmo desacordada, sinto um líquido quente escorregar entre as minhas curvas que se contorciam com todas as espécies de sensações. As tochas tomam um vulto maior de alaranjado, e se unem num único fogaréu, sinal da presença dos antepassados e do aceite dos “sacrifícios”.

527839_416858371715483_470580676_n (2).jpg

O mais novo iniciado homem-mulher munido de um pincel de pelo de animal, sangue, carvão e cal escrevinhava sinais na parede côncava e lisa de pedra da gruta. Um uivo se ouve e um silêncio mortal se segue. Enquanto o meu corpo se acalmava, a mente entrava num transe paralisante e as mãos dos homens iam deixando o meu corpo ali, inerte, sozinho, na pedra já fria. Abro meus pesados olhos e entrevejo o homem-mulher recolhendo aquela massa vermelha de cima de mim. Sinto o bastão sair como que da garganta, me deixando vazia...vazia! Desfaleço.

DSC00128.JPG

O sol entra por uma fresta esquecida e me acorda de um sonho animal. Repouso já sobre plantas odoríferas e flores e uma pele de antílope me cobrem, dando-me o calor tão esperado destes dias de resignação. Sete dias depois, limpa, coberta, alimentada, sou conduzida a um pedestal de pedra granítica, alto, de onde recebo chuva de folhas, doces vapores, cantos, risos.Todos dançam enquanto o sol surge belo, tímido e quente dentre nuvens que estiveram suspensas no mesmo lugar por meses. Toda a sociedade dança em círculos, se abraçam, riem, riem e riem. Vi outras mulheres, jovens, sempre jovens, mulheres que a morte ceifa tão cedo. Teremos uma ensolarada primavera, enxames de abelhas, borboletas e tantos outros tipos de insetos voadores. As caças chegarão saltitantes e aladas. Comeremos muito. Teremos um inverno farto. Serão alguns meses de idílio até se fechar novamente o círculo. E por milênios faremos assim. Talvez mudando as “falas”, os personagens, os blocos graníticos e o sangue dos animais. Restam na minha mente os odores, o contato quente com a pele macia de cervo, os óleos limpantes e cheirosos, os cânticos e as louvações que meu corpo recebeu. Conheci de cima das pedras uma altivez, um poder sobrenatural. Algo que me fazia pensar na importância de meu papel dentro de uma sociedade que precisava sobreviver e dar continuidade à nossa espécie. Conscientizei-me do peso de meu sexo no processo que vivi. Mas, a mais espetacular sensação foi olhar de cima dos monólitos o restante do meu povo. Principalmente os homens. Por quê? Não sei explicar!


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Angelo Rafael