Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

ELE CUIDOU DE SEUS VELHOS. QUEM CUIDARÁ DELE?

Elucubrações sobre o tempo, as relações familiares e o cuidar.


TREM OK.jpg O filho do meio foi uma surpresa. E a mãe decretou: “- Eu o fiz para mim!”. Um casal pobre, que lutou muito no fim dos anos cinquenta quando se uniram para ter o que comer e construir uma estrada para a vida. Muito sofrimento, lutas, tragédias, perseverança,trabalho... Dois filhos sucumbiram à icterícia e à falta de condição digna de sobrevivência. Ficaram seis para contar uma saga que só eles, talvez, possam descrever em palavras. Descrever as raias da pobreza é uma coisa. Descrever o poço da miséria é outra. Era um casal antagônico demais para não viverem sessenta anos juntos. Um fio sutil de prata dividia o grande amor das decepções de um mundo que mudava a cada dia e que não conspirava para que toda a prole crescesse “em sabedoria e graça diante de Deus”. Nem a fé chegou a ser suficiente em certas horas. Velho OK.jpg Um caboclo, semianalfabeto, parido na roça por uma mãe de vinte e dois filhos que partiram, quase todos, para construir Brasília, São Paulo, a Ponte Rio-Niterói... Homem de poucas palavras. Duro. Quieto. Bruto até. Mas como era bom! Caridoso! Uma mulher à frente de seu tempo, nascida em 1929, como que a augurar-se os duros anos que viriam naquele período de depressão econômico-mundial. Filha única de um segundo casamento. Extrovertida, vaidosa, alegre, tinha alma de artista. Seu dom artístico: rir e sobreviver! Fizeram de tudo. No fim, ou no começo. Ele Auxiliar de Topógrafo abriu quase todas as estradas da Paraíba. Ela, costureira, depois professora, formou uma leva de alunas prendadas para a vida. VestidoOK.jpg Para os filhos o que poderia vir de melhor. Podia faltar tudo, e quase faltou comida. Guaraná, uva-passa e bolo só para os filhos doentes. Trabalharam para deixar o que entenderam primordial para o futuro da prole: a educação. Três engenheiros, uma Mestra em Letras, Biblioteconomia e Literatura, um corretor de seguros que sacrificou a carreira no futebol por vocação e um ARTISTA. Quatorze netos. Quatro bisnetos. Seminário.jpg O filho do meio foi internado aos 13 anos num colégio religioso a 3.000km de casa, para estudar. A esperança era sair um padre, mas o conhecimento e os estudos em idade tão precoce da filosofia, das línguas, dos grandes pensadores, dos saberes primordiais e raros o fizeram a tão já cantada e proseada “ovelha negra” da família. O queriam engenheiro. À revelia sempre fez o que quis. Estudou Arte, leu muito, foi muito em tudo, ganhou o mundo, foi excomungado da Igreja e – delicadamente - mantido longe da família. Moleque e homem hiperativo, comportamento agressivo e decidido só fez o que amava fazer e sem querer desenhava o seu tesouro que seria desfrutado anos mais tarde. Como no filme Balada para Narayama (do diretor Shohei Imamura. Prêmio Cannes-1983), no tempo certo os velhos se recolheram para subir a montanha sagrada do miserável vilarejo nipônico e cantar e esperar a morte. Como honrar a tradição e deixar ainda um filho solteiro? Na família se acreditava que o filho longe, que de quando em vez voltava, terminaria sua vida noutro continente, noutras paisagens. Mas os ventos sopraram contra e eis que o retorno à cidade natal e ao seio familiar foi primordial para que os pais pudessem ter um alento na escalada da montanha referida no filme. Como poderia amar o pai ausente, violento? Como poderia superar a sua complicada relação edipiana com a mãe? No entanto, como no rosário desfiado por Severino Retirante da obra de João Cabral de Melo Neto cada conta era um dia, um mês, uma cidade, uma consulta ao médico, um eletrocardiograma, um passeio de moto com a mãe idosa na garupa gritando” – Como é bom!!! Corre!!!”. E logo o verbo cuidar foi conjugado por todos da família. Chegaram os tempos! Único solteiro e disponível acreditava que a renúncia era uma das grandes provas de amor que um ser humano pode dar a outro. Assim se lançou na mais desafiadora experiência de sua vida: Honrar sua mãe e procurar junto ao pai a compreensão, a ausência e o perdão, por meio do cuidar. MãosOK.jpg Um câncer violento a ceifou em um mês. Da Paraíba a Pernambuco teve os melhores cuidados. E ria com o nome das ruas do Recife: dos Aflitos, da Hora, das Flores, da Aurora. Partiu rindo como sempre, sem ter noção da gravidade dos males que nela se instalaram. Mas ele ficou na sua amargura eterna, incapaz de um gesto ou uma palavra de afeto para com os outros. Duro. Na espera da comitiva funerária no jardim florido da casa ele recebeu do filho a aliança de sua amada no dedo mínimo. Não se falou uma sílaba sequer. Não era necessário falarem-se. Ficou só. Perdido com as suas lembranças, devaneios que chegavam confundindo nomes, situações e datas. Sofreu oito quedas, queimaduras ao preparar comida, pesadelos, toda a sorte de doenças da alma e do corpo de alguém de 84 anos, alquebrado pelas labutas do passado e pela incapacidade naqueles momentos de emitir um só lampejo de reclame. Esta fase durou a eternidade de 16 meses. O filho mudou-se a contragosto do pai e o milagre aconteceu para ambos. Foram aos poucos se conhecendo. A casa foi esvaziada de todos os pertences da antiga dona. Na bagagem do filho o medo e receio de não conseguir. angeloOK.jpg Uma relação, jamais pensada, instaurou-se. Chegou a hora do filho usar o brinco guardado, fazer a tão sonhada tatuagem de sua primeira juventude e arrancar do coração do pai o que de bom ficou trancafiado durante a vida toda. Viram filmes da Discovery e Épicos. Do acasalamento das baleias jubarte à Queda do Império Romano. Hora para comer, repousar, dos remédios, das visitas médicas, da fisioterapia... A ausência da mãe e da esposa uniram os dois rivais que sabiam que teriam de subir juntos a sagrada montanha de Narayama ou se jogarem “fora da ponte e da vida” como cogitou Severino Retirante ao chegar a Recife, numa celebração da vida de um dos mais belos encontros da literatura brasileira de que se tem notícia: O diálogo de Severino com o Mestre Carpina (Morte e Vida Severina). Não, não valeria saltar fora da ponte e da vida. E assim continuaram. Cardiologistas, nefrologistas, toda a sorte de especialistas, enfermeiras, e aqui ou acolá um pasto com temperos e muito sal nas iguarias para saudar o domingo. Riram muito. Mas choraram também nas oito quedas, no silêncio da casa amarela, na falta da Grande Mãe, dos animais, do papagaio e da corriola de agregados. Foi uma luta grande para fazer da bengala, vinda do Chile, a extensão de seu corpo. Mas quando se viu elegante, cabelo, pelos das orelhas, narinas e fios das sobrancelhas aparados riu e disse que estava “joia”. E no seu silêncio seu filho começou a entendê-lo. No seu dar-se ao pai percebeu a grandiosidade dos sacrifícios e renúncias. Dois AVCs o levaram ao hospital várias vezes. Um ocorreu no banheiro e como o filho temia houve o momento fatal com a nudez do pai recatado e as fezes de quem não conseguiu contê-las com a dor. Foram encontrados pelos paramédicos, vizinhos e a única filha que descreveu a cena como a mais amorosa e bela Pietá na versão masculina: o filho no chão com o pai consciente sobre as pernas, envolto nos braços em toalhas úmidas e manchadas com seus translúcidos olhos verdes fitando o infinito, talvez o cume da montanha. Mas a remissão de todas as faltas se deu mesmo no leito, com olhares subtendidos, e a entrega total de suas forças que abriram estradas e um diálogo esclarecedor e confortante. “– Papai quer que eu chame um padre?” “– Não!!! Você sabe que eu não gosto de padres nem de freiras. Eu já me confessei com Deus. Mas tem uma coisa que eu só posso falar cara a cara com Ele. Carece não!”. Ambos choraram contidamente. A enfermeira ao chegar diz algo revelador ao filho: “Sabe. Na hora do cocô todos correm. Eu trabalho aqui há 16 anos e o senhor é a segunda pessoa que eu vi ficar para aprender e ajudar...” Este momento foi crucial para o entendimento de toda uma vida. Somos tudo. Não somos nada. O Perdão redime. O conhecimento liberta toda forma de prisão. Foram dias de Unidade de Terapia intensiva com alta tecnologia que de certo modo ampliava e adiava o sofrimento do doente e de seus caros. Mas foi feito o que havia de melhor e ao alcance de todos. CasaOK.jpg Cerimônia simples. Ataúde lacrado com uma foto, a bengala e o chapéu italiano sobre o mesmo. O Campo Santo, com seu estilo jardim já tinha um canto reservado onde ele tinha comprado a sua última morada, para não preocupar ninguém. Hoje, a outrora casa amarela e sombria é um claro e aconchegante estúdio do filho cujo um único pensamento ainda o acompanha do alvorecer ao pôr do sol: “Quem cuidará de mim?”.


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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