Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

ROUGE

Rouge era seu nome, mas poderia ser Vermelho, Carmim, Escarlate, Dona Encarnado ou qualquer outro que lembrasse o seu batom, o seu coração e o seu sangue.


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“- Como é seu nome criança? - Rouge. Je m’appelle Rouge. - Ah, você é francesa? - Não. Nasci em Piancó. - E esse nome? - É coisa de Dona Carminha. Ela muda o nome das meninas aqui. Chegam Marizete como eu e acabam Rouge. - Você é diferente criança. - Um pouquinho. Mas não sou uma criança. Tenho vinte e dois anos. - Falas bem. És apessoada e tens modos. - Foi a criação. Estudei na Escola de Aplicação. Podia ser professora... - E por que não é? - É uma história longa. Como é sua graça? - Bem, para você sou Hildebrando. Seu criado. - Enchantè! - Eu é que estou encantado. Sua voz, sua educação, as duas romãs do seu rosto.

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- Obrigada. Mas como eu dizia, não gosto de crianças. Fui estudar porque meu pai me obrigou. - E sua mãe? - Ela morreu quando eu nasci. Minha irmã mais velha me criou. Pague-me um Bacardi? - Certamente! - Mas eu aprendi as coisas do mundo desde cedo. E estou aqui por que gosto. Não é que preciso não. - Gosta? - Sim. Gosto de conquistar os homens. Gosto deles felizes nos meus braços. - Entendo. - Não. Não entende não. Tudo é maior do que o que eu represento. Quando se sabe do poder de sedução a gente fica convencida. E se vicia em tirar partido disso. Não sou uma como essas aí não. Às vezes nem cobro. - Mas, por que me diz estas coisas? - O senhor é educado. Fino. Trata-me bem e me dá confiança! Não gosto de homens que chegam logo com as mãos no meu decote, na anágua...O senhor é casado? - Sim. - Adoro os homens casados. As esposas não lhes faltam com o respeito. E aqui eu não me preocupo com respeito e eles gostam. Uns só querem um colo, conversar... Não entendo de mulheres não. Entendo de homens. - Gostaria de ficar a sós com você. - Vamos subir. Tenho o meu quarto próprio. Venha! - Que beleza! Todo vermelho! - Não. Rouge!”

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Marizete sofreu abusos sexuais constantes do pai. Fez dois abortos com Dona Maria dos Tricô. Em casa tudo era para ela, a irmã mais nova. E tudo se cumpriu como ela previra. Enquanto a mais velha, que tudo via, sabia e fingia não entender, não estudou e era a dona da casa. Marizete sim e quando ganhou a sua parte da herança em vida fugiu, deixando a irmã com o pai doente e uma criança abandonada numa caixa de sapato na porta de casa. Sabia de sua sina. Intuição. Tudo que ela amasse se transformaria em sangue: sua mãe, com uma hemorragia no parto; seu pai e sua virgindade ainda menina nos lençóis brancos, seu namorado morto pelo pai delegado de patente comprada, seu primeiro filho espetado no útero com uma agulha longa e prateada e seu segundo ainda na placenta rubra largada na soleira da porta.


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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