Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

A FEIRA: manufaturas, produtos, gestos, odores, tradição e oralidade

A poética dos mercados e feiras livres no contexto da criação artística.


Feira.jpg

Adentra-se por ruelas estreitas. Sente-se o cheiro forte de cominho, sete ervas... guiné, manjericão, arruda, alecrim...abre-caminhos! “-Olha a garrafada! Com cobra coral dentro! Banha de raposa pro reumatismo. Aquela do peixe boi para todas as mazelas!” Verduras, frutas, vestidos, roupas, sapatos, chinelas. Gritam eles! Gritam elas! “-Dê esmola a quem é cego, que não vê a luz do dia!” Esgana lupanar caolho, em triste melancolia. Acordes de rabeca, guia passando o chapéu pros vinténs, cruzeiros e cruzados. Quem liga pro passado? É a Medina de Casablanca, mercado persa oriental, Zanzibar, Serra Leoa... Será feira medieval?

a feira.jpg

Praça de pedra no chão. Palco improvisado mambembe. Brincantes cuspindo fogo, jogando, cantando, espantando todos os males. De canto a canto das cumeeiras, cordão balançando bandeiras, mais embaixo outros cordéis segurando folhetearia, que conta histórias de todo mundo, de “Roldão, do Rei e de Maria”. Da “Quenga que Matou o Delegado”, do “Rei, do Rato e do Gato”, de “Antônio Cobra Choca”, das “Flô de Puxinanã”, da “Botija Encantada”, do “Cachorro dos Mortos”, “Salomão e Sulamita”, “Maria Garrafada”, “O Satanás Reclamando da Corrução de Hoje em Dia”, e José Camilo de Melo cantando a história de “Coco Verde e Melancia”. Moça bonita passando de vestido de anarruga. Homem de “casimira no peito” e pé-de-burro pendurado no canto da boca, molhado. Flor na lapela. Lenço encarnado. Peixeira no cinturão. Olha a feira de sapato, alpercata, chinelo, bota, botina e tamanco de couro cru. Liso estampado, de bode, de vaca e de bezerro. Corre! Lá vem o “Pavão Encantado”. Alvoroço na feira. Corre-corre Dona Maria. Levanta poeira. O cego não se move. Viva! Viva a cantoria!

Xilo.jpg

Volto pra casa correndo. Lápis de cor da mão. Cato papel e borrão. Desenho e grito: “Cadê a inspiração?”. Pego o couro e meto a faca amolada no esmerí – como diria vovô – que engolia as letras, por preguiça ou ignorância. Que importa? E a Ave de Arribação pousa em cima da mesa de trabalho em sublime holocausto, oferecendo o papo vermelho às tesouras cortantes. Suvelas, pespontos gigantes na arte de fazer, moldar e inventar o que a mim encante. Noites insones. Pífanos soam ao longe! Onde estão? Ecoam por certo das bandas de Monteiro, ou do Bacamarte o Ingá? “Ou uma dança não seria? Melo Neto diria! Será um mês santo ou um mês de Maria? Música de cego na Feira de Campina Grande. O arrepio chega e espeta a espinha. Contamina! Estimula e cega o olho. Abre em ventania, redemoinho, currupio na cucuruta quase vazia! É ela, a dama fria, que se manifesta em noites de agonia!

Caseando, chuleando e pregando botão... Olha a nuvem que se espalha nas farinhadas de Dona Laura. Primeiro amor. Caçuá repletos de tuberculos. Banho de açude. Chicote estala no lombo de Joaninha, a burra escrava, que levava as mandiocas e a meninada pro labor, pra cachorrada. Tudo era brincadeira. Não tinha geladeira. Não tinha nada! Começou o ronco de rio, que nunca chega no fim. Sertão. Forró, quermesse, festa de padroeiro. Será “Da Guia” ou “Sebastião de Bultrins?”. “- Oh Sebastião bendito, aceitai minha oração...”. Mas o que tem Seu Basto com a minha criação? “Tantum ergum sacramentum...”, responde a minha pergunta. Chegou a inspiração. São as meninas dos sítios, faceiras, rosadas, com vestidos de anarruga, cambraia bordada, algodão com florezinhas em ponto rococó.

sandálias.jpg

Eis as musas. As quatro de uma vez, pro trazer à luz o linear traço, do criar, do nascer, do pôr ao mundo. Sianinhas, saias rodadas, fundilhos de calças encarnadas, com bicos botões e casas... Que pena não seja filme. Que pena seja interpretação. Que louvor sejam as lembranças. A criação.


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Angelo R Farias