Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

CARTAS, CARTÕES POSTAIS E TELEGRAMAS

As cartas guardadas na gaveta da minha escrivaninha surgem como um legado de amor e amizade neste tempo de selvagem imediatismo.


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"Caro Abul, ti scrivo..." A sineta da bicicleta do carteiro me despertou de um sono causado pelo cansaço e pelo aconchego da saleta de leitura. Deitado na poltrona adormeci, acalentado pelo silvo longo do vento cortante nas frestas das janelas e do eterno convite do nidificar que o inverno próximo manda. “– Signore De Farias, Signore De Farias, posta per lei!”. “ - Arrivo Carlo. Grazie mile!”. Saí sem as luvas, mas logo as minhas mãos estavam quentes, sem o cachecol e meu pescoço ardia enquanto o coração palpitava. Enfim notícias tuas.

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Li-a várias vezes, para entender melhor e vê-la melhor. Em cada vez lida, um achado. Uma dúvida. Uma certeza. Os eus de mim e os teus eus. Na verdade como poderemos tecer algum juízo um do outro? Não importa. O silêncio? Ah esse companheiro inseparável, eu simplesmente amo. Como fala alto e rápido. Mas não cansa e nem fere os ouvidos. O teu silêncio me fala. A minha tagarelice tem um que de silêncio, pois nem todos ouvem, ou melhor, escutam. Sinto os teus dias. Certamente, me creia, são iguais aos meus. Não pense que as minhas atividades diárias me subtraem os meus pensamentos mais insanos e as dúvidas mais cobiçadas por respostas sem pouso. Sou teu ouvinte e isto me é sacro. Escrevo-te e no meu mundano te escolho divino. A ausência física até que é boa nestes momentos. Li um pouco de Horácio, em sua homenagem. O diálogo sobre a criação e a colocação de Adão no mundo, com a condição de ESCOLHA a ser forjado nas baixas estirpes dos mundos e orbes primitivos, ou alcançar a elevação através de seu trabalho, suor, pensamento, amizades, amores... Enfim um viver simples como faria uma estátua de barro que recebeu o sopro nas narinas para acordar com uma dor insuportável nas costelas.

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Vi um filme interessante – até demais – no qual me identifiquei muito: Deuses e Monstros. Tenho medo da decadência física, como a que sofreu meu pai até seus últimos dias. E este filme fala desta e da decadência (?) moral. Mas o que é a moral? O que seria imoral? Creio que as respostas estão nos monstros que construímos e habitam o nosso cérebro. Tenho me sentido só. Algo diferente. Mas atribuo à mudança de cenários, comida, clima... Certamente será isto. Na realidade estou só, sem uma companhia a associar o sentido de família. E os vizinhos, não tão vizinhos, me acharão estranho, taciturno, europeu demais para um nascido no país do calor e das cores. Se existe alguém mais estranho que tu? Sim, eu! O telefone funciona, o fax também, o PC ta na mesa, mas para escrever-te tem que ter um clima de luz e sombras, como nas pinturas de Caravaggio ( que alusão, hein? Até eu me espanto comigo mesmo ). Amanhã arrisco ir a pé comprar o selo e postar esta carta. Aproveito para rever as pinturas de uma capela que data de 1200, em honor a Nossa Senhora, por ter salvado tantos da peste, e fazer as minhas orações. Sim, eu rezo. Ou penso, não sei bem, mas sei que me encontro com a Divindade e isto me basta.

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Não te preocupes com uma possível vinda tua. Nossas cartas certamente trarão um pouco de ti para cá e um pouco de mim para lá. O diamante já existe. Talvez um dia consigamos lapidá-lo. Mas o mais importante foi a busca, o encontrar... Sobre a renúncia? Como eu queria falar contigo sobre isto. Eu diria sublimação! Acredito que tudo tem força própria, como acredito na sintonia das ondas de rádio e aquela em que as pessoas, pouquíssimas, conseguem colocar-se junto a outras, pouquíssimas também.

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Caríssimo Abul, as horas aqui passam lentas, mas tardou este momento em que te trouxe para perto. Espero que esta te chegue logo e que possa te levar um pouco de afago e apreço, como me traz o que escreves para mim. "Tuo, Angelo".

RAFAEL, Angelo. A casa das bocas pintadas de encarnado - 1 - Campina Grande: EDUEPB, SELO LATUS, 2013-14. 186 pg.


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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