Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

"Eu sou pobre de marré dicí..."

A imaginação era norteada pela fantasia, cheia de animais que falavam, personagens exóticos, paisagens de aquarelas e assombrações, cantigas e brincadeiras infantis e seu imaginário cheio de seriedade e símbolos, que fizeram parte de uma infância mais saudável, livre e segura.


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Num passado não tão remoto, onde a infância era norteada pela inocência e primazia na educação familiar, os brinquedos e brincadeiras enchiam de espiritualidade os recreios e quintais, com evocações a mundos imaginários e lúdicos, em que lugares, pessoas, seres, bichos, assombrações, eram a maior riqueza que as crianças poderiam amealhar na caixa de brinquedos, muitas vezes também imaginária. Tinha um escravo de Jó que era um bravíssimo jogador de caxangá, um coelho que teimava em passar pelo círculo formado por mãozinhas, uma cabra que era cega, tadinha, um anel que todos esperavam escorregar nas mãos postas em estilo mariano, as estátuas humanas formadas depois que se quebrava um corrupio, “passarás... Deixarás passar, carregado de filhinhos para nós criar...”, um cravo que briga com a rosa, uma baleada que deixava todos com manchas roxas pelos braças e pernas, sem contar com a busca da galinha gorda nos açudes: “Gorda é ela! Cadê o sal? Tá na panela! Vamos buscar ela!”. O gato corria louco porque todos atiravam o pau nele e a primeira panela quebrada tinha um sapo dentro. Todas as crianças dormiam de pés sujos de tanto brincarem na frente de casa com seus amigos. Suas mães, sentadas nas calçadas e terreiros, vigiavam-nas com o olhar de uma galinha de pintos e ainda não existia o lobo mau à espreita atrás de uma árvore.

Mas, uma das mais bonitas, significativas, dinâmicas e simbólicas brincadeiras daquele tempo tem a ver com o ofício, a pobreza, a riqueza, a inversão de papéis que a vida dá de graça ao ser humano. É uma cantiga de nome “Mavé Mavé...” ou “Eu sou pobre, ´pobre, pobre...”, conhecida em quase todo o Brasil, principalmente nos estados da faixa litorânea. Estudiosos do assunto a classificam brincadeira de “fileira”, trazidas pelos franceses em remoto tempo e que tem um refrão: “Je m’em vais d’ici”, mas aportuguesado com o passar do tempo para “mavé dicí”, “de mazé dici”, “de marré dici” e outros ainda como o estranho mas não menos belo “de mavé gepê”. Cecília Meirelles (1901 – 1964) conceitua o tema deste canto como “uma reminiscência das antigas cerimônias da escolha da noiva”.

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O simbólico ofício, ou trabalho, que é ofertado ao filho doado pela mulher pobre, cujos filhos os tinham quantos na rua coubessem, era escolhido pelo imaginário ingênuo e mágico da mulher rica que não os tinha. Assim, para as meninas escolhiam o ofício de costureira, enfermeira, aeromoça.. E quanto mais exótico fosse o ofício mais exercia seu poder de convencimento para que a mãe pobre lhe entregasse sua cria. Para os meninos era o de motorista, dentista, marinheiro, sapateiro... Neste passado nostálgico muitas adoções foram feitas e muitas profissões sonhadas. Muitas mães pensavam-se ricas por não possuírem filhos, enquanto outras se viam pobres com uma numerosa prole.

“ Eu sou pobre, pobre pobre, De mavé, mavé, mavé. Eu sou pobre, pobre, pobre De mavé dicí. O que é que vós quereis? De mavé, mavé, mavé. O que é que vós quereis? De mavé dicí.

Quero um de vossos filhos, De mavé, mavé, mavé. Quero um de vossos filhos, De mavé dicí.

Escolhei o qual quiseres, De mavé, mavé, mavé. Escolhei o qual quiseres, De mavé dicí.

Eu escolho Severino, De mavé, mavé, mavé. Eu escolho Severino, De mavé dicí.

Qual ofício darás a ele? De mavé, mavé, mavé. Qual ofício darás a ele? De mavé dicí.

Dou ofício de engenheiro, De mavé, mavé, mavé. Dou ofício de engenheiro, De mavé dicí.

Este ofício não lhe agrada, De mavé, mavé, mavé. Este ofício não lhe agrada, De mavé dicí.

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Dou ofício de sapateiro, De mavé, mavé, mavé. Dou ofício de sapateiro, De mavé dicí.

Em que carro levas ele? De mavé, mavé, mavé. Em que carro levas ele? De mavé dicí.

Levo ele de Opala, De mavé, mavé, mavé. Levo ele de Opala, De mavé dicí.

Eu de pobre fiquei rica, De mavé, mavé, mavé. Eu de pobre fiquei rica, De mavé dicí.

Eu de rica fiquei pobre, De mavé, mavé, mavé. Eu de rica fiquei pobre, De mavé dicí".

FARIAS, Angelo Rafael Bezerra de. Os Homens do couro - memórias poéticas de um ofício - 1 - Brasília: CNI-SENAI - 2009. 248 pg.


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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