Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

DA TERRA LUSA PARA A COLÔNIA

Um olhar de soslaio sobre a chegada das artes e ofícios num Brasil em construção.


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Portugal teve as suas corporações de artes e ofícios diferentes da estrutura e ênfase do resto das corporações europeias. Tinham, entretanto, as mesmas configurações das demais e da mesma forma o seu Juiz de Ofício, nomeado pela Câmara Municipal, seus aprendizes, companheiros, mestres e contramestres. Em Lisboa, precisamente no ano de 1523, foi criado o Regimento dos Oficiais Mecânicos. Neste mesmo período, já aportavam na colônia brasileira as primeiras formações destas corporações, trazidas pela febre dos avanços de conquista do além mar. No entanto, entram no Brasil de maneira sutil e desprovidas de sua característica religiosa como na Europa, e assumem peculiaridades especiais, tendo em vista as características de uma terra em processo de ocupação e colonização, onde tudo era novo e inusitado, para não dizer diferente ou exótico.

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Isso foi positivo e fundamental na formação dos ofícios legitimados brasileiros, se podemos assim expressar, uma vez que o seu desenvolvimento se deu em meio a etnias diversas, por meio de novos costumes e tradições, tendo em grande conta os materiais nativos, a mistura das raças e hábitos, que engendravam uma nova formação sociocultural. O fazer centenário ou milenar - com licença aos antropólogos e historiadores- oferece um habitat favorável para a experimentação de novas técnicas de manufaturas, bem como as comunidades negras já aportadas por aqui, que traziam também outros conhecimentos similares, com características próprias do labor manual de suas origens. Os saberes dos mestres europeus que vieram para a colônia, trazendo a reboque conhecimentos lusos, orientais, africanos e árabes de várias artes e ofícios se juntam a esta demanda de uma terra de características tropicais que teria de ser adaptada a um novo mundo com novo clima, geografias e costumes diferentes.

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A abolição em 1824 das Corporações de Ofícios no Brasil foi um ato político conveniente. O Brasil já tinha formatado a sua identidade laborativa, diga-se muito diferente daquelas lusas. Aqui se desenvolvia um sistema de organização de um país rural onde os saberes da olaria, marcenaria, carpintaria, talharia, e tantos outros se consolidavam de vez e seria o ponto de partida de uma característica nossa e só nossa: os ofícios tinham um certo ar de igualdade, de união benéfica e próspera. Talvez seja estas a características de um povo em formação que até hoje encanta os estudiosos, e como tal migrou para outros segmentos da sociedade e família da Terra Brasilis.

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“O mais antigo regimento escrito de que até agora temos notícia data de 1489 e diz respeito aos borzeguieiros, sapateiros, chapineiros, soqueiros e curtidores.” Marcelo Caetano – As Corporações dos Ofícios Mecânicos, XIII.


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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