Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

O ALGODÃO QUE JÁ NASCE COLORIDO - design e artesanato

Quando o design se encontra com um inusitado material, as tradições do artesanato e a tecnologia.


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Fevereiro de 2000. Ano novo como nos cartões postais. E lá estávamos começando um novo desafio. Desenvolver uma coleção de roupas com um tecido estranho que já nascia marrom: era o algodão colorido. No decorrer dos próximos anos alçaria voo como uma das novidades tecnológicas da virada do milênio. Os cientistas da EMBRAPA- Empresa Brasileira de Agropecuária passaram anos estudando e pesquisando esta variedade, aperfeiçoando-a geneticamente, para depois fiá-la, tece-la e depositar sobre nossa grande mesa um material único que daria início a uma saga, ousamos assim dizer. Estávamos no CTCC- Centro de Tecnologia do Couro e do Calçado. Éramos poucos, mas valentes, ansiosos por fazer algo com um material tão inusitado. Ele já tinha nome: BRS 200 MARROM. As pesquisas mostraram esta variedade como a mais longa e resistente das que existiam até então. Já tinham feito todos os tipos de testes. Agora deveríamos dar continuidade à missão.

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Tem-se notícias de variedades de algodão com pigmentação colorida na América do Sul, América do Norte, África e Austrália. Mas eram só utilizadas para o artesanato de pequenas comunidades. Na região semi-árida da Paraíba, propícia para o cultivo do algodão, nascem os tipos Seridó e Mocó, cujo cruzamento e pesquisas de melhoramento genético, iniciadas no Brasil desde a metade do século XX, resultariam no BRS 200 Marrom (1989). Em 1997 no SENAI/CERTEX de Pernambuco foram executados os últimos testes antes de ser aprovado para a confecção de roupas. Em 1999 os de adequação têxtil obtiveram êxito, ou seja, podiam ser fiados e tecidos, podendo suportar fiação de alta velocidade (Las Vegas). E no ano 2000 fomos escolhidos para criar as primeiras peças para a então FENIT - Feira Nacional da Indústria Têxtil, em São Paulo. Uma matéria prima com um forte apelo ecológico. Indicado também para pessoas alérgicas à pigmentação química de outros tecidos e com forte demanda para países da Europa e Japão. Alternativa de geração de divisas para o pequeno agricultor, por si só era uma grande e promissora possibilidade para as 12 empresas, que se juntaram para formar o consórcio de exportação, administrador do produto final. Mas não era suficiente. Designers, estilistas, artistas, modelistas, técnicos, pensamos no social, no homem do campo, no artesanato. Do pensamento para a prática enfrentamos toda a angústia e sorte de diversidades do processo criativo. O tempo correu rápido. E a nossa criatividade também. Tínhamos que trabalhar com duas cores, o bege (cru) e o marrom. Trouxemos para as roupas a beleza do artesanato local. Fomos ao encontro das associações de artesãos, clube de mães nas periferias da cidade, bordadeiras, no afã de fazer logo o que já estava fervilhando nas nossas cabeças: daria certo?

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Em junho daquele mesmo ano desembarcamos em São Paulo com grandes expectativas e algo a mais: redes, mantas, xales e até sapatos feitos com o algodão colorido. Numa grande feira, fomos a novidade do ano. O lançamento foi comentado em toda a imprensa e em todos os meios de comunicação. Viramos notícia. O stand foi visitado por jornalistas renomados, editores de moda, políticos e celebridades. Um ano após estávamos com uma nova coleção sendo apresentada na cerimônia de entrega do Prêmio Cientista Brasileiro, em Brasília, festa do 28º aniversário da EMBRAPA. Neste ponto a imprensa internacional já se ocupara do assunto, como a Newsweek. Em 2010 a III Bienal Brasileira de Design apresentou o primeiro vestido feito com algodão naturalmente colorido. O mesmo de 10 anos atrás. O NATURAL FASHION - marca da COOPNATURAL se consolidou como um projeto que iria trabalhar o ecologicamente e socialmente correto.

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No desfile, em Brasília, nossa noiva, brejeira e faceira, entrou na passarela com seu vestido de rede, tecido num tear semi industrial, e capulhos de algodão marrom na cabeça, envolta numa iluminação cor âmbar que evocava o nosso sol causticante e o nosso sangue e coração, enquanto um play back de Jackson do Pandeiro ecoava pelo nobre salão. Era 2001 e oficialmente os produtos eram lançados para comercialização no Brasil. Grande ovação. Aplausos e bravos. E a receber o reconhecimento estavam as empresas participantes, as instituições que apoiaram o lançamento, mas principalmente desfilava ali o sentimento de homens e mulheres que até hoje acreditam num estado como a Paraíba, que ficaram para fazer parte da história, plantada, colhida, fiada, tecida e costurada para o mundo. Desde então o algodão colorido natural da Paraíba tem sido o cartão postal do estado, despertando interesse e paixão onde é mostrado. Foram lançados outras variedades como a de coloração verde e telha (marrom avermelhado BRS-RUBI), sendo esta última em 2003, cujas pesquisas e cruzamentos e o programa de seleção genealógica remonta a 1996 a partir de variedades vinda dos EUA. O algodão colorido e sua história é uma instituição. É um patrimônio de todos os paraibanos e brasileiros.

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Fotos: César di Cesário, Júlio Vasconcelos e Angelo Rafael.


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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