Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

entre muros

Elucubrações sobre os antigos internatos, colégios internos e seminários.


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A vida se apresenta de uma forma mutável em que o tempo age como em todas as coisas. Um dia somos apresentados ao primeiro afeto (feto). Descansamos comodamente no útero materno, casa primária de nossa formação. Lá dormimos, nos desenvolvemos, crescemos, até sermos expulsos para a luz(?) de forma cega e apertada. Trauma! Na primeira infância buscamos o seio materno, a quentura do ninho, o regaço que embala e se estabelece como paradeiro de um corpo perdido e carente. Queremos voltar. Mas voltar não pode. “E agora José?”. Noutro dia descobrimos que ficamos sós na escola e temos que aprender a sobreviver. Quase sempre é assim. Das primeiras emoções a tantas outras que se apresentam no correr de uma vida inteira. A descoberta consciente de nossas relações afetivas, quando da superação da fase do “amigo invisível”, se estabelece em cada um de nós distintamente. Alguns nem percebem. Simplesmente passam como a caravana e os cães morrem surdos de tanto latirem. Outros desenvolvem uma sinergia tão violenta com o ambiente, a natureza e as pessoas que até viver fica difícil. São os hiperativos, levados, feios, impulsivos, sensíveis demais, e toda a sorte de classificações plausíveis para dar uma explicação a tantas diferenças.

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O que dizer dos antigos colégios internos, reformatórios, seminários e conventos? Como seria cair de repente no pátio de uma dessas instituições? Sim, certamente poderíamos ser os mais bonitos da instituição também. Ter beleza excessiva traz sequelas! O que é um ambiente entre muros, fechado para o mundo, cheio de crianças imberbes em plena febre da formação corpórea e de caráter? Não importa se é uma instituição religiosa, um orfanato ou um reformatório. Sempre vai ter um vácuo, uma lacuna que não foi preenchida Nesta ambiência pode-se dizer que a fuga de si mesmo e o apego a quem está mais perto é uma questão de sobrevivência. Sabemos que alguns laços de amizades feitos nesta confluência de casos e acasos perduram por toda uma vida. É bastante explorada na literatura e no cinema esta obscura e inquietante paisagem. O vínculo de amizade que pode unir duas crianças com o mais puro e descompromissado sentimento é muito natural quando se percebe a rotina e história dessas casas.

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Um filme de grande beleza que olha de soslaio sobre este prisma é “Au revoir les enfants” do francês Louis Malle. De soslaio por ter um pano de fundo cortante e espinhoso: a segunda guerra, o nazismo e os judeus, mas que com uma sutileza incomparável revela por meio dos protagonistas uma das mais interessantes das classificadas “relações eletivas”. Não sabemos ao certo a concepção de uma lógica de manter trancafiados meninos de tão tenra idade. Existiu e existe. Também colhemos os nefastos resultados de uma Irlanda dividida e de uma arquidiocese falida dos EUA para, trinta anos depois, ressarcir os maus tratos infringidos àqueles indefesos e largados a uma sorte que se pensava ter.

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Tema tabu, as relações afetivas cujo nascedouro ambientam-se nestes locais, superam o tempo e se fortalecem com o passar dele. Os estudos mostram o quanto é perigosa esta idade. Qualquer deslize e teremos um adulto respondendo com um traço psicológico específico mais tarde. Óbvio que não é uma regra, mas as notícias que nos chegam hoje, com o advento de tanta modernidade na publicação e divulgação de notícias, histórias, rechaçam qualquer dúvida de que tenham sido de outro modo.

Como, criança, conseguir sobreviver são num ambiente hostil a 3.000km de casa, sem o afeto familiar e sem a mínima cobertura psicológica? Sobrevive-se. É certo. Mal. Por outro lado os estudos perpetrados como o latim, fundamentos da filosofia, religião, literatura, causam um aparente conforto, que na realidade pode ser visto como consolo e que vem ter seus frutos mais tarde, na hora adulta de escolha de estradas e caminhos. Mas não é o suficiente para justificar os possíveis traumas sofridos. Ser “mandado” para um colégio interno há anos atrás não queria dizer que fosse um privilégio de poucos ou uma sorte dos menos ou mais abastados: era uma sentença a ser cumprida entre muros altos e intransponíveis. Liberdade vigiada, soluços contidos, medo, vergonha. Um crescimento por fórceps. Mas, como sabemos, existem casos e casos e a história também nos revela instituições idôneas que formaram levas de adultos saudáveis.

Ao final de cada história individual ou coletiva certamente o que mais se sonhava era escutar a santa frase: “- Au revoir les enfants!”. E depois a visão dos portões abertos para um mundo desconhecido.


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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