Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

O ARTESANATO: tradição e memória

Do purismo às tradições o artesanato conta a história de um povo.


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No dicionário de Aurélio Buarque de Holanda encontramos o verbete a seguir relativo à palavra artesanato: S. m. 1. A técnica, o tirocínio ou a arte do artesão (1). 2. O conjunto ou a classe dos artesãos. 3. P. ext. O produto do trabalho do artesão (2), objeto feito por ele. 4. Local onde se pratica ou ensina o artesanato (1). De acordo com o Conselho Mundial de Artesanato: “ É toda a atividade produtiva que resulte em objetos e artefatos acabados, feitos manualmente ou com a utilização de meios tradicionais, com habilidade, destreza, qualidade e criatividade. ” No entendimento, de Aristóteles (384 a 322 a C), homem de cultura, pesquisa e investigação científica, a arte tem várias conotações: arte técnica, arte mecânica, arte de fazer e arte de ofício. Entretanto as vertentes dos significados são muitas. Tomemos a transformação da matéria bruta pelas mãos do homem em busca de transformá-la em objeto utilitário, decorativo ou ainda na procura da sensação de expressão estética, mesmo que inconsciente. O artesanato então consiste no próprio trabalho manual, essencialmente de origem familiar, onde o artesão domina todas as técnicas de produção, da preparação da matéria prima até o acabamento. Artesão1. [Do it. artigiano.] S. m. 1. Artista (4) que exerce uma atividade produtiva de caráter individual. 2. Indivíduo que exerce por conta própria uma arte, um ofício manual. [Fem.: artesã; pl.: artesãos. ]

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O artesão é aquele que executa a mão objetos de uso utilitário, decorativos ou equivalentes, voltados para seu meio social ou não. Surgiu por necessidade de forjar, num passado remoto, soluções práticas para os problemas do cotidiano. Sem esquecer, comprovadamente através de teses, observações e estudos históricos, a ocupação do ócio e a busca pela expressão. Temos notícias de labores com a argila, artefatos líticos e a tecelagem com fibras vegetais e peles de animais já no período neolítico. No Brasil, no mesmo período, determinadas etnias já desenvolviam produtos líticos e cerâmicos, com vasta característica estética que sobrepunha àquela utilitária. Acreditamos então que o entendimento do artesanato em si como o simples ato de criar, até onde se tem notícias, é inerente à raça humana. A necessidade da arte como expressão e extensão do espírito criativo pode ser observada no estudo das culturas primitivas. Muito do que sabemos sobre a nossa origem devemos ao artesanato. Vemos no período mais antigo de nossa história uma simbologia naturalista estilizada, diminuta, particular, geométrica, realizadas através de técnicas rudimentares de pintura a dedo de silhuetas e contornos e através do negativo de mãos sobre um fundo escuro. Notamos certa dramaticidade no movimento destas figuras. Expressão? Extensão do eu?

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Outro aspecto de intrigante observação são as inscrições rupestres em alto e baixo relevo, espalhadas pelo Brasil, que carecem ainda de estudos mais aprofundados e consistentes. A originalidade do labor é dada por cada artesão. Devemos ter cuidado ao analisarmos este aspecto, pois o molde produz em série objetos sem nenhuma originalidade. Morfologicamente são peças medíocres. Já o padrão é algo que se aproxima de uma quase assinatura, por assim dizer, que, não obstante de ser executada por um único artesão apresenta sutis variações que lhe dão a característica de única, mas determina àquela da comunidade a que pertence. Seriam indícios do que chamamos de estilo? Talvez! O estilo empresta ao artesão suas digitais, ou seja, a extensão espiritual de um labor com características únicas. Este conceito se aplica muito depois da Revolução Industrial, onde a manufatura de certos objetos sofreu mudanças radicais, através da aplicação de técnicas de produção em série, criando terminologias como “feito a mão”, “semi industrial”, “habilidades manuais”, “trabalhos manuais” que, essencialmente, não são sinônimos de artesanato. Muitos artistas, pensadores e escritores, como por exemplo, Karl Marx e John Ruskin teceram suas opiniões, teorias e críticas sobre a influência da mecanização nas manufaturas ditas artesanato. Talvez, ou certamente, neste momento nascia o conceito de arte popular, para aqueles artesãos que possuíam sua produção independente, mantinham a tradição e a satisfação com o trabalho e principalmente possuíam uma grande identificação com o que faziam. Na metade do século XIX William Morris funda o Movimento das Artes e Ofícios se opondo à mecanização do artesanato. A sua grande frustração era a de não conseguir criar peças a preços módicos para gente comum. Acontecia na prática justamente o contrário. Criavam-se objetos extremamente caros para uma burguesia dominante e diminuta. Foi um utópico na pura concepção etimológica: trabalhar pelo prazer de trabalhar e agraciar aqueles que gostassem e admirassem o seu trabalho. Através da Irmandade Pré-Rafaelita, Morris, juntamente com seus confrades não toleravam a mecanização dos produtos em série e pregavam a volta purista do artesanato. O artesanato tem na sua essência o modus vivendi daquela comunidade em que ele está enraizado. É uma manifestação da vida comunitária, podendo ter seus resultados levando em conta como já citado a questão funcional, decorativa, mas também lúdica e religiosa. É um sistema “popolis”. Sua aprendizagem é nata inconsciente, no senso ancestral de observação e assimilação que possuímos desde criança. Enfim o artesanato é o jeito, a concepção abstrata da feitura dos labores.

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Hoje, depois da falência de conceitos de evolução e civilidade, a consciência humana se volta para o olhar dos valores tradicionais da sociedade. Devemos ter muito cuidado, de não deixar o artesanato se corromper e à sua essência natural pelo modismo. Defendemos mercado sim, divisas sim, cidadania através da comercialização justa do mesmo e do agraciamento financeiro do feitor. O que normalmente estamos vendo hoje, em todo o mundo, é uma massificação em série do conceito que chamamos de artesanato industrial. Um paradoxo explícito. O artesanato pode ser usado como componente direto das concepções da arquitetura, ambientação de interiores, urbanismo, moda, etc. Mas o critério que deveremos ter é sacro. Temos a obrigação humana de defender os conceitos primordiais do artesanato, pois ele vai continuar ainda contando a verdadeira história da nossa civilização, certamente junto com a comunhão das novas tecnologias. Se um produto industrializado que tem na sua concepção trabalhos sociais, artesanais, ecológicos, deve ter seu preço reavaliado tendo em vista a compensação financeira justa repassado ao artesão. O que na maioria dos casos não acontece. O que vemos é uma exploração das comunidades de labores tradicionais. Poderemos citar o artesanato do Jalapão, que sai do Tocantins a preços de subsistência e chegam à Gallerie Lafayete com todo um aparato de imagem e marketing falso, onde se diz da ajuda a essas comunidades que continuam vivendo sob a linha da pobreza e porque, não, da miséria. Também as tramas de palhas de buriti, bordados e rendas nordestinas, que aportam no circuito da alta moda européia como materiais de países que estão sendo ajudados, mas entram nas passarelas transformadas em ícones do glamour com imagem e preços estratosféricos. Sem falar das cerâmicas paraibanas, das do Vale do Jequitinhonha, do Marajó, sempre parando nas mãos dos neo-colonizadores que continuam trocando as nossas riquezas por miçangas e pedaços de espelho.

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Muitos países, inclusive aqueles que consomem o nosso artesanato, protegem e tutelam os labores tradicionais, seus produtos e seus agentes reconhecendo a sua importância econômica e histórico-social. Em 10 de novembro de 1937 a Constituição de Getúlio Vargas declarava: “O trabalho manual tem direito à proteção e solitudes especiais do estado. ” No entanto, muitas constituições continuaram omissas quanto à essa questão. Algumas citam e preconizam a diferença entre os trabalhos técnicos, científicos e aqueles manuais. Só. Nada mais. O crescimento do País engendrou conceitos contrários sobre o artesanato diante de uma nação que cresce. O artesão se vulgarizou para conseguir sobreviver da venda de seus produtos. Inseriu neles o que os modismos passageiros queriam ter, descaracterizando os labores e as tradições em nome da moda de comportamento efêmera e destrutiva. As leis não protegem os artesãos. Precisam ser revistas. Antes a moda e outros segmentos se opunham ao artesanato. Hoje podem ser grandes aliados, contanto que os instrumentos, os processos e a consciência dos criadores e do mercado sejam modificados. Em certas condições ainda primitivas podemos encontrar um artesanato de altíssima qualidade. O que não se produziria se fosse colocada em prática a missão do Estado de tutelar os trabalhadores através da educação, saúde, saberes tradicionais e visão de empreendedorismo?

(Fotos do autor - arquivo pessoal)


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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