Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

memória, matéria prima, tecnologias arcaicas, história, antropologia: o couro, este material nobre.

O couro e as peles animais tiveram uma grande importância no desenvolvimento e sobrevivência da raça humana, como a carne animal e o fogo.


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É racional pensar que nos primórdios das sociedades primitivas o couro tenha tido uma importância grandíssima nos vários estágios de transformação e evolução dos homens. Talvez até mais que a carne animal em si. Intempéries, putrefação, estágios lentos de degrado do couro foram observados através dos tempos. Estas constatações passaram por transformações na medida em que novos fatos e elementos foram também observados sobre este material tão fascinante quão importante para o desenvolvimento da raça humana. Eis que o sol seca as peles desprovidas das carnes, mas ainda cheias de microorganismos nocivos que apodrecem e cheiram mal. Bate-se nelas com bastões de madeira, arrastam-nas na areia dos rios e dos córregos, enterram-nas na neve, na argila. Vai inverno e volta inverno e esta observação também é coletada pelo cérebro em desenvolvimento e repassada através de genes dominantes para os descendentes vindouros. Buscando a sobrevivência em várias partes do planeta, contemporaneamente, novas levas de hominídeos repetem o mesmo processo, em situações climáticas e geográficas diferentes, mas com o mesmo impressionante empreendimento: sobreviver!

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Uma pele estendida para secar, já se sabendo rígida após o processo, leva vaporada de fumaça das fogueiras próximas. Esses efeitos observados, fixados na memória, e repetidos, ao que não se pode considerar ao acaso: duas, três, quatro vezes. Felizmente, tudo já tinha sido notado, codificado secretamente e passado para o outro. Sinal de comunhão? De união à consciência? Não! Instinto. Em evolução é verdade, mas simplesmente instinto!

Chove! Poças. Árvores caem sobre peles ao relento. Dias. Quantos? Não sabemos! Mas eles, os homens que viveram a ação observavam, enquanto o cérebro se desenvolvia armazenando essas preciosas informações. Evaporação das águas, novo sol, mais dias, uma nova pele diferente. Seixos de rio ralados e afiados. Sílex. Obsidiana. Pedra mesmo. Serviam para tudo. Anota-se novamente e inconsciente na memória. Ou consciente? Repete-se o feito. Registra-se novamente! .............................. Baú OK.jpg Sela OK.jpg

Recentemente foi descoberta uma múmia de um homem que viveu há 5.300 anos e só o gelo pode conservá-lo em seu último pouso, nos alpes italianos, juntamente ao impressionante enxoval que portava: todo o vestuário de couro Esta descoberta mostra que nem em todas as partes do mundo o tanino era usado e conhecido para tratar as peles. Em algumas regiões, como o Alto Adige, na Itália, natalício do nosso homem mumificado, o curtimento das peles era feito com gorduras, calor de fogueiras e fumaça. As manufaturas de couro não representam somente o cerne da cultura material da humanidade, mas também uma grande força motriz da cultura em geral. Os fatores simbólicos e técnicos influem diretamente na evolução humana em qualquer lugar e em qualquer época, em qualquer situação social ou histórica. Nesse sentido, os materiais usados pelo homem, em todas as civilizações, assumem relevante importância no desenvolvimento das culturas, tendo a sua importância observada e estudada por meio da antropologia e da história.

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Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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