Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

A ESPERANÇA TEM NOME: CABÍRIA

Le Notte di Cabiria é uma ode à esperança. A poética e simplicidade na construção do filme, mesmo em detrimento da linguagem e nacionalidade, leva a todos, de todo o mundo, um sentimento de pudor diante da terna personagem. Eleva-a ao pódio de heroína por ser e acreditar na esperança.


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Ela ostentava uma mísera casa de tijolos, construção tosca de materiais deixadas pela guerra numa invasão ao longo do Tibre, na periferia romana. Dizia que tinha tudo que precisava, e que não carecia de mais nada.

O olhar sobre aquele descampado, meio lunar, meio deserto, contrastava com a comicidade de uma palhaça nata, de baixa estatura, rosto redondo e sobrancelhas redesenhadas a lápis e figurino composto de um casaquinho de pele puída, saia de cós alto com meias e sapatos boneca. Mais parecia uma personagem chapliniana que a figura de uma mulher que deveria seduzir. Não se concebe uma outra atriz, fora Giulietta Masina, no seu lugar. Stupenda!

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Sim! Cabíria se prostituia pelas ruas. Vivia em simbiose com a arquitetura, os parques, jardins, arcos. Sua profissão era mais antiga que Roma. Era o complemento de Gelsomina de La Strada, ou a metade de Sônia de Dostoevskij e de Fantine de Victor Hugo. O filme é de uma simplicidade ímpar. Daquelas grandiosas por ser pouca, mas não comum devido à poética pessoal do diretor e a costura da trama, num harmônico e comum jogo de pequenos factoides da vida real. O cinema é muito diferente da vida, mas comunga com esta arte, um paradoxo wildiano, para explicar a legitimidade desta comunhão. A trama envolve a personagem ingênua, esperançosa e confiante, por vez até no divino, como quando do encontro com a procissão para o santuário e a inequívoca vontade de mudar de vida com a ajuda do sagrado.

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Mas a vida, por si só crua e bela, procura e brinca com Cabíria, levando-a a encontros que prometiam a redenção, como aquele com o galã de cinema. Mas ele só a usaria como consolo por conta da briga da amante, que volta e relega a nossa heroína uma noite presa e escondida no banheiro. Mas foi feliz até, por ter arrancado da celebridade uma foto autografada, talvez como talismã. Também outros homens despudoradamente a exploram. Um mágico hipnotizador revela num asqueroso palco de variedades, para uma plateia masculina, as fragilidades de uma valente, engraçada menina. E por fim, no doce encontro com Oscar, talvez o homem encantado que sempre esperou, mas que se redescobre traída pelo dinheiro, como na abertura do filme, desta vez gritando para ser morta. Já não aguentava mais.

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No entanto logo Cabíria volta a ser Cabíria, e à vida que segue, ao encontrar jovens com suas vespas e acordeons, a celebrar a noite das possibilidades e da continuidade. E não há nada mais poético quando é saudada com um boa noite, como a uma dama, uma senhora, enquanto se recompunha por trás de uma lágrima preta de lápis de olho, que revela a simbologia com os palhaços de Federico Fellini, ao som da música de Nino Rota.

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Naquela hora Cabíria era a pura esperança; a salvaguarda do diretor; a representação de um povo que saiu destruído pela guerra e tentava se reerguer. Esperança de um país que não se entregou e se reergueria com dignidade. com Oscar.jpg


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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