Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

São João - mitos, tradição e simbologia

Em junho celebramos uma das mais importantes festas populares do Brasil. Período de colheita, fartura, sabores e agradecimento.


IMG-20170609-WA0011.jpg O sexto mês, junho, é um dos mais importantes do calendário pagão nas culturas nórdicas. O solstício de verão, entre os dias 20 e 21, com sua noite mais curta do ano e seu dia mais longo, sempre foi, desde os primórdios da humanidade, considerado sagrado e propício para a fertilidade e colheita. IMG-20170609-WA0035.jpg O fogo, elemento de grande importância para a evolução humana, era a ponte entre o humano e o sagrado. Invocava-se por seu intermédio a fertilidade da Terra. Grávida, a Grande Mãe Terra, de vida, colheitas, frutos e flores, crias e animais tornava-se viva. Em torno dele, o fogo, as comunidades celebravam a vida e a colheita e todas as possibilidades de continuação da existência. Símbolo de fertilidade, também era de acasalamento. Danças e músicas acompanhavam os rituais cujas virgens encontravam seus esposos, as sacerdotisas apresentavam oráculos adivinhatórios para a comunidade, e os animais apresentados ao calor das chamas das fogueiras evocando a procriação. As cinzas desses rituais eram guardadas como talismãs de sorte, fertilidade, para o mau olhado e contra as doenças. IMG-20170609-WA0017.jpg Este período também era próprio à colheita de ervas medicinais: louro, salvia, alecrim, verbena, que eram entrançadas como coroas e secas para estarem nas moradas como proteção. A erva sagrada na tradição céltica era o visco, que possuía grandes propriedades mágicas, medicinais e adivinhatórias. Estes rituais pagãos eram celebrados muito antes que a religião cristã aparecesse e se amalgamasse junto dessas tradições em seu favor e crença. O dia 24 de junho, a noite de São João Batista, exatamente e estrategicamente celebrada seis meses antes do dia 24 de dezembro. A celebração do nascimento de Jesus passa a substituir a grande festa do solstício de verão pela celebração do nascimento de São João, em pleno dezembro. Destarte a noite de São João é aquela considerada como purificação das antigas festas. Mas não foi tudo eficaz e hoje temos um sincretismo destes cultos com celebrações cristãs, cheias de simbologias e iconografias. Crenças tipicamente pagãs convivem em harmonia com as cristãs. A nova religião sistematicamente englobou ideias, rituais e preceitos pagãos, alguns de forte componente mágico, numa política de tornar "religio licita" o que a séculos era tradição e costume. IMG-20170609-WA0019.jpg Na festa de São João, além do fogo, era comum a colheita de ervas, frutos, acender velas e lanternas. Talvez hoje os sagrados fogos rituais tenham sido substituídos pelos fogos de artifício, simbologia moderna das antigas tradições. Por sua vez, o período no hemisfério sul é de inverno. Do seu solstício, das chuvas, da preparação da terra e também das colheitas. Com o advento dos costumes lusos-católicos no período se celebrava também o dia de Santo Antônio e de São Pedro, principalmente no Nordeste do Brasil. Os mitos transbordam para explicar as tradições. Isabel, prima de Maria, Mãe de Jesus Cristo, avisou à mesma do nascimento do Batista por meio de uma fogueira. As danças, neste tempo já mescladas às tradições europeias, como as danças circulares, de casais ou "quadrille", se adaptaram aos festejos e tradições. Bandeiras, balões, fitas, toda esta iconografia tem origem na representação da imagem dos santos e seus cultos, se adequando à vida nos trópicos, mas escondendo sempre no seu arcabouço os mistérios e alusões pagãs. IMG-20170609-WA0018.jpg Num país tropical com uma cultura gastronômica arcaica atribuída aos nativos e donos do novo mundo, técnicas de plantios, colheitas, festas propiciatórias e de ordem sacra, foi natural a mistura de tantos saberes e cultura. O plantio da mandioca, grãos, e principalmente o milho, e consequentemente as festas em torno da colheita farta, coincide com o solstício de inverno com as antecipadas chuvas para o preparo da terra. Realmente, em torno do milho, grão rico e ancestral, se desenvolveu toda uma cultura de cultivo, acondicionamento, replica das sementes, períodos de plantios e de colheitas, cruzamentos de espécies e principalmente da rica e substancial culinária característica do período e das regiões, e daí toda a grande festa que celebra a colheita. IMG-20170609-WA0034.jpg Neste contexto, a manutenção das tradições seculares, que advém de outras milenares, perpetua a história da ligação das comunidades com a terra, sua sobrevivência e sua história, não cabendo a maculação das mesmas com estereótipos avessos ao natural desenvolvimento de nossa cultura. Viva São João, o Carneirinho, São Pedro que abre as portas do aguaceiro do céu e Santo Antônio que cuida de unir os casais, no intento único de continuarmos procriando, como reza os textos sagrados, diante da graça de Deus, ou dos deuses!!!

Angelo Rafael Autor e pesquisador, Curador do MAPP – Museu de Arte Popular da Paraíba –Universidade Estadual da Paraíba. IMG-20170609-WA0021.jpg

Fotos de César Di Cesário - Festas juninas em Campina Grande - Paraíba.


Angelo Rafael

Artista Plástico, Designer. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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