Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

Ex voto - da Suméria ao Juazeiro

Breve reflexão sobre os "ex votvs", seu significado no contexto da relação do Homem com o Sagrado e fascínio à luz da semiótica.


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A primeira visão – traumática - que tive de um ex-voto, foi num cruzeiro de beira de estrada, quando criança. Na verdade sempre tive medo dessas capelinhas pintadas de branco, com cruz ou cruzes na cumeeira, no acostamento das estradas, e que sabia ser o ponto de algum acidente com morte, ou emboscada. Morte morrida ou morte matada. ex voto 3 cabeça ok.jpg Os sítios e fazendas de minha infância, os oratórios e santuários, exerciam em mim uma mistura de respeito e medo. Em dias de novenas, rezas, velórios, as velas eram acesas e se criava uma ambiência de mistério e esperas. Acreditava no sagrado e no divino, mas achava que as almas penadas se reuniam ali naquele instante. Tinha notícias de pessoas que viam uma assombração ou uma visagem. Este foi um assunto que perdurou em mim sem ser bulido, até que resolvi estudar para uma dissertação. E.. Surpresa! É um assunto vastíssimo, com uma bibliografia mais vasta ainda, e que se perde nas brumas do tempo. É assombroso sim, mas do aspecto enigmático e antropológico. No estudo da relação do homem por meio de um pequeno escambo: eu te peço isto, tu me dás, e eu te ofereço um regalo como prova da minha devoção e agradecimento. Assim se estabelece o voto por meio da fé. Em palavras simples este é o trato entre o suplicante e o suplicado. Mas o que há entre os dois é íntimo, sagrado, divino. Intocável! IMG-20180604-WA0026.jpg IMG-20180604-WA0053.jpg

Lá nos primórdios da humanidade, eram oferecidas parte da caça ou da coleta de frutos à natureza e seus elementos, que eram venerados por conduzir ao êxito tal intento. Assim eram com as colheitas também, onde parte dela poderia ser deixado na base de um monólito, como agradecimento à chuva por fazer brotar o alimento. Da Suméria, Egito, Grécia e Itália, e também na Irlanda e Reino Unido chegam referencias antigas e atuais sobre o ex voto, que também se estabeleceu no cristianismo primitivo e no catolicismo até os dias atuais. Mas longe de ser cristão. A origem é absolutamente pagã. beatas.jpg Do latim: ex quer dizer botar pra fora, e “votus” é o particípio passado do verbo “volere”. São muitas as vertentes para estudo do ex voto. As mais observadas e frequentadas tem a ver com à relação da fé e da promessa, com o alcance da graça e do milagre. Vaidade ou não – alguns autores discorrem sobre este veio, - o suplicante pode expor o objeto do seu “milagre” aos pés do divino ou sagrado, muitas vezes partes do corpo humano confeccionado em madeira, cera, pedra, referente as questões de saúde e mais recentemente, uma referência diferente como um diploma, uma aliança, um contrato de trabalho, uma casinha de madeira. Destarte pode se impor como um ser que é ouvido em detrimento daquelas pessoas que não alcançam a sua graça. Talvez ali nasça a vaidade, não como um tipo de pecado, mas de satisfação por acreditar-se especial. A Casa dos Milagres é outro ambiente que me fascinava e ainda exerce seu poder sobre mim. Sejam em museus, igrejas, capelas, cruzeiros, reconheço e sinto uma energia desprendida da fé de cada pessoa ali representada. Energia não se acaba, se transforma ou transmuta. 11049620_1638595969739823_4314388129849313562_n.jpg “Meu Divino São José, aqui estou em vossos pés...”: “– Oh Sebastião Bendito, aceitai minha oração”; “Bendito e louvado seja o céu e a divina luz...” são “benditos” cantados nos mais diferentes rincões do Brasil, trazidos por tradição lusitanas e espanholas (Galícia) e que tem no Serão Nordestino a mais sagrada expressão de fé, por meio das romarias e do depósito em terra e no céu da representação concreta de uma graça alcançada.

Fotos e ex votos: arquivo pessoal


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
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